EU NÃO SABIA QUE ERA TÃO LONGE

Apresentação    

            Leônidas Borges de Oliveira, Francisco Lopes da Cruz e Mário Fava são os três intrépidos brasileiros que, entre os anos de 1928 e 1938, realizaram a fantástica e heróica viagem entre o Rio de Janeiro e Washington, valendo-se de um carro Ford, Modelo “T”, fabricado em 1919, e uma caminhonete, da mesma marca e modelo, fabricada em 1926.

            A viagem durou 10 anos e aconteceu numa época em que as estradas existentes, muitas delas intransitáveis, não cobriam todo o trajeto que percorreram e, por não haver estrada, também não havia combustível.

            A falta de infra-estrutura de apoio para a realização de tamanha façanha não foi capaz de desanimar esses brasileiros, tão fortes eram os ideais que carregavam em suas almas.

O comandante Oliveira, o observador Lopes da Cruz e o mecânico Mário Fava, sonhavam transformar as três Américas numa única nação, através da ligação de todos os países num único povo, num único coração, numa única alma.    

Depois de percorridos 26.000 quilômetros de sofrimento, atravessando florestas impenetráveis, cordilheiras, rios e pântanos, enfrentando animais ferozes, índios hostis, neve, doenças, fome e sede, os expedicionários retornaram ao Brasil, cobertos de glória.

Ao longo do trajeto, foram recebidos pelas maiores autoridades dos países por onde passaram e aclamados pela população que os transformou em heróis e paladinos do pan-americanismo.

Chegados ao Brasil, foram homenageados pelas autoridades brasileiras, no Rio de Janeiro e em São Paulo, porém, passadas as honrarias, acontecidas nos primeiros meses após o retorno, a maior façanha do automobilismo mundial caiu no esquecimento.

Mário Fava, depois de retornar a Bariri, onde esteve em junho de 1939, seguiu seu destino desbravando fronteiras, fundando cidades no interior de Goiás e abrindo estradas para a corrida, ordenada pelo Presidente Vargas, para ocupação do oeste brasileiro, seguindo os passos outrora efetuados por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera.

 Francisco Lopes da Cruz foi trabalhar numa empresa de engenharia e, a partir de então, nada se sabe sobre seu paradeiro.

 O comandante Leônidas Borges de Oliveira foi para a Bolívia para ocupar a função de cônsul, em Santa Cruz de la Sierra, levando todas as anotações e o diário onde registrou os ocorridos da façanha. O cônsul, nomeado por Getúlio Vargas, faleceu em 1965 e, com sua morte, perderam-se, por muitos anos, todas as anotações que traziam a história da viagem, as quais só foram encontradas em 1998 e serviram como fonte de consulta de valor inestimável para a elaboração deste livro.

Uma parte das fotografias que documentam a viagem faz parte dos guardados de Mário Fava e foram doadas ao Beto Braga em 1998, alguns meses antes do falecimento do baririense. Outras pertenciam ao empresário Orlando Beluzzo, encontradas em 2008 entre os documentos e apontamentos do empreendedor baririense.

As narrativas contidas no diário do comandante e os documentos e fotografias que pertenceram ao mecânico e ao empreendedor foram utilizadas na elaboração deste livro, que entendemos ser de grande valor para a recuperação da figura e dos fatos que transformaram Oliveira, Lopes da Cruz e Mário Fava em heróis mundiais.

... e há quem diga que o feito dos intrépidos brasileiros, pelas dificuldades que enfrentaram na época, pode hoje, ser comparado a uma viagem de bicicleta, da Terra até a Lua.

 


 


Prefácio

 

Acompanhamos nosso pai durante a elaboração desse livro. Foram quase todos os finais de semana desde janeiro de 2005 até dezembro de 2008, antes dedicados a nós, quando, aos sábados e domingos, saíamos para passear ou almoçar nos restaurantes que escolhíamos, sem nenhuma interferência dele.

Lembramos do seu entusiasmo ao escrever. Parecia viajar ao lado dos heróis brasileiros, sofrendo com as dificuldades que os expedicionários enfrentavam e, alegrando-se com os momentos de glória, vividos ao longo da viagem em que percorreram 26.000 quilômetros. A viagem consumiu dez anos de suas juventudes.

Entendemos que a intenção desse trabalho foi mostrar para os leitores a bravura de um homem simples que disse “sim” ao seu destino, sem nunca imaginar que estava se transformando num grande herói.

Dirigindo-se a todos os leitores, as páginas desse livro contam a história da maior façanha do automobilismo mundial, exaltando a participação de Mário Fava, um homem simples e determinado que, cumprindo o seu propósito, transformou-se no personagem mais importante da missão impossível, realizada há 80 anos.

Todos se revelaram heróis; homens e carros, e assim foram reconhecidos nas três Américas. Os homens pela bravura, perseverança e idealismo e os carros, esses também foram heróis e o foram porque dois homens incomuns os impulsionaram: Henry Ford que os concebeu e Mário Fava, o mecânico. Todos resistiram aos desafios e dificuldades infinitas para que três homens, enlouquecidos por um ideal, cumprissem os seus propósitos.

 Esse livro conta, pela primeira vez, os fatos acontecidos durante a viagem que consagrou três grandes brasileiros e dois carros da marca Ford, modelo “T”.

 

                                                                Márcio e Ana Elise


                                        

I

Era uma vez...

 

 

No planalto paulista se alteia, qual um sonho, soberba visão...

No ar, o perfume das flores brancas, onde colibris e abelhas bebiam o mel doce e puro que abundava nas florestas. Flores que outrora cobriam a terra vermelha e fértil, boa e generosa, de onde um mundão de gente com mãos de pele grossa, enrijecidas pelo trabalho, tirava a riqueza farta que era oferecida a todos.

A natureza acordava bem antes do nascer do sol e o burburinho começava ao alvorecer. Lá pelas quatro ou cinco horas da manhã, um privilégio: a sinfonia de pios, gorjeios, trinados e chilreados dos sabiás, joões-de-barro, corruíras, maritacas, rolinhas, bem-te-vis, quero-queros, tico-ticos e pardais, todos os dias anunciava mais um dia.

Aves no cio. Era uma sinfonia encantada e mágica porque, afinal, precisavam voar para buscar o primeiro alimento do dia, cortejar a fêmea e colher os gravetos, penas de outros pássaros, das galinhas ou ainda a fibra macia do algodão, para o ninho.

Havia quem não gostava e reclamava da barulheira, mas os que têm alma de poeta, esses sim, sentiam nas veias a presença do Criador, aquele sem o qual nada teria sido feito, nem eu, nem você, nem ninguém. 

― Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que buscam o alimento com o suor de seus rostos...

Era o tempo dos cafezais e do trabalho, época em que um pai conseguia criar dez filhos e todos cresciam fortes como o cantar dos pássaros que cortejavam suas fêmeas, ou como as fibras das árvores exuberantes, o ipê, o angico, a peroba e o marfim branco e resistente, que cobria a terra fértil e vermelha que outrora pertenceu a João Leme da Rosa, José Antonio de Lima e outros pioneiros, bravos e valentes, que primeiro pisaram este chão sagrado, que dizem ter sido destacado do arco-íris pelas mãos generosas do Criador. 

Da cidade, ainda um vilarejo, saía uma estrada, a do Livramento, que alguns chamavam de Estrada da Igrejinha, porque no final havia um povoado e uma capela, construída em 1902 pelo padre e pela fé daquela gente, para devotar suas intenções à Mãe de Deus, a Nossa Senhora do Livramento.

No leito da estrada, desde a cidade até o Bairro da Igrejinha, a poeira vermelha e o barro pegajoso se alternavam quando o sol e a chuva se revezavam a cada pouco.

Um dia, da casa de quintal grande e um riacho no fundo, localizada no começo da estrada, mas ainda na periferia da cidade nova, ouviu-se o choro de uma criança. O canto da passarada emudeceu. Ninguém ouvia mais a algazarra dos pássaros: acabava de nascer uma criança.

A parteira era experiente, não só pelos muitos que pariu, mas também pelos inúmeros que ajudou a nascer e agora acrescentava mais um, para povoar a pequena cidade que há menos de duas décadas emancipara-se, pela ação do Coronel Correia, amigo do Governador  que, ao fazê-lo, não aceitou nomeá-la Prudentópolis. O Dr. Prudente de Morais preferiu chamá-la Bariri, porque no grande rio que existe no lugar havia uma corredeira, onde as águas eram agitadas e barulhentas e os nativos, da grande nação dos coroados, assim se referiam ao ruído gostoso, que pelas gotas que se desprendiam e flutuavam no ar, faziam acontecer o arco-íris, que irradiava cores, num espetáculo de luzes.

Um choro de criança interrompeu o cantar e a agitação do passaredo e todos os que se encontravam naquela casa respiraram fundo. Era 24 de janeiro de 1907, dia em que um novo filho aconteceu do casal daqueles italianos barulhentos que parlavam e parlavam, não se sabe se mais com as mãos ou com as gargantas, sempre sedentas por um bom vinho, que nunca podia faltar.

Giovanni, Giovanni, sei maschio, sei maschio questo bambino, é maschio...

E era macho mesmo. O pai, que viera da Itália com o nome de Giovanni, aqui era João, o João do Moinho, que fazia fubá pra polenta dos imigrantes que aportavam no município para trabalhar na lavoura do café, a riqueza da vez.

E os cafezais eram tantos... Plantavam-nos por todos os cantos e a riqueza que gerava atraiu uma estrada de ferro que, saindo de Trabiju, estava para chegar até Bariri, em busca do rico café, para levá-lo até o porto, e daí para a Europa e todas as Américas, através dos navios de grande calado.

O café fazia o progresso da cidade e os imigrantes italianos só pensavam em fazer a América, assim como Giovanni, aqui chamado de João do Moinho ou João da Máquina. Era italiano e sabia fazer fubá para a polenta dos paisanos que trabalhavam, como loucos, nas fazendas e lá se encantavam cada vez que os cafezais se vestiam de branco: 

 

Meu cafezal em flor.

Quanta flor, meu cafezal.

Ai menina, meu amor

Minha flor, do cafezal

Ai menina, meu amor.

Branca flor, do cafezal

 

Era florada,

Lindo véu de branca renda

Se estendeu sobre a fazenda

Qual um manto nupcial

E de mãos dadas, fomos juntos pela estrada

Toda branca e perfumada

Pela flor do cafezal ...

 

João Fava era italiano e a lembrança do longínquo, às vezes, fazia marejar os olhos saudosos dos que haviam ficado na “picula i bella Itália”, mas esse dia foi de glória porque o filho era maschio e para o italiano, quando o rebento é macho, a alegria é maior e assim foi na casa do Giovanni, que ficava na estrada da Igrejinha.

O pai sorria de alegria e o canivete cortava o fumo de corda entre os dedos da mão calejada, pela luta de toda hora, porque por muitas vezes, todos os dias, as lâminas escurecidas pelo negro venenoso do tabaco, transformavam a corda enrolada com folhas secas à sombra, com a sabedoria e conhecimento de quem enrolava o fumo, e fazia porque aprendera com o pai, e do pai passava para os filhos, desde o mais antigo dos antepassados. Eram fragmentos minúsculos, amassados e amaciados na palma da mão e envolvidos com a palha fina e macia do milho, que mãos calejadas plantavam para os animais e para a polenta.

O fumo não é uma coisa boa, todos sabem, não faz bem para as vias respiratórias e causa a doença brava e traiçoeira, mas o jovem pai distraía-se com o tabaco, sem pensar no seu mal. Pensava no bambino e era bom pensar. O menino era saudável e o choro contínuo e forte fez o pai lembrar Caruso, o grande tenor paisano.

  ― Este será um homem do mundo. Não haverá limites pra ele. Ele será grande, assim como todos os homens que sabem enfrentar as dificuldades com perseverança e luta. Nada será difícil para ele. É maschio questo bambino.

João repetia para todos os que chegavam para o cumprimento. Alguns traziam a galinha velha para a canja de caldo leve que a jovem mãe, a Dona Cezira Mazucatti, haveria de tomar nos quarenta dias que estavam por vir, porque esse era o costume da época, e todas as mulheres que tinham filhos assim o faziam, seguindo rigorosamente a orientação da nona, a matriarca da família:

― Esse menino será um homem do mundo...

O pai, feliz e orgulhoso, agora pensava no nome para o bambino maschio e queria que fosse do seu gosto. Tinha que atender, também, à orientação do Padre Affonso Moschella, porque se a criança não tivesse nome de santo, ah! não batizava mesmo...

― Giuseppe é um nome bom pra questo bambino. Vai ser Giuseppe...

E assim ficou Giuseppe. Giuseppe Mário Fava que, segundo o pai, não seria um homem comum. Haveria de ser um cidadão do mundo, mas o que seria o mundo para o João, que um dia veio da Itália no navio dos imigrantes, buscando as oportunidades para fazer a América?

― O mundo é a Itália, picula i bella. O mundo é Roma, a cidade e o país reinado por Victorio Emanuelle. O Brasil e todos os lugares para onde o café que é colhido em Bariri vai, também é mundo. O mundo é onde tem gente e gente toma café...

E o menino, que nasceu na primeira luz do dia 24 de janeiro de 1907, recebeu o nome de Giuseppe Mário Fava e assim foi registrado e assim foi batizado pelo Padre Affonso Mosquella, pároco da igreja matriz velha e da nova, que estava para ser inaugurada.

― Giuseppe, ego te batizo in nomini patris et filii et spiritu sancti. Amen.

 

 


II

O menino e a cidade nova

 

 

            O menino crescia e o vilarejo também.

            O pai, na labuta diária, entre as engrenagens e as correias do moinho de fubá e da máquina de beneficiar arroz, via o filho brincando e correndo, espantando rolinhas e outros pássaros, que eram atraídos e se deliciavam com o farelo produzido e acumulado entre as cascas retiradas do arroz nas operações de beneficiamento.

Vez por outra, aquelas aves minúsculas serviam de alimento para as crianças do italiano que, preparadas com todo carinho de mãe que a Dona Cezira trazia dentro de si, comiam-nas até deixar os ossinhos das perninhas e das asinhas sem nenhuma carne ou pele. Saboreavam e o prazer era tanto que, muitas vezes, deixavam de lado o arroz e a polenta assada na grelha, que era colocada sobre as brasas estendidas para fora da chapa do fogão que esfumaçava e pintava de negro o caiado das paredes e, mais escuro ainda, o canto que abrigava a chaminé, que ficava muito próximo do fogão.

Pelas ruas da cidade dos cafezais ainda se comentava com  empolgação o feito de Santos Dumont que, quase dez anos antes, no memorável 23 de outubro de 1906, domou e fez desprender-se do chão, sem nenhuma força externa, um artefato voador mais pesado que o ar.

― Só acredito vendo – diziam os mais incrédulos que, como quase todos, não conseguiam imaginar como o mecanismo funcionou e qual o mistério da Física, que fez o 14 Bis desprender-se do chão e sair, pela vontade e controle do seu inventor, que mantinha a máquina sob sua ordem e vontade, fazendo-a mover-se no ar.

As noticias que chegavam de Paris empolgavam as crianças da família, principalmente o quarto filho, o Giuseppe, que arregalava seus olhos de menino, quando ouvia falar das coisas que envolviam criatividade, principalmente as relacionadas com mecânica de máquinas e eletricidade, a novidade da época que, aos poucos, era difundida e assimilada pelo mundo, naquele início de século.

O pai, preocupado com a segurança dos pequenos, não permitia que os filhos se aproximassem das engrenagens e correias da parafernália que produzia o fubá, pelo esmagamento do milho entre as mós de pedra, movidas pela força do rio que passava no fundo do quintal e fazia girar a roda de madeira e os dispositivos mecânicos que impulsionavam as roldanas da máquina que beneficiava o arroz, e o fazia branquinho e limpinho, pronto para as panelas das mães de tantos filhos, daquele mundão de crianças que fazia a população crescer sem controle e de maneira explosiva.

João trabalhava muito no seu empreendimento. O fubá e o arroz, depois de preparados, eram servidos à mesa da brava gente que habitava a cidade nova. O torresmo, as costelinhas de porco, a mandioca frita e a salada de almeirão, que os oriundis chamavam de radice, faziam parte do prato que, só em pensar, dava água na boca.

― Senhor, somos gratos pelo alimento de todo dia. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo ― que, as crianças, ao ouvirem a oração de toda refeição, repetiam em coro:

― Amém.

            As máquinas do italiano não paravam, nem mesmo para o almoço. O italiano empreendedor de fundo de quintal construiu uma tirada e um dique para represar a água suja e às vezes barrenta, para transformá-la na força hidráulica, capaz de movimentar a roda que girava sem parar. O milho e o arroz, colhidos por mãos calejadas, abasteciam as máquinas e tanto o fubá como o arroz branquinho eram coletados. O primeiro, numa caixa de madeira com tampa e na outra máquina, o arroz limpo era coletado em sacos de algodão ou estopa, cujas aberturas eram fixadas em ganchos metálicos, posicionados na bica de saída, que ficava no final do processo.

            O ganho pelos serviços nem sempre envolvia dinheiro. Tudo era feito pela forma mais simples e primitiva do comércio, onde a troca era o pagamento que satisfazia as partes. Quem era da roça e produzia milho e arroz trazia o produto que, ao ser entregue no moinho, era medido numa lata e uma parte era descontada para pagamento dos serviços de beneficiamento. Para os que não tinham o produto, aqueles que viviam em trabalhos urbanos como o comércio, saúde, transporte ou outras coisas de cidade, esses compravam do moinho, pagando com o dinheiro vivo que João utilizava para adquirir produtos industrializados que vinham de fora: o vinho, a roupa, os sapatos, os chapéus, o querosene para iluminação, os remédios, a farinha, o açúcar e o sal.

            O movimento das pessoas que chegavam com milho e arroz e voltavam com os produtos beneficiados era diário, porém, aos sábados, dia em que os homens da roça tiravam para vir à cidade fazer suas compras, contar os pecados ao padre, vender o que produziam ou resolver negócios, mais que triplicava.

            ― Quando você está vindo com o milho, já estou voltando com o fubá ― era o jargão que diziam uns, para afirmar que eram mais hábeis, espertos e desembaraçados que outros.

            Na agitação que o progresso impunha, as pessoas que vinham de longe para se estabelecer na cidade logo se incorporavam à população sempre crescente, pelos migrantes e imigrantes que vinham de suas terras e se somavam aos que nasciam e eram registrados como baririenses.

            Os imigrantes italianos chegavam em maior número e logo iam para o cultivo do café e de outras coisas da roça, como o arroz, o milho, a mandioca, o feijão, além da criação de aves e animais, que eram utilizados no transporte ou para a alimentação.

Aos que vinham da Itália, se juntavam os do oriente médio, que chegavam documentados com passaportes expedidos pelo governo turco. Eram sírios e libaneses que ficavam irritados quando chamados de turcos. Não eram turcos. Acontece que tempos antes, o império otomano havia invadido e conquistado os países da região e os passaportes traziam selos e símbolos do império dominador. Assim documentados, chegavam e logo iam para o comércio, impulsionados pelo sangue dos antigos fenícios que traziam nas veias. No início percorriam a zona rural carregando malas pesadas, ora com a força de seus próprios braços, ora no lombo de burros que os amigos emprestavam. Eram muito trabalhadores. Abasteciam os moradores das fazendas com os seus produtos – coisas de mascates.

Os sírios e libaneses, depois de ganharem o primeiro dinheirinho, estabeleciam-se nas cidades, onde montavam seus próprios negócios e assim foram surgindo lojinhas, empórios e mercearias, que davam nova dimensão aos hábitos de consumo da população. Incorporaram-se à sociedade da cidade nova, juntando-se aos negros, aos imigrantes vindos da Itália e de outros lugares, além dos brasileiros de quatrocentos anos, pioneiros que primeiro chegaram para desbravar a mata exuberante. Formaram um único povo e contribuíram com seus sobrenomes para dar identidade à cidade nova. Foi assim que os sobrenomes Demétrio, Jacob, Beltrame, Forcim, Cava, Ferrari, De Alice, Brocco, Abrão, Oréfice, Canal, Massom, Cababe, Dugnani, Mazoti, Paleari, Minzon, Basso, Moreto, Cababe, Faidiga, Ticianelli, Fava, Mazzucati, Manzutti, Andolfato, Faidiga, Farah, Chidid, Mussa, Jorge e tantos outros passaram a identificar o lugar.

O progresso do lugarejo, que um dia chamou-se Freguesia do Sapé, fazia-se notar. As duas primeiras décadas do século novo foram de muito progresso. A consolidação da paróquia, com a construção de uma segunda Igreja Matriz para substituir a primeira, que fora construída e inaugurada em 1858, era um dos sinais do progresso e do crescimento que o lugar experimentava.

Outro sinal aconteceu em 1910, com a chegada dos trilhos da Companhia Douradense de Estradas de Ferro, empresa que pertencia a uma sociedade francesa. Naqueles tempos de difícil comunicação, era o elo que unia as cidades do interior paulista entre si e com o resto do mundo, através do Porto de Santos. A região era servida pelos trilhos de um ramal que ligava Trabiju a Bariri e pela mesma bitola permitia que a Douradense chegasse a São Carlos, através da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Um outro ramal partia de Trabiju e atingia Novo Horizonte. Havia um outro, de Trabiju a Dourado, onde a companhia mantinha suas oficinas. Do Posto Rangel, um lugarejo localizado entre Bariri e Bocaina, havia um ramal que ligava essas duas cidades à Bica de Pedra.

O progresso que a cidade vivia iniciara-se no final do século anterior, quando aconteceu a criação da cidade, a instalação da comarca, o início das obras da nova Igreja Matriz, a segunda, a fundação do primeiro jornal e a expansão da vida social.

No início da segunda década do século XX, a cidade viu erguer-se o Teatro Carlos Gomes, uma magnífica construção, dotada de cadeiras fixas e geral. Nesse teatro, exibiram-se as grandes companhias profissionais, vindas de fora, e grupos amadores locais, além de alguns bons filmes da época, uma vez que o teatro também funcionava como cinema.

O Teatro Carlos Gomes substituiu o Cinema Ideal que, pelo crescimento da cidade, não mais atendia aos baririenses, cada vez mais numerosos e exigentes.

Era nesse ambiente e situação que a família Fava crescia. Além do Giuseppe, o quarto filho, havia também o Antonio, o Rubens, a Aida, a Flora, a Coca e o João, todos criados no quintal grande da casa da estrada da Igrejinha. No terreno da casa havia, também, um jatobazeiro, árvore nobre que ainda permanecia intacta, apesar da força dos machados que desmatavam a floresta magnífica para plantar, em seu lugar, tão somente o café, café e mais café.

Com a chegada dos trilhos da Douradense, em 1910, as crianças se divertiam com o apito da locomotiva que acontecia todas as manhãs, quando o trem saía levando passageiros e produtos agrícolas, principalmente o café, a base econômica mais importante da cidade, e no final da tarde, com o retorno do comboio, em cumprimento do seu horário diário, trazendo mais gente e os produtos industrializados, que satisfaziam os desejos de consumo da população.  

O rio que movimentava correias, roldanas e engrenagens, logo ensinou os meninos a nadar e o faziam como se fossem verdadeiros peixinhos. Mergulhavam e nadavam e assim adquiriam força e resistência. A água represada também os ensinou a pescar. Cevavam lambaris, bagres, traíras, mandis, cascudos e outros peixinhos, atraídos pelo farelo, quirera de milho e pelo arroz quebrado, que era desclassificado pela máquina. Os cardumes que se formavam eram retirados da água pelos meninos, com peneiras, redes ou anzóis com isca de minhoca ou massa de pão.

Ao atingir sete anos, Giuseppe começou a freqüentar a escola, aprendendo as primeiras letras no primeiro grupo escolar da cidade, instalado há pouco, próximo de sua casa. Estudava pela manhã e ajudava o pai na parte da tarde.

O pai era rigoroso com os filhos e o trabalho fazia parte da educação que transmitia aos pequenos.

― Andate a lavorare, bambino. Chi non lavora non mangia.

Aos poucos, Giuseppe foi tomando gosto pelo trabalho e encantava-se com o funcionamento da parafernália que era movimentada pela força do rio. Engrenagens faziam rodar outras engrenagens, roldanas e correias e o barulho produzido fazia o menino sonhar:

― Um dia vou aprender o mistério dessas máquinas. Quero saber como funcionam e o porquê de cada uma das peças.

  Aos domingos, a mãe levava os filhos à Igreja Matriz, para as práticas religiosas. Eram católicos e Dona Cezira procurava transmitir aos filhos todos os ensinamentos do Criador.

― Deus é o amor e não existe salvação fora da caridade.

As palavras do Padre Aurélio Fraissat, durante os sermões que fazia nas missas de domingo, eram repetidas em casa, pela mãe, que se preocupava com a formação religiosa da família.

Ir à missa era uma festa para as crianças, não só pela pipoca e amendoim que a mãe comprava, mas porque era bom ver bastante gente, infantes vindos de todos os cantos e, mais ainda, porque na Praça da Matriz o movimento de carroças e charretes que chegavam das fazendas era grande, não sendo raro aparecerem os que vinham de Buenópolis, Soturna ou Bica de Pedra. Vinham também os moradores dos bairros rurais da cidade: Viuval, Barra Mansa, Viradouro,  Pocinho, Floresta, Bananal, Queixada, Ouro Fino, Iguatemi e Lagoa Messias.

Com a chegada dos trilhos e a inauguração da estação do trem, os anos que se sucederam foram movimentados. A estação de embarque e desembarque de produtos e pessoas foi construída no alto da cidade, no ponto onde os dois últimos grampos foram cravados para fixar o par de trilhos, no último dormente da ferrovia. Bariri era o final da linha, mas isso não tinha importância. O que valia é que na outra ponta daqueles trilhos estava o Porto de Santos, onde navios gigantescos embarcavam o café produzido pelos baririenses e pela gente de outras cidades, localizadas ao longo da linha, a fim de levá-lo, saboroso, aromático e estimulante, para a primeira refeição das mesas da Europa e América do Norte.

O café e a facilidade para enviá-lo para o exterior traziam muitas libras esterlinas e o dinheiro forte dos americanos, com os quais as pessoas que tinham acesso a essa grana podiam comprar o conforto e o bom da vida, não demorando muito para que os primeiros carros,  sonho de consumo da época, chegassem para que seus proprietários pudessem desfilar pelas ruas barrentas da cidade, exibindo o poder que haviam conquistado com o desenvolvimento que a terra fértil e generosa permitia.

O primeiro carro da cidade veio pelas mãos de Manoel Tuner, que trabalhava no comércio do café, comprando dos produtores locais e vendendo para os exportadores de Santos. O automóvel chegou em 1912 e o vaidoso dono desfilava pela cidade, atraindo a atenção de todos que, curiosos, encantavam-se com o barulho do motor, que  fazia o veículo se movimentar sem a ajuda de animais.

Giuseppe, ainda menino, ouvia o pai comentar, na hora da mesa, sobre a novidade que encantava os baririenses, dizendo que havia conversado com o Seu Manoel, o feliz proprietário do veículo. 

Num domingo, a mãe levou os filhos à missa e, ao sair, Giuseppe viu o carro do Seu Manoel, de quem o pai tanto falava. Ao vê-lo,  sentiu as pernas tremerem e o coração bater mais forte.

Enquanto a mãe conversava com as comadres e amigas, o menino foi rodear a novidade e viu o proprietário abrindo a tampa do motor, para tentar descobrir a causa de um barulho diferente. Giuseppe aproximou-se e olhou o motor funcionando. Tinha correias, roldanas e não precisava da força do rio para fazê-lo funcionar, assim como a roda d’água e as correias e engrenagens do moinho. O motor funcionava por si e dele podia-se sentir um cheiro semelhante ao das lamparinas que o menino conhecia e que eram utilizadas na iluminação das casas.

 Seu Manoel mexeu aqui e ali, até que o barulho estranho parou. O motor precisava de um simples aperto na correia que havia afrouxado.

O homem abaixou a tampa e olhou para trás. O menino estava boquiaberto com o que acabara de ver, olhos surpresos e paralisados.

― Esse motor tem força equivalente a vinte cavalos e é capaz de fazer o carro subir as ruas, como aquela que vai para a estação do trem, com velocidade maior do que a dos carros de boi que trazem o café para o embarque – disse o dono do veículo para um senhor que, curioso, também observava.

― O homem sabe consertar o motor quando ele não funciona? – perguntou-lhe Giuseppe.

― Só entendo das coisas mais simples. Para os problemas maiores a gente precisa procurar um bom mecânico, o que não existe na cidade. Carro ainda é novidade por aqui e em todos os lugares do mundo. Esse é o primeiro que chega a Bariri e agora outras pessoas também estão comprando. Logo muitos estarão circulando pelas estradas que levam às fazendas e pelas ruas da cidade. É o progresso que o dinheiro do café traz pra quem trabalha – disse o português para o menino.

― Um dia eu vou ser mecânico, vou entender de motores e consertar carros. O meu pai sabe consertar o moinho e a máquina de arroz e isso ele vai me ensinar, mas quero aprender a consertar carros também e vou ser bom nisso – disse Giuseppe.

― Você ainda é uma criança. Procure estudar e quando tiver idade aprenda uma profissão. A de mecânico de motores é muito boa, principalmente se você gosta disso – respondeu o português, comprador de café.

― Tenho sete anos e já estou na escola aprendendo as letras e os números; de um até dez eu já sei contar, quer ver só como já sei? Um, dois, três...

Nesse momento, a mãe, que conversava com outras mulheres na saída da igreja, viu o filho com o Seu Manoel.

― Giuseppe, andate bambino. Andiamo a nostra casa.

O menino atendeu ao chamado da mãe e dela se aproximou:

― Mamãe, quantas noites eu ainda preciso dormir pra gente voltar, outra vez, pra missa do Padre Aurélio?

Depois do primeiro carro outros vieram e, aos poucos, a nova modalidade de transporte foi-se incorporando ao dia-a-dia da cidade. Chegaram também as primeiras jardineiras para o transporte que haveria de ligar as cidades da região e logo estabeleceu-se uma linha regular ligando Bariri a Jahu e outra, ligando Bariri, Buenópolis e Soturna, com grande procura, em horários diários, de ida pela manhã e retorno no final da tarde.

 

   Enquanto a cidade crescia e as novidades aconteciam, o menino ganhava idade. Contava com 12 anos e já conhecia o básico das primeiras letras, o suficiente para ler e escrever, além dos cálculos de que o pai tanto precisava nas atividades diárias do moinho e da máquina de beneficiar arroz, quando viu seus sonhos e esperança serem substituídos pelo indesejável. A gripe espanhola acabava de chegar à cidade, trazendo desespero, insegurança e medo. Os Fava sofriam muito ao ver e saber que fregueses do moinho e outras pessoas conhecidas eram vitimas do terrível mal. Ninguém sabia se a peste seria vencida e a incerteza aumentava o sofrimento. A cidade, atemorizada, via a população sendo dizimada. Não havia distinção para as crianças, adolescentes, adultos ou idosos, ricos ou pobres. A doença colocava todos em risco e os meninos da casa de quintal grande, da estrada da Igrejinha, foram isolados, para evitar o contato que poderia ser fatal. O pai os mantinha em casa, não permitindo que fossem à escola ou que recebessem outros meninos para brincar e nadar no dique do quintal da casa.

Para enfrentar o terrível mal, a população mudou seus hábitos, procurando evitar o pior. A peste tinha que ser contida a todo custo. Festas, cerimônias religiosas e aglomerações de toda ordem, inclusive as aulas do Grupo Escolar, foram suspensas, para impedir a transmissão pelo contato. Os que eram acometidos pelo vírus tinham morte certa e, enquanto enfermos, muitos eram abandonados por aqueles que temiam o contágio.

A Prefeitura criou um ambulatório para receber e abrigar os acometidos pela peste, mas não havia uma única alma que, mesmo por caridade, aceitasse correr o risco da aproximação, para cuidar dos acometidos pelo mal que, aos poucos, viam na morte a única saída. Quando os óbitos aconteciam, não havia quem os enterrasse, até que a alma generosa e boa de um homem simples e puro, sensibilizada com a triste situação, resolveu correr o risco que todos temiam e passou a cuidar dos enfermos, alimentando-os e medicando-os, dentro do possível. Transportava os corpos dos que sucumbiam, para enterrá-los como cristãos no cemitério da cidade. José Teixeira foi esse homem de alma pura, que mesmo sem receber um centavo pelo feito, transformou-se no anjo bom da cidade.

 ― Esse homem foi mandado por Deus para aliviar o sofrimento dos infelizes. Que Deus o proteja dessa peste – diziam todos.

E protegeu mesmo. O anjo bom da cidade, filho de antigos escravos africanos, foi respeitado pela terrível peste e esse gesto o transformou na alma mais pura e generosa que a cidade conhecera. Ele humilhou a peste com a única arma de que dispunha: sua pureza e generosidade.        

― O Teixeira nunca poderá ser esquecido pelo tanto que fez. Esse homem deverá ser lembrado pelas futuras gerações - diziam as pessoas, em todos os cantos.

Virada a página mais triste da história da cidade, a vida voltou ao normal e os jovens voltaram a sonhar. Foi assim também com o Giuseppe que, desde criança, nunca se acovardou com as situações desfavoráveis, nem mesmo no tempo da temível peste importada da Espanha.

Giuseppe era valente e corajoso. As dificuldades, essas eram até humilhadas por ele, que mesmo com pouca idade demonstrava que haveria de ser um homem diferente, talvez um cidadão do mundo, como previra o pai, no momento da enorme alegria vivida, quando do nascimento do quarto filho.

Giovanni, Giovanni, é maschio, é maschio questo bambino, é maschio...

Era macho mesmo e o futuro para ele era entender os mistérios guardados no interior dos motores dos automóveis.

― O que será que existe dentro do motor para que tenha a força suficiente para movimentar os carros e as jardineiras, fazendo-as ir para Jahu, para Soturna ou para Buenópolis, carregadas de gente?

O menino crescia e aos poucos ia dividindo com o pai algumas das responsabilidades nas operações do moinho e da máquina de arroz. Todos os problemas mecânicos que aconteciam com as correias, engrenagens e roldanas da parafernália barulhenta ficavam por conta do Giuseppe, até que um dia chegou-lhe a notícia de que em Pederneiras a Prefeitura havia montado uma oficina para cuidar dos veículos que acabava de adquirir, para serem utilizados nos serviços de manutenção da cidade.

Giuseppe, que havia atingido os seus 18 anos de idade, não pensou duas vezes. Convenceu o pai e a mãe e deles recebeu a ajuda para o transporte e permanência por poucos dias em Pederneiras. A jardineira saía às 5h30min do dia seguinte e lá foi ele ao encontro de seus sonhos. Uma hora e pouco depois, a jardineira chegou ao Bairro da Queixada, onde alguns passageiros desceram e outros subiram. Depois de passar pelo Bairro das Palmeiras, a condução chegou a Pouso Alegre de Baixo, onde parou por meia hora para o desembarque e embarque de novos passageiros e para quem desejasse ir ao banheiro, o fizesse durante os poucos minutos da parada.

            A jardineira chegou em Jahu antes do meio dia. A parada final era no interior do Mercado Municipal e era de lá que outra jardineira deveria partir para Pederneiras, dentro de duas horas.

Giuseppe comeu alguma coisa, adquirida num dos botecos do mercado e, no horário previsto, tomou seu lugar na jardineira para chegar em Pederneiras no final da tarde.

            Era a primeira vez que Giuseppe saía de Bariri.


III

A oficina e o aprendiz.

              

A jardineira chegou e estacionou no ponto ao lado da igreja. Giuseppe desceu e sentiu no peito que o coração batia forte. Respirou fundo, olhou para o relógio da matriz - eram 17h22min do dia 18 de outubro de 1926 e nem podia imaginar que, quando saiu de Bariri, no mesmo instante, o Comandante João  Ribeiro de Barros, em Gênova, havia ligado os dois motores do seu hidroavião, batizado com o nome de sua cidade natal, Jahú, para iniciar a tão sonhada travessia do Atlântico, num vôo sem apoio de navios distribuídos ao longo da rota, como havia acontecido, em 1922, com Gago Coutinho e Sacadura Cabral que, além dos navios, valeram-se de três aviões “Fairey”, o Lusitânia, o Santa Maria I e o Santa Maria II, que foram sendo substituídos durante a viagem.

Depois de ver as horas, Giuseppe pegou a mala marrom e um saco branco com seus poucos pertences e perguntou a uma pessoa que passava:

― Senhor, onde posso encontrar uma pensão ou pousada para me acomodar por uns dias?

Essa pessoa era Patrício Sanches Sebrian, jovem de alma boa e gentil, que trabalhava na estação do trem transportando café e cereais para carregar os vagões que, todas as manhãs, seguiam para São Paulo e para o porto de Santos.

― Siga-me, porque eu vou passar na frente da casa de uma família que aluga os quartos que tem no fundo da casa. A pensão é limpinha e familiar.

― Fica muito longe?

―É perto, fica a uma quadra e meia. Aqui tudo é perto, a cidade, como vê, é muito pequena.

― E o preço, será que é muito caro?

―É popular. As pessoas que vivem aí são da roça e que vêm pra cidade para sair do cabo da enxada. Trabalham no comércio, na Prefeitura ou na estação do trem.

― Na Prefeitura? Eu fiquei sabendo que o prefeito montou uma oficina mecânica para manutenção da frota e estou interessado num emprego lá. Quero aprender a profissão. Meu sonho é ser mecânico.

― Ah! Você quer um emprego na Prefeitura? Vá lá amanhã e procure pelo Lauro Canelada. Ele é gente boa. Diga que foi o Patrício  que mandou você falar com ele. 

― Obrigado, mil vezes obrigado.

― Mas afinal, como é o seu nome e de onde vem?

― Eu sou Giuseppe Mário Fava. Venho de Bariri. Saí de lá bem cedinho. A jardineira rodou o dia todo. Eu não sabia que era tão longe.

― Mário, a pensão da Dona Dica é naquela casa amarela. Vê que por perto tem padaria, empórios e botecos, mas a Dona Dica serve refeições também. Ela cobra por mês.

Giuseppe agradeceu. O moço foi muito educado e gentil e a única coisa que estranhou foi a de ser chamado por Mário, coisa a que não estava acostumado em casa e nem pelos amigos de infância e juventude.

Giuseppe chegou na frente da pensão e, vendo a porta aberta, olhou para dentro, onde uma senhora colocava toalhas brancas numa das quatro ou cinco pequenas mesas que havia.

Imaginou que esta seria a Dona Dica.

― A Senhora é a Dona Dica?

― Sim, sou eu mesma.

― Quero saber se tem vaga pra mim.

― Pra quantos dias?

― Ainda não sei. Depende de uma colocação num emprego que estou procurando. Se der certo, pode ser que seja por muito tempo.

Após se entenderem, foram ver o quarto que ficava no fundo do quintal. Giuseppe gostou , acertaram o preço e voltaram para a sala. 

Dona Dica pegou um caderno que utilizava para controlar o movimento da pensão.

― Qual é o seu nome?

― Giuseppe Mário Fava. Sou de Bariri, tenho 19 anos, nasci no dia 24 de janeiro de 1907.

― Profissão?

― Até ontem à tarde trabalhei com meu pai na máquina de beneficiar arroz e no moinho de fubá que ele tem em Bariri, mas o meu sonho é ser mecânico e é pra isso que vim pra Pederneiras.

― Você prefere ser chamado de Giuseppe ou de Mário?

― Todos me chamam de Giuseppe, mas pode me chamar como quiser, sinta-se à vontade.

― Então vou chamá-lo de Mário e caso queira jantar, pode se servir. Tem sopa, arroz, feijão, frango, salada e pão.

Mário pegou a chave e foi para o quarto, abriu a mala, arrumou a roupa e seus pertences no guarda-roupa e na cômoda que havia ao lado da janela.  Pegou uma toalha e uma muda de roupa e foi para o banheiro. Era um só para todos e ficava ao lado dos quartos do quintal.

Depois do banho e jantar, Mário recolheu-se em seu novo aposento. Não conseguiu dormir naquela noite, tão grande era a ansiedade pelo que estava por vir. Não sabia se seria admitido no seu primeiro emprego fora de casa e se isso acontecesse, poderia ser a grande oportunidade com que sonhava.

Bem antes de o sol nascer, Mário levantou-se e foi até o banheiro, lavou o rosto e, enquanto o fazia, sentiu o cheiro gostoso do café que a Dona Dica passava pelo coador de pano sobre o fogão de lenha.

 Dona Dica percebeu que seu novo hóspede já estava por aí e chamou-o para o café.

― Mário, dentro de uns quinze minutos o café estará pronto. Você, caso queira, poderá vir.

Mário só pensava no que ia acontecer na Prefeitura e antes queria dar uma rápida passagem pela igreja. Sabia que devia procurar pelo Lauro para que o encaminhasse a quem de direito, mas não foi preciso porque, ao entrar, viu escrito numa folha de papel fixada em lugar bem visível, em letras grandes e bem legíveis: “Precisa-se de ajudante para a oficina mecânica. Não é necessário experiência”.

Mário sentiu as pernas tremerem.

― Eu não acredito!

Dirigiu-se ao primeiro que encontrou e, apontando para o anúncio:

― Estou interessado.

― Você quer ser ajudante de oficina?

― Sim, quero e vou ser mecânico de automóveis. Sempre tive esse sonho e estou aqui procurando por isso.

― Então vá até a oficina que fica aqui, nos fundos, mas antes pergunte pelo Lauro. Ele conversará com você e pode ser que se entendam.

― Lauro? Por acaso seria o Lauro Canelada?

― Sim, é ele mesmo. Você o conhece?

― Não pessoalmente. Conheço-o apenas de nome. O Patrício me falou dele.

E lá foi o baririense. Procurou, encontrou e conversou. Demonstrou tanto entusiasmo e vontade que jamais alguém poderia negar a ele o direito da realização do sonho.

― Quanto você pretende ganhar?

― Dando pra pagar a pensão da Dona Dica e uns poucos trocados a mais, está bom.

― Você quer começar amanhã?

― Se puder, até hoje. 

  Mário encontrou o que procurava e agora só bastava aprender e dedicar-se com o amor que trazia na alma.

No início, colocaram-no para lavar as peças sujas de graxa e óleo, embebendo-as na gasolina ou esfregando-as com estopa para depois secá-las ao sol e ao vento. Enquanto manuseava, o baririense observava, um a um, os dentes das engrenagens, as roldanas, os parafusos e procurava entender as ferramentas que eram utilizadas pelo único mecânico da oficina, o Luís Ávilla, que logo descobriu no Mário muita dedicação e interesse pela profissão.

― Mário, no futuro você será um grande mecânico. Continue assim que vai longe - dizia o mecânico experiente.

A oficina não dispunha de todos os equipamentos e ferramentas, mas estava bem aparelhada para o seu propósito. Tratava-se de uma oficina de apoio para a frota da Prefeitura e aí cuidavam da moto-niveladora, da pá carregadeira, do trator de esteira, dos três caminhõezinhos e dos dois carros, um que era utilizado pelo Prefeito e outro, pelo Encarregado Geral, que percorria todas as estradas rurais, principalmente depois das chuvas, para verificar as condições de tráfego e as erosões que aconteciam durante a estação das águas. Havia também outro carro que fazia as vezes de ambulância, porque era utilizado para transportar os doentes dentro do município, ou para levá-los para a Santa Casa de Jahú, onde o Doutor Braga parecia fazer milagres com os poucos recursos de que dispunha.

Mário descobria os mistérios das máquinas e dos motores com muita rapidez. Em pouco tempo, passou a desmontar as rodas, trocar pneus, consertar freios, escapamentos, além de trocar correias. As lubrificações dos motores também eram feitas na oficina pelo Luís Ávilla, o mecânico que contava com mais cinco ajudantes, todos da cidade. Apenas o Mário não era de Pederneiras e aí estava para a realização de um sonho de menino e à procura do seu destino.

Na oficina, além dos serviços de todo dia, Mário ligava os carros e os manobrava para posicioná-los dentro da oficina e assim foi aprendendo a dirigi-los e não eram raras as vezes que os conduzia até o local onde eram abastecidos.

O ambiente de trabalho na oficina era bom. As brincadeiras, na maioria das vezes, envolviam uma ligeira xenofobia, porém, sem nenhum tipo de maldade ou violência. Mário, por não ser da cidade e pela sua simplicidade, era o alvo mais constante das gozações.

― Mário, conta pra gente como é o fim de linha de onde você veio. É verdade que...

E foi nesse ambiente de trabalho e descontração que, um dia de início de agosto de 1927, um dos funcionários da Prefeitura, o Sérgio Gil, chegou à oficina com uma novidade:

― O Prefeito disse que ouviu no rádio que um jahuense conseguiu atravessar o mar, vindo desde a Itália até o Brasil, com um hidroavião.  Ele foi recebido como herói no Rio de Janeiro. O Prefeito falou que quando o piloto chegar a Jahú, vai liberar um caminhão para levar quem quiser ir pra lá. O feito foi tão grande, que é possível que a cidade de Jahú faça uma grande festa.

E era verdade mesmo. Acontece que na manhã de 02 de agosto de 1927, às 10h, o Comandante João Ribeiro de Barros pousou em Santo Amaro, na capital paulista, depois de sair de Fernando de Noronha, onde fez os mil cavalos de força dos dois motores do seu hidroavião romperem o silêncio da madrugada e clarear os arredores com a máquina barulhenta, superando todo tipo de sabotagem e problemas mecânicos. Seguiu rumo sul, passando por Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos e, finalmente, chegando à capital dos paulistas.

A notícia enlouqueceu a todos, mas o Mário não deixou por menos:

― Esse João registrou o nome na história. É um herói, assim como o mecânico que o acompanhou, porque nem posso imaginar quantos problemas tiveram que enfrentar. Está aí uma loucura que eu gostaria de fazer.

Passados alguns meses e assimilando cada passo dos parafusos que apertava, eis que um dia chega às mãos do futuro mecânico uma revista, estampando em sua capa, nada menos do que o grande inventor e pesquisador Thomas Alva Edson, com uma matéria onde o gênio americano dizia:

―Daqui pra frente o mundo será movido pela eletricidade.  

A afirmação do inventor da lâmpada e de mais de mil outros inventos, não tão famosos, tocou profundamente a alma do aprendiz de mecânica de motores automotivos.

― Um dia eu vou para os Estados Unidos aprender eletricidade com esse homem – disse o baririense aos companheiros de oficina para, a partir de então não ter mais sossego.

Agora, Mário não era mais o caipira que viera da cidade localizada no final da linha da Douradense, para trabalhar na oficina da Prefeitura em Pederneiras. Mário transformou-se no alvo de todas as gozações, porque disse que ia para os Estados Unidos tomar lições de eletricidade com Thomas Edson, um dos homens mais importantes e respeitados em sua terra e no mundo, pelos benefícios que seus inventos traziam para a humanidade.

Ele suportava pacientemente as brincadeiras que faziam por causa da sua infeliz e não bem pensada afirmação até que, um dia, um dos seus companheiros foi até a Prefeitura tratar de documentação, ou coisa semelhante, e de lá voltou com uma novidade:

― Mário, aí na Prefeitura estão dois homens que estão indo para os Estados Unidos com um carro Ford e um caminhãozinho, também Ford. Estão conversando com o prefeito. Por que você não aproveita e vai com eles?

Todos pensaram que essa era mais uma das inúmeras brincadeiras e até aproveitaram para colocar mais um pouquinho de lenha na fogueira, mas Mário acreditou e como a oficina ficava nos fundos da Prefeitura, deixou os companheiros rindo e foi até a porta do gabinete, onde o Prefeito conversava com os viajantes.

Ao chegar, Mário viu o prefeito Alfredo Mendes da Rosa acompanhando dois homens desconhecidos que, alegres e sorridentes, iam em direção dos dois carros que estavam estacionados na frente da Prefeitura. O prefeito despediu-se dos dois e desejou-lhes boa viagem.

Ao ver aquela cena, Mário não se conteve. Abordou os desconhecidos e disse:

― Por acaso são os senhores que estão indo para os Estados Unidos?

― Sim, nós estamos indo pra lá – disseram os dois, quase ao mesmo tempo.

― Vocês não me levariam pra lá?

― O que é que você faz?

― Sou mecânico, trabalho aqui na oficina da Prefeitura há dois anos.

― Sabe dirigir?

― Sei, o meu documento já tem mais de um ano. O prefeito, Sr. Alfredo Mendes da Rosa, concedeu-me a Carta de Habilitação no dia 26 de abril de 1926.

― Então você pega a chave do caminhão e nos acompanhe.

― Vocês me dão um tempo pra eu pegar as minhas roupas na pensão e as minhas ferramentas que estão na oficina?

― Vai, dou-lhe uma hora. Enquanto isso, eu e o Francisco vamos abastecer e encher nossos tambores com o combustível que o prefeito, gentilmente, nos autorizou. Nós nos encontraremos aqui, neste mesmo lugar, dentro de uma hora.

Mário foi até a pensão da Dona Dica e pegou seus pertences. Colocou-os na mala e num saco branco. Daí, correu para a oficina, de onde apanhou as poucas ferramentas que possuía: uma ou outra chave de fenda, uma chave de roda, um alicate, uma chave de boca e nada mais. Não se despediu de ninguém. O tempo não lhe permitiu.

Correu para o lugar marcado, onde os destinos de três homens e dois carros, corajosos e predestinados, se encontraram. Não houve um segundo sequer de atraso; homens e carros chegaram no mesmo instante.

Era quase inverno, junho de 1928.    


                                      IV

                    Encontro dos destinos

 

 

            Lopes da Cruz saiu do caminhão e o Tenente Oliveira, do carro. Sem que soubessem o nome do novo companheiro, trocaram dois minutos de conversa:

― Você está mesmo disposto a ir conosco? – perguntou Leônidas.

― Claro que estou, esse é o meu desejo e até agora parece-me que estou sonhando – respondeu o mecânico.

― Então acomode as suas coisas na caminhonete e venha. Siga-nos. Vou com o Lopes da Cruz na frente e você nos segue, dirigindo o caminhão. Devemos parar em Bauru – disse o Comandante Oliveira.

Lopes da Cruz entregou a chave para o mecânico e seguiu para o outro carro, com o Oliveira. Manivelas e chaves de ignição, colocaram os carros em funcionamento.

            Mário tomou assento no veículo que lhe fora determinado e acompanhou o carro, seguindo-o a uma distância de cinqüenta metros.

            Nem o Oliveira, nem Lopes da Cruz e muito menos o Mário podiam imaginar que nesse exato momento e lugar, seus destinos se encontraram e, a partir daí, não se poderia pensar em um, sem lembrar o outro.

Com os destinos cruzados, saíram de Pederneiras e logo alcançaram Guaianás, um vilarejo que outrora abrigara um grupo indígena e daí o nome, desviando e deixando para trás as carroças e carros de boi que seguiam pela mesma estrada, transportando a colheita de café de João Durval Arantes, o fazendeiro que dominava aquelas terras e era muito conhecido na região.

Aos poucos, as rodas dos carros iam vencendo o leito da estrada, desnudo, mal traçado e nada conservado, onde os aros metálicos das carroças moldavam sulcos no solo arenoso que, somados às trilhas criadas pelas patas dos bois e dos burros, pelas tantas passagens de todos os dias no mesmo lugar, tornava-a intransitável e representava um desafio horrível que só era vencido porque os carros, ambos Ford, Modelo T, concebidos por Henry Ford, eram valentes e superavam todas as adversidades dessa natureza.

Depois de Guaianás, a expedição passou por Aymorés, onde o governo mantinha um leprosário para isolar e abrigar os filhos menos felizes do nosso Deus.

Os dois carros passaram ao lado do sanatório, lugar considerado maldito e evitado, seguindo pela estrada mais batida, uma vez que no lugar havia uma bifurcação com caminho de menor movimento, que levava às propriedades rurais.

Os três viajantes sabiam que em pouco haveriam de chegar a Bauru, mesmo porque, apesar de a estrada não permitir melhor desempenho dos veículos, a distância entre Pederneiras e Bauru mal passava de trinta quilômetros, mesmo considerando-se o caminho tortuoso.

Mário, seguindo o carro da frente, pensava na decisão que havia tomado. Ir de carro, desde o Brasil até Nova York, ao lado de dois outros que lhe pareciam simpáticos e movidos por um ideal indiscutível, cujo entusiasmo e alegria convenciam e contaminavam a todos, não estava fora de seus propósitos. Tinha consciência de que a missão não era pequena, mas nem podia imaginar a dimensão dos problemas e dificuldades que o esperavam e que haveria de encarar, sem recursos que não fossem apenas a criatividade, a disciplina adquirida na infância e a força interior que o caracterizava.

O pouco conhecimento e a simplicidade que trazia dentro de si, próprios daqueles que quase nada estudaram e que jamais saíram do lugar onde nasceram, faziam-no imaginar que dentro de poucos meses, três, quatro, cinco, ou no máximo seis, estaria de volta. Essa era a visão que guardava em sua mente simplória e, por isso, o fato de nem se ter despedido ou comunicado à família, em Bariri, não o preocupava.

Depois de Aymorés, rodaram mais um pouco e logo avistaram a cidade de Bauru, que experimentava um impressionante progresso, mais pela sua posição geográfica do que pela vocação agrícola, porque suas terras, excessivamente arenosas, não eram tão generosas como o chão sagrado das cidades de seu entorno, Bica de Pedra, São Paulo dos Agudos, Pederneiras, Jaú, Bariri e Boracéia.

Bauru posicionava-se como entroncamento de estradas e ferrovias, o que a tornava passagem obrigatória para aqueles que seguiam para as diversas fronteiras da expansão agrícola do Estado de São Paulo e acesso ao então distante Estado do Mato Grosso. Esse vai e vem de gente tornava-a rica e próspera. Tão grande era o movimento do comércio, hotéis e alimentação, que fazia parte do dinheiro circulante transferir-se para a cidade que servia a todos com a estrutura criada para isso.

José Gomes Duarte, o Juquinha, era o prefeito da cidade. Havia sido eleito em janeiro de 1926 e administrava a cidade com muita competência, uma vez que desfrutava da experiência adquirida nas suas atividades particulares e em 1928, depois de dois anos de sua administração, havia muito progresso em todos os campos, inclusive e principalmente no que se referia à saúde, uma vez que o hospital da Sociedade Beneficência Portuguesa acabava de ser inaugurado e trazia muita segurança para a população que, a partir de então, sabia que podia contar com medicina de qualidade.

O hospital não só alegrava aos bauruenses, como também aos moradores das cidades ao longo da ferrovia ou das estradas que dispunham de transporte rápido e seguro.

Os dois carros entraram na cidade pela Rua Batista de Carvalho e seguiram até a Praça da Estação, onde sabiam que haveriam de encontrar um hotel ou uma pousada para um bom banho, descansar e passar a noite.

Antes de chegarem à Praça da Estação, o carro da frente reduziu a velocidade e dele, quase parando, surgiu uma pergunta para um senhor que olhava para os dois veículos que se aproximavam:

― Senhor, onde posso encontrar um hotel? - perguntou-lhe o Tenente.

― Logo aí, no Largo, vocês vão ver o Hotel Cariani. É familiar e muito limpinho. É muito procurado e está sempre lotado, se tiverem sorte...

Os carros entraram na Praça da Estação e da esquina viram o letreiro estampado em letras grandes e bem visíveis, no alto da fachada: Hotel Cariani.

Estacionaram e Lopes da Cruz desceu para ver se havia lugar para três. Cinco ou seis minutos depois, o engenheiro saiu da recepção do hotel e foi até o Oliveira:

― Tem só um quarto com duas camas. O recepcionista disse que pode montar uma terceira, só que vai ficar um pouco apertado.

― Não tem importância, vamos ficar nesse mesmo – respondeu o Comandante.

― O recepcionista disse que podemos colocar os carros no quintal e que o portão de entrada é pela Rua Primeiro de Agosto, ao lado. É só chegar lá, buzinar, que o menino abre o portão.

Oliveira dirigiu-se para o portão, enquanto Lopes da Cruz dava um sinal, com a mão, para que Mário também seguisse.

Estacionaram no quintal. Oliveira desceu, esticou o corpo e dirigiu-se ao Mário, que ainda manobrava o caminhão para colocá-lo no espaço que o Tenente havia deixado.

― Amigo, veja que nós estamos juntos desde Pederneiras e ainda nem sei o seu nome. Como você se chama?

― O meu nome é Giuseppe Mário Fava. Na minha casa todos me chamam de Giuseppe, mas na oficina, em Pederneiras, sou chamado por Mário.

― Pois vou lhe chamar de Mário. Gostei mais de Mário do que de Giuseppe. O meu nome é Leônidas Borges de Oliveira e aquele  outro é engenheiro, chama-se Francisco Lopes da Cruz. Nós nos conhecemos no Exército, em Santa Catarina, há pouco mais de dois anos. Vamos descarregar nossas coisas.

― Pego os pertences do seu amigo também e levo para o quarto – falou o mecânico.

― Lopes da Cruz disse que o pessoal do hotel ainda vai montar mais uma cama, no único quarto vago de que dispõem. Ficaremos os três e vai ser bom porque aproveitaremos para conversar e nos conhecermos melhor. Quero explicar pra você qual o objetivo dessa nossa viagem – disse Oliveira para o Mário.

― Eu acho ótimo e o que vocês decidirem fica bom pra mim. Eu só quero ir pra Nova York. Vi uma revista em que Thomas Edson disse que o mundo vai ser movido pela eletricidade. Você acredita? – perguntou o baririense.

― E pelos carros também – disse Oliveira, indicando para os dois veículos que acabavam de estacionar.

― Isso é verdade e é por isso que eu, desde criança, me interesso por mecânica e agora gostaria de saber sobre a eletricidade de que o homem da revista falou – completou o mecânico.

― Esse homem inventou a lâmpada também. É muito inteligente, assim como o Henry Ford, que idealizou esses carros que vão nos levar ao lugar de onde saíram. O automóvel foi fabricado em 1919 e o caminhãozinho, em 1925 – disse Oliveira.

Enquanto Oliveira e o mecânico conversavam, Lopes da Cruz chegou ao quintal, dizendo que podiam colocar as malas no quarto e  usar o banheiro, enquanto montavam a cama.

― Pois eu vou já ao banheiro. Estou com a bexiga estourando e não agüento mais - disse Oliveira.

Oliveira foi e deixou seus pertences no chão do quintal. Mário pegou sua mala e a do Oliveira, enquanto o engenheiro apanhava o que lhe pertencia para levá-los ao quarto.

― Eu ainda não sei o seu nome. Você fala com o mesmo tom e assento do Oliveira, que é de Descalvado, no interior do Estado de São Paulo. Parece-me que você também é paulista, não é?

― O meu nome é Giuseppe Mário Fava, nasci em Bariri e a minha família ainda vive lá. Bariri fica perto daqui.

― Pois o meu nome é Francisco Lopes da Cruz, sou catarinense. Tanto eu como o Oliveira somos do Exército e nos conhecemos quando servíamos no mesmo batalhão. Ele é Tenente e eu sou Capitão-Engenheiro, mas nesta viagem ele está sendo o comandante porque foi ele quem idealizou e planejou tudo, além de a viagem nada ter a ver com o Exército. Além disso, ele é de boa conversa e tem muita facilidade para convencer as pessoas.

Oliveira saiu do banheiro e encontrou os dois na recepção. Já haviam colocado as malas no quarto e saíram para dar espaço para que montassem a cama.

― Será que vai demorar muito? Perguntou o Tenente.

― Parece-me que a arrumadeira ainda não entrou para estender os lençóis – respondeu Lopes da Cruz.

Minutos depois, foram avisados de que as camas estavam arrumadas. Oliveira levantou-se e foi para o quarto, seguido por Cruz e pelo mecânico.

O quarto, como haviam sido informados, era pequeno para três camas e mal sobrava espaço para as cadeiras onde colocaram suas malas. Havia um guarda-roupa com três portas e a janela do quarto, de madeira com venezianas e vidro transparente na parte superior, dava para a praça. Não havia nenhum afastamento entre o edifício e a calçada da rua que contornava a praça.

O barulho do vaivém de gente e do movimento defronte da  estação, sem contar com o apito da locomotiva, quando da chegada ou saída, não eram nada confortáveis para os hóspedes dos quartos da frente e era num desses, o de número 2, que os três estavam hospedados.

Os viajantes desfizeram parte de suas malas e colocaram no guarda-roupa, uma porta para cada um. Oliveira afrouxou a roupa que o vestia, tirou as botinas e deitou-se sobre a colcha, cobrindo-se com o cobertor que estava dobrado sobre a cama.

― Mereço um descanso, depois de um dia tão corrido. Saímos de Descalvado antes do nascer do sol.. Pegamos a estrada para São Carlos, passamos por Ribeirão Bonito, Dourado, Jahú, Pederneiras e agora estamos em Bauru e só Deus sabe quando vamos voltar, se é que um dia a gente volta – disse o tenente.

Mário ouvia atentamente e pouco falava. Não se sentia tão à vontade com os novos companheiros - também pudera, essa era a primeira vez em que estavam conversando de verdade, mesmo porque o pouco que falaram em Pederneiras nem podia ser considerado e na viagem dirigiu o caminhão, sempre seguindo o carro que viajava na frente, com os outros dois.

Oliveira relaxava gostoso, estendido sobre sua cama, enquanto o engenheiro e o mecânico ainda ajeitavam os cabides no guarda-roupa e, ao terminar, fizeram o mesmo. Soltaram a cinta, abriram alguns botões da camisa, tiraram as botinas e as meias, abriram os dedos dos pés e cada um se deitou numa cama, tal como o Oliveira havia feito minutos antes.     

 ― Vamos descansar uma meia hora, depois a gente toma um banho e vamos procurar alguma coisa pra comer – disse o tenente.

― Oliveira, o rapaz da recepção disse que o hotel serve refeições e que o jantar vai até as 22 horas. Eu disse que a gente prefere assim – disse o engenheiro.

― Então vamos conversar um pouquinho para que o nosso novo companheiro saiba o motivo e a intenção desta nossa viagem – disse o tenente.

― Estou muito curioso para saber. De minha parte, o que me colocou ao lado de vocês foi apenas o desejo de ir para os Estados Unidos. Fiquei muito curioso quando vi a revista com o homem que inventou a lâmpada dizendo aquilo da eletricidade e não sei se lá terei a oportunidade de aprender alguma coisa – disse o novo companheiro.

― O motivo da nossa viagem é outro - disse o engenheiro. Nós estamos viajando pra lá com a intenção de promover a união de todos os povos da América através de uma estrada que, passando por todos os países, desde o extremo Sul até o extremo Norte do continente, faça com que todos nós sejamos um único povo, forte e irmão. Se essa estrada se tornar realidade, as três Américas serão apenas uma, tão forte será a ligação comercial e cultural entre nós.

― Nós estamos indo mais ou menos com a cara e a coragem – disse o tenente. O Presidente Washington Luís é um tremendo mão-de-vaca. Seu governo não nos deu um centavo, apesar de o Brasil ser enormemente beneficiado se a estrada sair. Quando da nossa saída do Rio de Janeiro, no dia 16 de abril, houve uma festa que nos emocionou muito. Saímos com o automóvel que o Jornal “O Globo” nos doou. “O Globo” é o patrocinador oficial da viagem e na cerimônia de partida o redator chefe, Dr. Euricles de Mattos, estava presente e batizou o automóvel com o nome “Brasil”, mesmo porque a contribuição brasileira será muito importante para a integração das Américas. Eu diria que a nossa expedição será o Brasil percorrendo as três Américas e isso muito nos envaidece. Além do Dr. Euricles, o Presidente da Ford Motors do Brasil, cujo escritório está no Rio de Janeiro, o Sr. H. Brausnistein, também estava presente, tanto é que sua filha, a senhorita Jane Elyn, de rara beleza, foi convidada para ser a madrinha do “Brasil”. O Embaixador dos Estados Unidos, Sr. Edwin Morgan e o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, o Dr. Otávio Mangabeira, em nome do presidente Washington Luís, também estiveram na cerimônia e nos entregaram as credenciais e cartas de recomendação para as autoridades dos países por onde haveremos de passar.  A Banda Marcial da cidade estava lá e suas notas musicais também nos emocionaram. Saímos eu, o Lopes de Oliveira e um mecânico, que nem gosto de dizer seu nome, porque se sentiu inseguro e nos abandonou. Arrependeu-se da decisão tomada e na primeira oportunidade que teve, abandonou-nos sem mesmo se despedir. Procuramos por ele e nada. Acho até que foi bom, porque se desistisse mais pra frente, nos criaria problemas maiores. Veja, Mário, como há males que vêm para o bem. Se ele não tivesse nos abandonado, você não estaria nessa, não é?

― Eu quero muito conhecer os Estados Unidos – disse o mecânico. Tenho 21 anos de idade, sempre vivi agarrado ao rabo da saia da minha mãe e quando completei 19 anos resolvi sair à procura do meu destino, indo parar em Pederneiras, onde aprendi coisas que jamais poderiam acontecer se ficasse ajudando o meu pai, na máquina de beneficiar arroz e no moinho de fazer fubá, sem contar que os meus irmãos estão crescendo e lá não haverá lugar pra todos. Alguém precisava sair e eu tomei essa decisão.

Sob o calorzinho do cobertor, o engenheiro já puxava um cochilo e não participava mais da conversa.

― Pois então, ao chegarmos em São Paulo, O “Brasil” ganhou um companheiro, que é esse caminhão que você dirigiu até aqui. Também é Ford, Modelo “T” e você, como mecânico, sabe muito bem que o Henry Ford foi muito feliz ao desenvolver seus automóveis, nos quais conseguiu juntar a resistência com a valentia e isso sem contar que a mecânica é muito simples, como você, que é do ramo, sabe melhor que eu – disse o comandante.

― O prefeito de Pederneiras, o Sr. Alfredo Mendes da Rosa, tem um e eu fazia sua manutenção, mas raramente tinha problema maior do que uma simples limpeza de velas e troca de correias. O carro é simples e valente – disse o mecânico.

  Como o carro que o Jornal “O Globo” nos doou recebeu o nome de “Brasil” e assim foi batizado pelo redator chefe, o Dr Euricles de Matos, na presença do Presidente da Ford Motors do Brasil, que representa a companhia de Detroit no Rio de Janeiro, o caminhão  recebeu o nome de “São Paulo” e nos foi doado pelo Jornal do Comércio. Foi-nos entregue em São Paulo, pelo Dr. Mário Guastini, diretor do Jornal. O Dr. Mário, quando ficou sabendo que o outro carro tinha sido batizado com o nome de “Brasil”, não deixou por menos e disse:

― Então esse tem que se chamar “São Paulo”, mesmo porque São Paulo é importante para o Brasil e o Brasil é importante para São Paulo. Assim, ao longo da viagem serão esses dois carros; um será grande para o outro e ficarão na história, vocês vão ver se não tenho razão.

― Saímos de São Paulo sob a aclamação da multidão que compareceu à cerimônia, a qual teve até a bênção do Arcebispo, Dom Duarte Leopoldo e Silva. Dom Duarte abençoou os carros e nos disse que haveríamos de cumprir nossa missão porque Deus estaria viajando conosco, uma vez que o Criador sempre está ao lado das pessoas que participam de causas nobres e unir os povos de um continente era uma missão de paz. Saímos de São Paulo rumo a Descalvado. Eu queria passar uns dias com os meus pais e aproveitar para ver a Lurdinha, o grande amor e paixão de minha vida. Os pais dela não me aceitam, apesar do amor enorme que trazemos em nossas almas – disse Oliveira.

Os trinta minutos propostos haviam vencido e já eram quarenta e cinco. Leônidas olhou para  Lopes da Cruz, que dormia serenamente.    Chamando a atenção do mecânico, disse:

― Vamos acordar o Francisco e pegar um banho, apesar do frio e dos nossos corpos estarem quentinhos, aqui sob o cobertor. Depois do banho vamos jantar e dar uma volta na praça pra ver se tem alguma coisa que interessa. Sempre, por perto das estações ferroviárias e dos portos, as “primas” costumam fazer ponto. No Rio de Janeiro, a Praça Mauá é o paraíso dos marinheiros e viajantes.

Oliveira chamou pelo engenheiro, que acordou.

― Acorda, homem. Não sei como você consegue dormir sem tomar banho. Vamos jogar uma água no corpo, jantar e dar uma voltinha na praça pra ver se tem algo pra nós – disse o tenente.

Cruz entendeu perfeitamente a que o tenente se referia e levantou-se depressa.

― É bom, mesmo. Desde São Paulo que não encontro nada. Também, pudera, Descalvado é um lugar de beatas.

            E foram para o banho. Primeiro, o Oliveira; depois, o Mário e, finalmente, da Cruz, que ficou por último porque ainda se recuperava do sono interrompido.          


V

O roubo e o encontro com Juquinha

 

 

            Depois do banho e do jantar, os três viajantes saíram para uma caminhada pela praça e pelas ruas próximas ao hotel. Subiram a Batista de Carvalho, observando as vitrines das casas comerciais e os bares que permaneciam com suas portas abertas até mais tarde. Antes de chegarem ao cruzamento com a Rua Rio Branco, encontraram um bar onde havia uma mesa de bilhar.

― Francisco, vamos tirar uma? – disse o tenente.

― Posso deixar o meu lugar para o Mário, caso o amigo queira – respondeu o engenheiro.

― Eu nunca joguei isso. Lá em Bariri, o único jogo de que o pessoal gosta e pratica é a bocha. Onde tem italiano tem jogo de bocha e lá tem pelo menos dois ou três campos, sem contar os das vendas da zona rural.

― Então, vamos disputar uma ou duas partidas. Se você quiser ficar observando, para aprender, fique à vontade - disse Lopes da Cruz para o mecânico.

― Sim, ficarei atento, mas não tenho nenhum interesse em aprender. Ficarei à porta para observar o movimento e fazer companhia para vocês – disse o mecânico.

Mário não entrou no bar. Ficou observando as mulheres que passavam. Era um mulherengo de primeira linha. Alto, bem apanhado, olhar penetrante, cabelos negros e porte que se enquadrava muito bem nos padrões de beleza masculina da época. Era muito simples, mas nem por isso deixava de ser atraente e assediado pelas mocinhas casadoiras. Mário gostava da coisa.

Enquanto apreciava o movimento da rua, na mesa de bilhar Leônidas vencia a segunda partida e a Lopes da Cruz coube o pagamento do tempo de jogo.

― São dois tostões - disse o dono do bar – um para cada partida.

O engenheiro acertou a conta e os dois saíram do bar e se juntaram ao Mário, que os aguardava na calçada.

― A temperatura está caindo. Esta noite deve ser muito fria e não sei se os cobertores do hotel serão suficientes – disse Lopes da Cruz.

― Hoje a gente tem o privilégio de dormir num hotel, mas lá pra frente, não se sabe o que nos aguarda – disse o comandante.

Chegaram ao hotel. Lopes da Cruz dirigiu-se ao recepcionista e pediu a chave:

― A chave do quarto número dois, por favor.

Pegou a chave e os três se dirigiram para o quarto e, ainda no corredor, perceberam que a luz estava acesa.

― Parece que, ao sair, esquecemos de apagar a luz. – disse Mário.

Lopes da Cruz colocou a chave na fechadura e deu duas voltas. A porta se abriu e, ao entrar, percebeu que as coisas que traziam nas malas estavam esparramadas pelo chão e sobre as camas. Roupas, papéis e documentos estavam numa bagunça de fazer dó. Oliveira correu para onde havia escondido o pouco dinheiro que reservara para os custos dos primeiros quilômetros da viagem. Não havia nada. Olhou para a janela e percebeu que os trincos estavam abertos e as folhas da janela apenas encostadas. A travessa de segurança estava pendurada, com uma das extremidades presa ao grampo que a fixava no batente de madeira e a outra, onde existe um gancho que se encaixa no orifício da peça que a recebe, no outro batente, permitindo que a travessa, ao ser posicionada na horizontal, mantenha as duas folhas fechadas e sem chance de serem abertas, a menos que haja um arrombamento que requer força descomunal ou até ferramentas do tipo pé-de- cabra.

― Roubaram tudo – disse, inconformado, o tenente.

Lopes da Cruz correu para a janela, abriu as duas folhas que estavam apenas encostadas e olhou para fora. Nada. Nem um sinal indicando que algo fora do normal havia acontecido há pouco. Voltou-se para dentro do quarto – o comandante Oliveira saiu apressado, quase correndo, seguindo para a recepção do hotel.

― Fomos roubados. Você não ouviu nada, não percebeu nenhum movimento estranho em nosso quarto?

― Roubados, como? Eu não saí daqui e as pessoas que entraram no hotel não passaram da recepção.

― E você não ouviu nenhum barulho estranho?

― Ouvi sim, mas pensei que era um de vocês que ainda estava no quarto. Faz mais ou menos meia hora, ou pouco mais, que ouvi alguma coisa, mas nada me fez pensar que seria um alheio.

― E você nem verificou se a chave do nosso quarto estava na recepção? Ela estava aqui e isso era suficiente para que você desconfiasse que nenhum de nós se encontrava no quarto – disse Oliveira.

― Essa é uma das raras vezes em que isso acontece. Aqui, na cidade, quase não existe esse tipo de coisa e, por nunca acontecer, a gente nunca desconfia.

― E aconteceu... Agora, sem dinheiro e sem conhecer ninguém, não sabemos o que fazer. Temos que recuperar o que perdemos, para que possamos prosseguir com nossa missão – lastimou o comandante.

― Quem vive está sujeito a dissabores dessa natureza e, afinal, os ladrões, por onde entraram?

― Foi pela janela. Percebemos que ela estava apenas encostada e sem nenhum sinal de arrombamento – disse o engenheiro.

― Então vocês deixaram a janela aberta?

― Nós, não. Deixamos como a encontramos e não percebemos que não era segura.

― Amigo, a janela dá pra rua e aqui, por ser perto da estação do trem, tem sempre gente estranha, que chega e que vai. Nenhuma janela é segura e se vocês vêm de cidade grande, Rio de Janeiro e São Paulo, não confiem tanto no interior. Aqui passa gente de todo lado...

― Que lástima! E agora, que não nos sobrou um vintém? O que faremos?

― Recomendo que façam queixa na polícia, ainda hoje ou amanhã cedo, se é que hoje na Delegacia ainda tem alguém de plantão. Não acredito que consiga recuperar a grana, mas, quem sabe?

― E onde fica essa Delegacia?

― Fica na Praça da Matriz., Seguindo pela Batista de Carvalho,  ao entrar na praça você logo a vê.

― Vou pra lá agora e, se não encontrar ninguém, volto amanhã. Preciso falar com o gerente do hotel, antes de ir até a delegacia.

Os três viajantes voltaram para o quarto e fecharam a janela com os trincos, travando-a no batente superior e no inferior. Reforçaram também com a travessa, encaixando o buraco da extremidade móvel no grampo do batente oposto, onde tem um orifício para fixar o gancho. Fecharam também a porta, dando duas voltas na chave e levaram-na ao recepcionista.

― Vocês fecharam a janela? – perguntou ele.

Ninguém gostou da pergunta, mas não responderam no mesmo nível. Apenas ouviram e cada um pensou para si e engoliram as palavras que queriam botar para fora.

― Os problemas que o roubo nos causou são muitos e não haveremos de procurar mais um. Não vale a pena dar o troco, mesmo porque isso não reparará nossas perdas – disse o engenheiro.

Os três subiram a passos largos pela Batista de Carvalho e, ao entrarem na Praça da Matriz, viram a delegacia, tal como lhes informaram.

             ― Vamos ver se encontramos alguém para registrar a queixa, ainda hoje, porque amanhã pode ser tarde – disse o comandante Oliveira.

            Chegando à frente da delegacia, um policial olhou para os três e perguntou:

  O que querem?

            ― Queremos registrar uma queixa. Fomos roubados no hotel, onde estamos hospedados. Parece-nos que faz menos de duas horas – disse Oliveira.

― O registro da queixa só é possível para amanhã, mesmo porque o escrivão não se encontra. Se vocês esperarem um pouco, poderão conversar com os policiais que fazem a ronda, que em breve retornarão à delegacia. Eles poderão dizer se viram alguma coisa estranha ou suspeita. Vocês poderão conversar com eles para que fiquem atentos quando da próxima rodada – disse o policial plantonista.

Minutos depois, os dois policiais chegaram e logo foram abordados pelos viajantes que repetiram a mesma história, há pouco contada para o policial da guarda.

― A ronda foi normal. Só tivemos um pequeno problema com o Heráclito Braga e com o seu capataz, o Olimpião. Os dois, patrão e empregado, que deram umas porradas fortes nuns valentões, lá no Bar da Estação. Fora isso, não observamos nada que chamasse nossa atenção. Sabendo que houve essa triste ocorrência, estaremos mais atentos ainda e, se houver alguma novidade, avisaremos vocês lá no hotel – disse um dos policiais da ronda.

Oliveira, Lopes da Cruz e Mário retornaram ao hotel e no caminho nem uma palavra foi trocada. Era bem provável que os três caminhassem pensando que ao longo da viagem haveriam de encontrar coisas desse tipo, ou pior.

― Caramba! Só isso nos faltava...

Chegaram. Lopes da Cruz adiantou-se para pegar a chave, pois queria evitar o contato do Oliveira com o recepcionista, porque imaginava que o tenente o trazia atravessado na garganta e não haveria nada que o fizesse engolir.    

            Era de se esperar que passassem a noite em claro e assim foi. Rolaram nas camas o tempo todo e nada de fecharem os olhos.

Antes do nascimento do sol, já estavam lastimando:

― Como é que isso foi acontecer? – dizia o tenente e os outros, se nada falavam, era certo que pensavam coisa pior ou semelhante.

Foram para o refeitório, para o café da manhã. Contavam os minutos e as horas para voltarem à delegacia e o tempo não passava. Vez ou outra olhavam para o relógio fixado na parede da recepção.

Depois de um longo silêncio, Oliveira rompeu-o e olhando para um e para o outro companheiro disse:

― Quanto mais o tempo passa, mais difícil será a recuperação da nossa tão difícil e desejada grana. Precisamos estar preparados para o pior. Mesmo que a gente não consiga recuperar, nada alterará o nosso ânimo e vontade de realizar nosso sonho e ideal.

― O seu desejo é o de todos nós. Somos jovens e temos toda força que a juventude nos permite. Sonhar é próprio do jovem e nós temos esse direito. Coloquei na cabeça que devo conhecer os Estados Unidos e vou fazê-lo, mesmo que isso me custe muito sacrifício. Jamais devemos desistir de nossos sonhos – disse o mecânico.

― Pois é – disse Oliveira. Vamos registrar a ocorrência e depois conversar com o prefeito, contar a nossa situação e, a exemplo do que fizemos em Pederneiras, vamos ver de que maneira ele pode nos ajudar. Acreditem que será assim o tempo todo. A missão só sairá vitoriosa, se contarmos com a ajuda e o apoio de todos. Vamos procurar saber quem é o prefeito e onde fica a prefeitura e vamos até ele. O pior que pode acontecer é ele não nos receber, ou não estar na cidade.

Levantaram-se e foram para a delegacia. Estava funcionando plenamente e logo foram atendidos. Leônidas contou o ocorrido, além de identificar a si e aos companheiros. Aproveitou também para perguntar sobre o prefeito:

― Quem é o prefeito da cidade?

― O prefeito de Bauru é o Sr. José Gomes Duarte e todos o chamam de Juquinha. Vai lá que ele é homem do povo, recebe a todos, mesmo sem marcar horário – disse o plantonista.

― E qual é o horário do expediente?

Olhando para o relógio na parede, atrás dos três viajantes e, vendo que marcava 9h40min, o escrivão disse:

― Ah! Lá eles começam cedo. Nesse horário é provável que o Juquinha já tenha conversado com um mundão de gente. Ele é muito popular e fala com todos, sem distinção.

― Vamos voltar para o hotel e de lá iremos para a prefeitura. Temos que caminhar contra o relógio, mesmo porque o tempo não para – disse Oliveira.

Saindo da delegacia, os três voltaram para o hotel. Oliveira queria apanhar os documentos que recebera do Ministro das Relações Exteriores, o Dr. Otávio Mangabeira, um, assinado pelo próprio ministro e outro, pelo Presidente Washington Luís, além de um terceiro, do Embaixador dos Estados Unidos, Mister Edwin Morgan, no dia partida, no Rio de Janeiro.

― Esses documentos vão impressionar o prefeito. Ele terá prova de que estamos numa missão reconhecida e aprovada pelo presidente Washington Luís e pelo governo dos Estados Unidos, através do seu embaixador. Sentirá que nos ajudando, estará agradando ao governo – disse o tenente.

Entraram no hotel. Mário aproveitou para ir até o pote e tomar um copo de água – achou-a pesada. Lopes da Cruz acompanhou  Oliveira e ambos permaneceram pelo menos meia hora no interior do quarto e, ao sair, ambos estavam vestidos com o uniforme de gala do nosso Exército Brasileiro. Oliveira, além da farda, trazia sobre o lado direito do peito as medalhas de mérito que havia conquistado, quando serviu no CPOR, em São Paulo, e outras obtidas quando efetivado no Exército, servindo em Recife, Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Trazia nas mãos os documentos recebidos do ministro e do embaixador.

― Vamos ver o tal Juquinha. Acredito que esse é o caminho que devemos tomar. Chorar pelo leite derramado não nos ajudará em nada – disse Oliveira, mostrando-se conformado com o transtorno que a perda do dinheiro lhe causara.

Oliveira era um excelente estrategista e parece que o roubo não lhe causou o mal que parecia tê-lo tocado nos primeiros momentos, ao contrário, fê-lo mudar a forma de comandar a expedição.

― Temos que seguir em frente e não será um ladrão que vai nos abalar. O que aconteceu não é nada, se compararmos com o que nos aguarda – disse Oliveira.

Em seguida, olhando para dentro dos olhos do capitão-engenheiro e do mecânico, agora com a tez transformada pela nova postura, o tenente disse:

― Marquem bem o que vou dizer. A nossa viagem não começou no Rio de Janeiro, há três meses. Bauru é o marco zero. Nossa viagem começa neste momento e aqui é o início da nossa caminhada. Seguiremos em frente e nada nos impedirá. Um ladrãozinho faminto não é nada para nós e um feito tão pequeno jamais nos abaterá. Adotaremos a mesma disciplina que aprendemos no Exército e será dessa maneira que seguiremos em frente. Seremos rigorosos na implantação da disciplina militar que vai nos guiar daqui pra frente e nos dará a vitória. Enfrentaremos a morte porque sei que só ela conseguirá nos impedir, mas, se não acontecer, estejam certos de que o objetivo maior será cumprido. Vamos ver o prefeito. Iremos com os nossos carros que estão no quintal do hotel. Se pretendemos impressionar, vamos fazê-lo por completo – disse o comandante Oliveira.

Os três saíram pela porta que dá acesso ao quintal. Mário abriu o portão e seguiu para o caminhão, aquele que foi doado pelo Jornal do Comércio e batizado com o nome de São Paulo. Lopes da Cruz e Oliveira acomodaram-se no Brasil, com o engenheiro no volante e o comandante ao lado. Saíram pelo portão que dava para a Rua Primeiro de Agosto e seguiram para a prefeitura, onde estacionaram e desceram, entrando pela porta principal do edifício, sob o olhar curioso e assustado de servidores e munícipes que aí se encontravam para cuidar dos seus interesses, junto à municipalidade.

Ninguém estava acostumado com tanta pompa e as portas foram se abrindo, sem nenhuma formalidade. A curiosidade era muita.

― Quero falar com o prefeito – disse o comandante para o primeiro funcionário que encontrou, logo após ter adentrado ao prédio da municipalidade.

― Vou anunciá-lo ao prefeito. Creio que ele o atenderá imediatamente – disse o servidor.

Enquanto o servidor os anunciava ao prefeito, Leônidas dirigiu-se ao mecânico e disse:

― Já lhe disse quem somos e o porquê de nossa viagem. Vou repeti-lo ao prefeito. Preste atenção porque é bem possível que, quando conversamos no quarto do hotel, eu tenha deixado de falar alguma coisa importante. Contarei sobre a grandeza da nossa missão e a importância do nosso trabalho. Sentirá por  que a nossa disciplina tem que ser tal qual acontece nos quartéis e por que temos que colocá-la acima de nossas vidas. Numa missão como essa, ou se triunfa ou se morre. Não existe outro caminho ou alternativa. Conte com a vitória, porque, se essa não acontecer, as nossas vidas não terão sentido.

Mal o comandante acabara de falar com o baririense, o servidor retornou do gabinete do prefeito:

― O prefeito disse que podem entrar. Pediu-me também para que dispensasse os que o aguardam na recepção. São da cidade e ele os atenderá na parte da tarde ou em outro dia.

O servidor dispensou os munícipes que faziam fila na recepção e esses, sem saber o que estava acontecendo, saíram imaginando que havia algo diferente e estranho, e deram asas à imaginação...

A novidade começou a correr pela cidade e o papo, em forma de fofoca, tomou conta das conversas das comadres e dos mais afeitos às coisas da imaginação:

― Parecia o Duque de Caxias, com aquela roupa de Marechal, entrando na Prefeitura...

― O peito do homem estava forrado de medalhas. Ele deve ser muito importante.

― Será que vieram prender o prefeito?

― Coitado do Juquinha!!!  O que será que ele aprontou?

            Enquanto as conversas, geradas como fruto das imaginações férteis e criativas, tomavam conta da cidade, no gabinete do prefeito a conversa corria com muita curiosidade e expectativa.

            Os três viajantes entraram no gabinete, conduzidos pelo servidor e, ao fazê-lo, Juquinha os aguardava.

― Bom dia. Sejam bem-vindos à nossa cidade. Os bauruenses são bons e hospitaleiros. Sou o prefeito e meu nome é José Gomes Duarte.

Recebeu-os, cumprimentou-os educadamente, apertando a mão direita de cada um e, depois de cumprida essa formalidade, com a simplicidade e generosidade que caracterizam as pessoas do interior, convidou-os a sentar nas cadeiras dispostas no entorno da mesa que mantinha no gabinete para as reuniões administrativas.

― Sou Leônidas Borges de Oliveira, Tenente do Exército Brasileiro e comandante da missão que definirá o pré-projeto da Carretera Pan-americana, uma rodovia que unirá os povos das três Américas. Acompanham-me o Capitão-Engenheiro Francisco Lopes da Cruz e o mecânico Giuseppe Mário Fava. Sou natural de Descalvado,  Francisco é catarinense e  Mário é de Bariri.

― Vocês aceitam um cafezinho ou preferem um copo d’água? A água de Bauru é um pouco pesada, mas para beber recebemos de uma fonte que vem de Piratininga, uma cidade vizinha.

― Senhor Juquinha, estamos hospedados no Hotel Cariani e há pouco exageramos na refeição da manhã. Agradecemos muito pela sua gentileza – disse o engenheiro – mesmo assim, brindando a sua hospitalidade, aceitarei meia xícara de café, com pouco açúcar.

Depois de saborearem o delicioso cafezinho, provavelmente produzido nas terras vermelhas e barrentas das barrancas do Rio Tietê,  o engenheiro, sem muita cerimônia, tocou no assunto que os levara até o prefeito.

 ― Ontem fomos roubados e hoje estamos sem um tostão. O ladrão levou tudo o que tínhamos e colocou-nos numa situação de extrema necessidade.

O comandante, que havia armado uma estratégia diferente e mais forte para conseguir algum, entrou na conversa, argumentando, à sua maneira:

― Senhor prefeito, o que o Lopes da Cruz lhe disse é um fato, porém, antes de qualquer coisa, eu gostaria de mostrar-lhe o propósito do que ora estamos realizando e que, por se tratar de algo muito importante para todos os homens das Américas, estamos recebendo adesões de toda sorte através das pessoas de bem, empresários e políticos honrados que, ao tomarem conhecimento dos detalhes da importante missão, se empolgam e botam tanta fé no empreendimento que não resistem ao desejo de estabelecer conosco uma parceria, em forma de apoio e doações em espécie ou material.

― Senhor comandante, sinta-se à vontade. Estou ansioso para ouvi-lo e o farei com muita atenção – disse o prefeito.

― Pois é, senhor prefeito, há tempos os povos da América sonham com a integração pan-americana. A ligação de todos os países, desde o extremo sul do Chile até o Canadá, através de uma estrada que haverá de romper todas as fronteiras, permitirá que o nosso imenso continente se transforme numa pátria única, para que todos desfrutem do privilégio de viver num mundo fraterno, sem guerras ou preconceitos. O intercâmbio e entendimento entre os povos será bom pra todos.

― Senhor comandante – interrompeu o prefeito - isso não será mais um sonho impossível, como aquele que passou pela cabeça de Simon Bolívar?

― Se o meu sonho for o sonho de todos os homens, ele deixará de ser sonho para ser um fato e o que planejamos não é fruto de um simples pesadelo ou pensamento leviano, daqueles que acontecem durante as noites mal-dormidas. O que planejamos é tão factível e acreditamos tanto, que a ele estamos entregando nossas vidas. Os forjadores desse mundo do meu Deus são aqueles que fazem possível o que todos imaginam impossível.

Mário ouvia atentamente, sem nada dizer. Queria apenas saber dos detalhes que ainda não conhecia, enquanto, aos poucos, ia tomando gosto pela inesperada missão e pelos desafios que haveria de encarar com bravura, porque essa era a sua maneira e o seu jeito de jovem, quando em Bariri. Nunca havia se acovardado diante dos desafios e dificuldades.

Enquanto o comandante Oliveira expunha o plano e sua filosofia para o Juquinha, Lopes da Cruz acompanhava-o com o pensamento, aguardando o momento próprio para entrar na conversa:

― Seu Juquinha, eu e o Oliveira nos conhecemos em 1925, quando ele, depois de concluir o CPOR, com louvor, na capital do Estado de São Paulo, incorporou-se ao exército e foi servir em Recife e depois em Santa Catarina. Sou catarinense e nos tornamos amigos desde o dia em que nos encontramos no mesmo batalhão. Nas conversas que mantínhamos na caserna, o então primeiro tenente fez despertar em mim uma grande admiração por ele, pela sua inteligência, capacidade de organização e facilidade de convencimento e de comando. Um dia ele chegou pra mim e disse:

—Capitão, eu tenho um plano que, para materializá-lo, preciso de você como parte dele. Você é engenheiro civil, com o mais amplo conhecimento na área de projetos e implantação de estradas e é exatamente dessa experiência que preciso. Quero planejar, projetar e construir uma estrada com os tantos quilômetros necessários para ligar o Pólo Sul ao Pólo Norte, passando, integrando e fazendo irmãos, todos os povos da América.

 Não é preciso dizer - continuou o engenheiro - que me assustei com a idéia e no primeiro momento pensei que ele era um desequilibrado, acometido por uma loucura que ninguém poderia imaginar. Mas como louco, se até então eu, que o conhecia dentro e fora do quartel, nunca havia notado qualquer tipo de desvio do seu comportamento? Ele me contou seus planos e me convenceu, não só de que nada tinha de louco, como também de que era um obstinado. Desde então, utilizando os meus conhecimentos acadêmicos e a experiência que acumulei ao longo dos meus trinta e cinco anos de vida – eu nasci em 1893, quando o Floriano era presidente – ajudei-o a concluir o plano e aqui estamos porque acreditamos.

O que planejamos - interferiu Oliveira – é construir uma longa estrada que, partindo da Patagônia, alcançará a Bolívia, seguindo pelo altiplano da Cordilheira dos Andes e daí o Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Estados Unidos e Canadá. Para os países que não estão alinhados com a via coletora principal haverá ramais, rigorosamente planejados, para ligá-los ao tronco principal. Incluindo essas regiões, estaremos formando um sistema viário integrado de tal maneira que ninguém haverá de ficar fora do sistema.

O prefeito arregalou os olhos, expondo no semblante um misto de surpresa e descrença, imediatamente assimilado pelo comandante.

― Acontece, senhor prefeito, que esse plano entusiasmou a todos. Hoje estamos numa missão oficial porque o plano que acaba de ouvir convenceu as mais importantes autoridades deste país. O presidente da República, o Dr. Washington Luís Pereira de Sousa, que é engenheiro de renomada experiência no ramo da construção de estradas e dono de uma empreiteira, a CCPS - Construções e Comércio Pereira de Souza que, como homem público governou o Estado de São Paulo e agora governa o Brasil, define que governar é construir estradas, pensamento esse conhecido por todos e em todos os rincões do nosso Brasil. O pensamento e a experiência do Presidente o colocam acima de qualquer suspeita nesse particular. Ele, no pedestal da sua grandeza, também se entusiasmou com o nosso plano e a prova que lhe dou é que trago comigo as credenciais escritas e assinadas pelo senhor Ministro das Relações Exteriores, o Doutor Otávio Mangabeira, através dos quais nos apresenta para todas as autoridades e governantes dos países por onde haveremos de passar. Temos também as credenciais expedidas e assinadas por Mister Edwin Morgan, o atual embaixador dos Estados Unidos no Brasil, recomendando-nos às autoridades de todos os países, tanto para os governantes locais como para os embaixadores que representam os Estados Unidos. Os carros, ambos da marca Ford, Modelo “T”, reconhecidos por todos como um carro de qualidade superior a qualquer outro similar, nos foram confiados, um pelo Jornal “O Globo”, do Rio de Janeiro, através e pessoalmente, pelo seu redator chefe, o Dr. Euricles de Matos, que o batizou com o nome “Brasil”; e o outro, uma caminhonete, também Ford, Modelo “T”, doada pelo Jornal do Comércio, de São Paulo, que, além de receber do Dr. Mário Guastini, o redator do jornal, o nome de “São Paulo”, foram ambos abençoados pelo arcebispo da capital, Dom Duarte Leopoldo e Silva. Quando da nossa partida, em abril, na cidade do Rio de Janeiro fomos honrados com a presença do presidente da Ford, no Brasil, Mister H. Braunistein e sua filha, a senhorita Jane Elyn. O apoio dessas importantes autoridades nos credencia em qualquer ponto por onde haveremos de passar.  Bauru e o seu ilustre prefeito estão em nosso trajeto.

O prefeito pegou as credenciais que o tenente Oliveira lhe entregou e, olhando-as atentamente, fez mais uma pergunta:

― Não tenho dúvida de que esse empreendimento milionário é fantástico e importante e que certamente cumprirá o propósito que vocês acabam de me expor, mas onde vai encontrar tanto dinheiro para implantá-lo, considerando-se que a grande maioria dos países, inclusive o Brasil,  não dispõem de tantos recursos?

― Senhor Juquinha, esse empreendimento não custará nada para nenhum dos países. Será um presente que os povos sofridos da América receberão e, a partir daí, todos assistirão a um verdadeiro espetáculo de crescimento. Eu disse, um verdadeiro...

Depois dessa, será que o leitor, atento à conversa aqui descrita, pode imaginar o que se passou na cabeça do prefeito?

― Não vai custar nada?

― Além do traçado, cujo pré-projeto definimos ao longo desses últimos anos, temos uma proposta para viabilizar sua implantação – disse o comandante. O empreendimento será autofinanciável e é por isso que o plano prevê que nenhum dos países entrará com recursos de seus sofridos orçamentos. O empreendimento contempla a desapropriação de extensa área ao longo da via, em lugar cuja topografia se mostrar favorável. A divisão desta em uma quantidade de lotes que serão comercializados mediante venda de bônus, com direito à posse de um lote para cada unidade, gerará a receita necessária para a implantação da Carretera Pan-americana. A obra transformará o continente num único país e os povos que nele vivem num único povo, que será feliz porque todos serão irmãos. Quanto ao local para a desapropriação, esse será definido quando da passagem de nossa expedição pelo ponto que se mostrar conveniente, fato que acontecerá, naturalmente, ao longo de nossa viagem. Poderá ser num único lugar ou mais, porém tudo indica que a topografia da América Central se mostrará viável. A idéia é repartir a área a ser escolhida em um milhão de frações, que corresponderão a um milhão de bônus que, vendidos a 100 dólares cada um, gerarão cem milhões de dólares, importância essa que consideramos, a preços de hoje, mais do que suficiente para a implantação do empreendimento.

― Maravilha!!! – exclamou o prefeito – a cidade de Bauru terá a maior honra em compartilhar com esse empreendimento, mesmo porque esse é um momento crítico para vocês, depois do roubo de que foram vítimas. A prefeitura não dispõe de verba para tal fim, a menos que haja uma aprovação através da Câmara dos Vereadores, coisa que, devido à urgência que a situação requer e a tramitação que o processo exige, se torna inviável, mas a prefeitura pode assumir os gastos que vocês estão tendo com  a hospedagem e ainda poderá fornecer combustível, peças de reposição e pneus. Quanto a uma ajuda para repor o dinheiro que lhes roubaram, poderei dar a minha contribuição pessoal, além de procurar alguns amigos que tenho na cidade, bons de grana, e com um pouco da generosidade de cada um poderemos contribuir de maneira significativa.

Mário, que assistiu a tudo sem dar uma só palavra, aproveitou o momento em que o prefeito mostrava-se disposto a abrir a mala e...

― Senhor Juquinha, tem outra coisa que sei que não será difícil para a prefeitura. Eu sou o mecânico e sei que as ferramentas que levamos conosco não serão suficientes para enfrentarmos os inevitáveis problemas que teremos pela frente. Sei que a prefeitura tem uma oficina para manutenção de sua frota, inclusive do carro do prefeito. Não seria possível nos ceder algumas delas? Precisamos também de uma bomba manual para encher os pneus.

― Claro que sim. Vou pedir ao chefe da oficina para que, ainda hoje no final da tarde, o procure no hotel para que, juntos, vocês definam tudo de que necessita. Essa é uma coisa que podemos fazer sem dificuldade, uma vez que temos verba para reposição de equipamentos e ferramentas. Vivo assinando empenhos e pagando notas para aquisição de ferramentas para a oficina, quase todos os dias.

― Obrigado prefeito, a sua contribuição será muito valiosa para nós.

O prefeito e os três viajantes se levantaram e antes da despedida e agradecimento:

― Senhor Juquinha, agora eu aceito um copo d’água – disse o Comandante.

O prefeito solicitou que lhe trouxessem água e café para os quatro e, enquanto aguardavam, o engenheiro dirigiu-se ao Sr. Juquinha:

― A sua contribuição, assim como as que recebemos desde a nossa partida, no inesquecível dia 16 de abril, ajudarão a levar o Brasil através das três Américas, ligando, simbolicamente, a nossa Pátria com as demais, numa união que será eternizada pela futura Carretera Pan-americana. Os povos de todos os rincões da América estarão gratos àqueles que prestaram apoio moral, material e financeiro, como é o caso dos bauruenses, pelas mãos do seu ilustre prefeito.     

   


VI

A retomada do caminho para o desconhecido

 

 

 

 

            Os três retornaram ao hotel e estacionaram os veículos nos mesmos lugares de onde saíram para o encontro com o prefeito da cidade. Lopes da Cruz e Oliveira trocaram suas roupas por outras menos formais e foram até a delegacia para saber se havia alguma novidade. Nada.

            Mário permaneceu num vai e vem, entre o quarto e a porta de entrada do hotel. Estava ansioso, pensando na relação de ferramentas que haveria de pedir quando do encontro com o chefe da oficina que, conforme o prefeito lhe prometera, deveria acontecer no final da tarde – aguardava-o para as 16horas.

            A partir das 15 horas, sua ansiedade aumentava e os minutos não passavam. Mário controlava o tempo a cada segundo, olhando para o relógio da parede, na recepção do hotel. Para chegar 15h10min, demorou um século, mas, por sorte, uma charrete parou na frente do hotel e o mensageiro desceu, indo até a recepção:

            ― Estou à procura do mecânico que está hospedado aqui, com mais dois outros senhores de fora. Não sei o seu nome e a única informação que recebi é a de que ele neste hotel, acompanhando dois militares de alta patente.

            Mário ouviu a conversa e mais do que depressa dirigiu-se ao mensageiro:

  Eu sou quem você procura. Por acaso você é, ou vem da parte do chefe da oficina da prefeitura?

― Não sou o chefe, mas venho da parte dele para levá-lo até a oficina, onde o aguarda. Todos o conhecem por  Pé-de-breque.

Mário deixou um recado na recepção para que os dois companheiros fossem avisados de sua saída.

Sentou-se na charrete, ao lado do mensageiro e, em pouco tempo, estava na oficina conversando com o tal Pé-de-breque.

― O Juquinha pediu-me para atendê-lo, fornecendo-lhe as ferramentas de que necessita. O que temos é do nosso dia-a-dia. Separe o que precisa e leve. Vou apenas relacioná-las e encaminhar para a prefeitura para que as reponham, conforme o prefeito prometeu – disse o mecânico, chefe da Oficina Municipal.

Mário acompanhou Pé-de-breque e juntos separaram o que o mecânico julgou necessário. Não se esqueceu da bomba manual para encher pneus e dos reparos para consertá-los em caso de furo na câmara de ar. Eram diversos kits produzidos pela Michilin, na França, e importados para esse fim. Lembrou-se também de apanhar uma tesoura para as operações de corte dos reparos e colagem por contato, conforme era a prática usada para recuperação das câmaras de ar que, com os pneus, faziam parte do conjunto rodante.

Os dois mecânicos acomodaram as ferramentas sob o banco da charrete, despediram-se e em pouco tempo o instrumental estava acomodado na caminhonete dos expedicionários.

Agora, com as ferramentas necessárias para as emergências futuras, Mário sentiu-se na obrigação de fazer um reconhecimento geral no estado dos motores dos dois veículos.

Soltou o câmbio, desceu, ligou o Brasil pela ação da manivela, abriu a tampa do motor e, atento, ouviu o barulho cadenciado e harmônico produzido pelo carro em funcionamento. Estava perfeito, sustentando e mantendo o ritmo, tal qual um coração de jovem esbanjando saúde. Não havia sinal de que pudesse faltar corrente ou outro tipo de falha. Olhou para o bloco principal do motor e atentou para a numeração registrada no aço. Leu 3099101, fabricado em Detroit pela Ford Motor Company, em 1918.

― Dez anos de uso e está perfeito – pensou ou falou admirado, para dentro de si.

Desligou o motor, desceu, fechou a porta e foi para o São Paulo, o veículo que vinha dirigindo desde que se juntou à Expedição, em Pederneiras. Fez o mesmo: ligou, abriu a tampa do motor e ouviu. Para os mecânicos, o ruído harmônico de um motor soa tal qual uma sinfonia de Carlos Gomes, Verdi ou Bethoven e foi assim que sentiu. São Paulo leva no motor a numeração 13177717, fabricado em 1925.

― Fantástico. É Ford mesmo – falou baixinho o jovem mecânico.

Vendo que nada precisava fazer, além do reabastecimento e lubrificação que, depois do encontro com o prefeito, corriam por conta da Prefeitura, Mário lavou as mãos na torneira de um tanque que havia no quintal do hotel e foi para a recepção, onde foi informado que Leônidas e Francisco ainda não haviam chegado, mas pouco durou a espera.

Os dois companheiros entraram conversando sobre a investigação que a polícia estava fazendo, na esperança de recuperar o dinheiro.

― O dinheiro criou asas e deve estar bem longe daqui. Com certeza viajou pelo trem e somente se o larápio se arrepender do que fez, é que o veremos de volta. Isso não vai acontecer nunca – disse o engenheiro.

― É preciso retomar a viagem. Contamos com o apoio do Juquinha e nos basta, apenas, aguardar suas providências. Ele vai juntar algumas contribuições de amigos e isso não se faz num minuto. Vamos dar o tempo que o prefeito julgar necessário e depois, pé na estrada, se é que as encontraremos em algum lugar – disse o comandante.

Ao ouvir a voz dos companheiros e o que falavam, Mário aproximou-se, demonstrando que algo bom havia acontecido.

― As ferramentas prometidas pelo prefeito já estão no São Paulo. Temos uma boa oficina para nos acompanhar.

Oliveira e Lopes da Cruz mostraram-se felizes com a notícia e pelo pronto atendimento do prefeito.

― Proteja-as bem, para que não aconteça como com o dinheiro – disse Oliveira, olhando nos olhos do baririense e estampando um leve sorriso nos lábios e nos olhos.

Os viajantes permaneceram na cidade por mais dez ou doze dias, tempo suficiente para aguardar pelas providências que o Juquinha prometera e para realizar seus desejos de homens: dar à carne os prazeres que ela merece porque, afinal, a juventude assim o exige e eles eram jovens descomprometidos e diziam gostar da coisa.

Mário, com a força e vitalidade de seus 21 anos, esbaldou-se como se estivesse num paraíso, mesmo porque a fama da presença dos viajantes corria entre os viventes do lugar e despertava muita curiosidade nos corações das mocinhas casadoiras. Lopes da Cruz, esse se dizia dono de tiro certo, não perdia uma só tacada. Tinha 35 anos, idade suficiente para que lhe creditassem uma inegável experiência no trato com o sexo oposto. Leônidas, esse era mais reservado, uma vez que carregava na alma uma paixão incontrolável e enlouquecida pela sua Lourdinha, amor de infância, amor de alma, que não era capaz de esquecer. Estava magoado e frustrado pelo insucesso diante da família da amada, impedido que era de aproximar-se da moça e o romance se desenvolvia tal qual o conhecemos num drama clássico, onde o amor enlouquecido entre um par enamorado, filhos de famílias rivais, só pôde se realizar com a morte de ambos, mesmo assim, sem a anuência daqueles que não entendem ou não acreditam que o amor de alma é mais forte que a mais terrível tempestade. A Romeu proibia-se Julieta e a mesma história parecia materializar-se no romance de Oliveira e Lourdinha. Durante a feliz infância, em Descalvado, o menino, filho de família tradicional do lugar, o pai Leôncio e a mãe Rosa Borges de Oliveira, sentiu-se apaixonado por Maria de Lourdes Cunha. O sininho do amor que batia no coração do menino batia, também, na alma da menina. Um amor de alma não é para qualquer um entender. Entende-o os poetas porque esses sabem rimar e as notas do coração precisam de melodia e rima, mesmo porque é parte da sinfonia celestial, a sinfonia do amor divino. O amor de verdade é puro e verdadeiro e é preciso vivê-lo na sua plenitude, ou então morrer e era esse o pensamento que o Comandante Oliveira trazia dentro de si.

A família da menina o rejeitava. Não o julgava à altura da filha e ele fazia de tudo para merecê-la:

 

“Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela,

Mas não servia ao pai, servia a ela.

Porque só ela, em prêmio, pretendia.”

 

Por essa diferença de nível social, aos dezoito anos Oliveira fora para a capital para cumprir as obrigações de cidadão para com o Exército e no correr do ano de 1921 concluiu o CPOR com louvor e algumas medalhas, tal sua dedicação. Queria seguir carreira, galgar patentes e ser grande para provar à família dela, porque só ela, em prêmio, pretendia.

Engajado que estava no glorioso exército de tantos heróis e vitórias, foi para Recife, Santa Catarina e depois para o Rio de Janeiro.

Em 1925, o então primeiro tenente, inspirado pelo pan-americanismo, começou a planejar uma expedição para reconhecer e descobrir um possível caminho para servir de diretriz para a implantação de uma rodovia, capaz de ligar todos os povos da América. Lopes da Cruz, que era engenheiro e conheceu Oliveira quando ambos serviam, no mesmo batalhão, em Santa Catarina, entusiasmou-se com a idéia e colaborou muito, valendo-se dos conhecimentos que adquirira nos bancos da Escola de Engenharia.

Com a viagem sendo planejada e considerando-a apenas  uma idéia e, ainda, servindo em Santa Catarina, o tenente foi surpreendido por uma intimação judicial que lhe chegou às mãos, através do malote interno do Exército. Tratava-se de um documento expedido por um juiz de Pernambuco, intimando-o a comparecer em tal data, para assumir a paternidade de uma criança, porque assim a mãe o reclamava e afirmava ser ele o pai. Sem julgar se era verdade ou não, o fato é que o tenente não tinha nenhuma condição de se apresentar ao juiz, mesmo porque o transporte, desde o Sul até o Nordeste, não era coisa de poucas horas, sem contar que a ausência no batalhão poderia prejudicar sua carreira, resolveu fazer-se representar por procuração.

Oliveira solicitou para que o cartório elaborasse um documento, dando ao seu antigo comandante, em Recife, plenos poderes para representá-lo diante do juiz e dar uma solução rápida para o caso.

Enviou a procuração pelo malote interno do Exército, acompanhado de uma carta com explicações para o antigo comandante que, ao recebê-la, foi até o juiz e realizou o casamento do seu antigo subordinado com a reclamante. Casamento no papel e paternidade assumida, em face desse ato, Oliveira deixou a condição de um homem solteiro, porque é assim que reza a lei.

Agora, sem a justiça no seu encalço e sem saber que a solução dada em Santa Catarina o comprometia diante das leis brasileiras, armou-se de medalhas conquistadas por mérito e patentes militares que o credenciavam a ser visto como um rapaz de futuro e foi encarar os pais exigentes e irredutíveis da amada.

― Minha filha não se casa com um homem casado e eu exijo respeito – disse o pai da moça.

A nova pedra que os Cunha colocaram no caminho do jovem apaixonado atingiu-o de morte.

― Sem a Lourdinha, prefiro a morrer. Ela é parte de minha alma – disse Oliveira - Morrer? O suicídio não me ficará bem porque não posso demonstrar fraqueza, mas se a morte vier, será bem vinda, já que a Lourdinha nunca estará ao meu lado. Viver sem a minha dileta paixão é pior que a morte.

A certeza da não realização do sonho de amor castigou-lhe profundamente e a decisão de realizar a viagem, que outrora planejara, foi uma maneira de se vingar do infortúnio que a vida lhe havia reservado.

― A chance de sucesso nessa viagem é uma para mil e a de não sairmos com vida é de mil para uma. As dificuldades que enfrentaremos serão tantas que, com certeza, não sobreviveremos. Nenhuma chance ou muito próximo do nada. O que perderei se nunca terei o amor da minha vida?

Cruz, esse sim acreditava, mesmo porque conhecia o companheiro e sabia da incrível habilidade do amigo e nele botava fé, mas o mecânico estava inocente na missão - não sabia do risco. Queria apenas colocar à prova o seu sonho de aventura e conhecer o mundo, conforme o pai profetizara naqueles minutos de alegria que sucederam o seu nascimento, no longínquo 24 de janeiro de 1907:

― Esse menino será um homem do mundo, porque é maschio, questo bambino é maschio...

E foi assim, mais para procurar a morte do que o sucesso, que a expedição saiu do Rio de Janeiro e agora se encontrava em Bauru, aguardando pela importante ajuda do prefeito, para dar continuidade ao sonho.

Permaneceram em Bauru, sob patrocínio e proteção do poder local, até que as doações se concretizassem e assim  aconteceu.

Recebida a importante doação, colocaram as rodas na estrada, retomando o caminho para o desconhecido, ou seguindo para o impossível.

          


             VII

Fim das estradas e despedida do conforto

 

            Depois de vários meses rodando por terras do Distrito Federal e atravessando o Estado do Rio de Janeiro e agora no interior de São Paulo, chegou o momento de os expedicionários deixarem para trás parte de seus corações e a lembrança dos familiares, amores e amigos, pois foi assim que chegaram e permaneceram em Bauru por alguns dias. A Bauru que os abrigou, marcou a despedida do conforto e mostrou as primeiras dificuldades que haveriam de enfrentar.

Sem dinheiro e pedindo ajuda para as autoridades dos locais por onde passavam, viam que as estradas pioravam a cada quilômetro e o conforto ia ficando nas curvas do caminho.

            Saindo de Bauru, tomaram rumo Noroeste e logo alcançaram o primeiro povoado, onde uma inscrição, à tinta, registrava na parte plana de uma prancha de madeira o nome do lugar, onde homens simples e trabalhadores tiravam da terra o café, o arroz, o feijão e outros cereais necessários à subsistência. Era Tibiriçá e daí, seguindo pela terra nua do chão batido pelas patas dos animais, rodas cortantes das carroças e charretes, procuraram alcançar a cidade de Avaí, onde pretendiam parar para abastecer os carros e o fizeram numa única e modesta bomba de gasolina que havia no centro do vilarejo. Os abastecimentos que faziam, nos raros postos que existiam, serviam para poupar o combustível que traziam nos três tambores que o São Paulo transportava em sua carroceria, porque sabiam que esse deveria ser utilizado somente quando a distância entre um posto de abastecimento e outro haveria de superar o da autonomia dos valentes motores do Brasil e do São Paulo.

Encostaram ao lado da bomba, com o Brasil à frente e o São Paulo logo atrás e, antes que o proprietário do posto começasse a abastecer, um outro carro parou atrás, formando uma fila com três veículos para o mesmo fim, coisa rara para um vilarejo tão pequeno e para os poucos carros que havia no interior paulista, das estradas ora barrentas, ora poeirentas e quase sempre  intransitáveis.

― Eta cidade progressista. Já tá dando fila pra abastecer - disse o condutor do terceiro veículo.

Era o prefeito da cidade, onde havia três, quatro ou no máximo cinco ruas e pouco mais de meia dúzia de carros, mas que fazia movimento porque ficava a meio caminho entre Bauru e Pirajuí, mas não sem antes passar por Presidente Alves.  Havia uma estação ferroviária da Noroeste que também movimentava a cidade com fazendeiros e homens da roça transportando o café, que era embarcado para o Porto de Santos para, a partir daí, ganhar o mundo.

― Sou João Pereira Novo, o prefeito de Avaí. Sejam bem-vindos à nossa cidade. Estamos aqui para servi-los – disse o prefeito para os três viajantes.

― Isso é muito bom e o senhor caiu do céu, em boa hora. Estamos em missão oficial, numa viagem para definição de um traçado para construção de uma estrada que una as Américas. Embora oficial, estamos seguindo com a cara e a coragem. Contamos apenas com o apoio das autoridades que encontramos ao longo da viagem. Gostaríamos de contar com a contribuição do município que administra – disse Oliveira.

O prefeito levantou e coçou a cabeça, olhou para o proprietário do posto que ainda abastecia o primeiro carro e disse:

― Pode colocar a gasolina desses dois carros por conta da Prefeitura.

― Obrigado, prefeito, e mais um favor. Qual o caminho para chegar a Presidente Alves e Pirajuí?

― É só cruzar a linha do trem e seguir em frente. Presidente Alves fica a dez quilômetros e Pirajuí a vinte. O trem que passa por aqui também passa lá. É só seguir pelo caminho paralelo aos trilhos que vocês acabarão chegando lá – disse o prefeito.

Depois da breve troca de palavras, os viajantes voltaram a agradecer pelo combustível e despediram-se do prefeito. Pensavam chegar a Albuquerque Lins na boca da noite e foi por isso que saíram de Bauru antes de o sol nascer. Não podiam perder tempo e a distância entre as duas cidades pedia pelo menos dez horas de estrada. Não que a distância que separa uma da outra seja grande, mas porque as estradas é que não ajudavam em nada.

Cruzaram a linha do trem e por uma estrada de chão foram acompanhando-a, ora aproximando-se dela, ora distanciando-se um pouco, mas nunca o suficiente para, vez ou outra, deixar de ver os postes da linha do telégrafo, posicionada à margem da ferrovia.

Ao chegarem numa encruzilhada, cujo ramo à esquerda levava às cidades de Duartina, Gália e Araribá, uma reserva indígena onde terenas e guaranis resistiam e sobreviviam ao desmatamento descontrolado que destruía as florestas, para entregarem o chão, virgem e fértil, às sementes da rubiácea, que produzia os grãos escuros, transformados no ouro que enriquecia os fazendeiros e que avançavam para todos os cantos ainda não explorados, encontraram um carro preso ao chão, com o fundo assentado sobre um imenso banco de areia que não permitia que o veículo se movimentasse, nem para frente, nem para trás.

― Com esse carro, no meio do caminho, não sobra espaço suficiente para que possamos passar – disse o Comandante.

― Vamos ajudá-lo. Será bom para ele e para nós também – disse o mecânico.

Desceram do Brasil e o engenheiro, que vinha atrás, conduzindo o São Paulo, desceu também.

Era um carro Oakland do ano, cujo condutor, ao ver os três viajantes, foi ao encontro deles.

― Sou José Antonio Braga. Estava indo para a fazenda que tenho aqui, seguindo à esquerda, por esse caminho que vai para Gália e Duartina e para a reserva dos índios. A minha fazenda fica logo depois da reserva, chama-se São José das Anhumas. Moro em Bauru e venho pra fazenda todas as semanas. Desta vez as chuvas que caíram nos dias anteriores trouxeram muita areia e não está dando pra passar – disse o fazendeiro.

― Vamos nos juntar para superar esse problema. Não será um punhado de areia que vai nos segurar – disse o mecânico.

Os expedicionários foram até o automóvel, observaram e formaram uma única opinião.

― Vai ser preciso pegarmos nas enxadas – disse o mecânico.

Revezaram-se nas duas enxadas que traziam e depois de meia hora de labuta o Oakland, conduzido pelo fazendeiro, moveu-se para frente e estacionou no lado direito da estrada, deixando um bom espaço ao lado, para que os dois outros carros passassem pelo caminho que haviam recomposto com a retirada da areia.

― A fazenda São José das Anhumas fica a quinze minutos daqui. Vocês não querem ir para almoçar comigo? - disse o fazendeiro.

O Comandante Oliveira, vendo e sentindo que o fazendeiro, dono de um carro do ano, era bom de grana e pensando em pedir-lhe uma ajuda, aceitou imediatamente o convite, mesmo porque estava diante da oportunidade de juntar mais algum para reforçar o caixa, a fim de suprir os gastos futuros.

― Será uma honra para nós – disse o Comandante para o fazendeiro.

E lá foram os três carros, com o fazendeiro, conhecedor da estrada, seguindo à frente.

José Antonio Braga ordenou à cozinheira que reforçasse as misturas, porque os três homens haveriam de acompanhá-lo no almoço.

― Vocês aceitam um aperitivo para abrir o apetite? Mantenho sempre uma branquinha, da boa, para um pequeno trago antes das refeições – disse o fazendeiro, já com o litro na mão e olhando para os três expedicionários.

Os viajantes acompanharam o dono do lugar e, diante de um papo e outro, em que o fazendeiro contava sobre fatos e a história da fazenda: quando a havia adquirido, quantos alqueires, quantos milhares de pés de café, a quantidade de sacas que produzia e aquelas coisas que os fazendeiros gostam de falar, no momento que julgou oportuno, o tenente Oliveira desviou a conversa e contou sobre a missão que realizavam, para, em seguida, pedir ajuda ao fazendeiro.

― Estamos numa missão oficial que, embora aprovada e incentivada pelo presidente Washington Luís, não contamos com os recursos do governo. Chegamos até aqui e seguiremos em frente com a ajuda de homens abnegados e patriotas que se entusiasmam e nos dão o apoio de que necessitamos, ou seja, alguma contribuição em dinheiro, combustível, alimentos, peças e pneus.

O fazendeiro ouviu atentamente e pensou, sem dizer nada, para não ser indelicado:

― Lá vem a facada.

O comandante, pela reconhecida habilidade que possuía, convenceu o fazendeiro, que trazia no bolso uma boa quantia para os pagamentos que faria aos trabalhadores que mantinha na sua propriedade.

― Posso contribuir com o pouco que tenho em mãos. Aquilo de  que disponho, no momento, é para um adiantamento que prometi aos meus empregados. Deixarei parte do adiantamento para a próxima semana e, assim fazendo, darei a minha modesta colaboração.

― O que é pouco para o amigo pode ser muito para nós e estaremos gratos pelo que puder fazer pela missão que estamos realizando.

Logo depois do almoço, agradeceram pela acolhida e pela ajuda que receberam e retomaram a viagem, seguindo para Presidente Alves. 

Não demorou mais que uma hora desde que saíram da fazenda do José Antonio Braga, para que os viajantes do carro da frente avistassem os primeiros sinais da cidade. A estrada levou-os ao centro de Presidente Alves, que não era mais do que a estação do trem, a igreja e mais vinte ou trinta casas, quase todas construídas com a madeira que não resistiu ao avanço dos cafezais e algumas outras, construídas com tijolos grandes, produzidos com barro apropriado, retirado das áreas baixas que margeiam o Rio Batalha, rio à meia distância, no caminho entre Presidente Alves e Avaí.

  Passaram diante dos olhares curiosos dos moradores da cidade e, sem parar, tomaram o rumo da cidade de Pirajuí, onde os cafezais faziam a riqueza do lugar e o progresso que levou a linha férrea para a cidade que, além dos trilhos, construiu e inaugurou a estação em 1925.

Passaram por Cafelândia, um lugarejo com poucos habitantes no seu núcleo urbano, mas com muita gente distribuída ao longo dos cafezais, que faziam da região importante produtora do café que o mundo bebia.

Depois de Cafelândia, chegaram e pararam em Albuquerque Lins.

― Tá na hora de pegar um lugar pra dormir - disse Lopes da Cruz - que seguia com o Oliveira no carro da frente.

Entraram na cidade à procura de um lugar onde pudessem se hospedar.

― Todas as cidades do interior têm um lugar chamado Hotel Central, localizado no Largo da Matriz, onde se pode dormir e comer um arroz com feijão, bife, ovo frito e salada – disse Oliveira – pra mim, arroz, feijão e ovo frito é banquete.

E tal como haviam dito, lá, numa das esquinas da Praça, viram o Hotel Central que, além dos serviços de hospedagem, era o ponto das jardineiras do transporte de passageiros para os vilarejos que se multiplicavam com o avanço dos cafezais.

Do Brasil deram sinal para o Mário, que vinha com o São Paulo, seguindo-os a menos de trinta metros, mostrando que iriam estacionar sob a sombra do arvoredo da praça. Mário estacionou logo atrás.

― Mário, vamos ficar por aqui. É preciso dar uma reforçada no estômago e uma esticada nas pernas – disse Lopes da Cruz, dirigindo-se ao mecânico.

― E pegar um banheiro também, porque ninguém é de ferro – respondeu o mecânico.

― A poeira da estrada nos castigou muito – disse Lopes da Cruz – mostrando o pó acumulado nos vidros do valente veículo que Mário conduzia.

― Procuro não me preocupar com o frio, chuva ou calor, mesmo porque não há reclamação que possa modificar a vontade do tempo. Bariri é um lugar em que faz um calor danado e cabe a nós encarar as dificuldades e superá-las, sem lastimar – afirmou o mecânico, sorrindo para o engenheiro.

Enquanto Cruz e Mário conversavam ao lado dos veículos, Oliveira entrou no hotel, pediu pelo banheiro e, ao sair, dirigiu-se ao atendente e:

― Tem lugar pra três?

― Tem, o hotel está quase vazio.

― E o que vai ter para comer, hoje?

― Pra hoje vamos ter arroz, feijão, costelinha de porco, ovo frito e salada de almeirão. Para beber, acompanha limonada, mas, se desejar, também temos gasosa, que é fabricada aqui na cidade – respondeu o atendente que os recebeu.

Oliveira aguardou pelos companheiros que, ao entrar, procuraram pelo banheiro, mas não sem antes pedir para o Oliveira que fosse adiantando a contratação do quarto.

Saíram do banheiro, foram até os carros para apanhar as malas e voltaram para o quarto que o tenente acabava de escolher. Oliveira foi logo para o refeitório e sentou-se à mesa, pedindo para que servissem o prato do dia para três pessoas.

Mal a mesa estava posta, Mário e Lopes da Cruz sentaram-se. O engenheiro, numa das pontas da mesa; o mecânico, de frente para o tenente, que já os aguardava.

― Os carros rodaram bem. No trajeto, eu prestava atenção. Seguindo-os, vinha observando que tanto nas subidas mais íngremes, como nas descidas, e até mesmo nas baixadas, onde a areia acumulada costuma dificultar a passagem, os carros tiveram um excelente desempenho – disse o mecânico.

― Esses carros foram feitos para vencer desafios iguais e piores que esses. Henry Ford foi muito feliz ao concebê-los – respondeu o tenente.

― Vamos comer, dar uma volta para fazer a digestão, pegar um banho e amanhã, bem cedo, vamos por o pé na estrada novamente. Para chegar a Araçatuba, ainda com a luz do Sol, teremos que madrugar – disse o engenheiro, puxando do bolso e conferindo, no relógio, o horário biológico que o seu estômago anunciava naquele momento – Já passamos das dezenove horas.

Acabaram de jantar, saíram para a frente do hotel, para uma volta, com a intenção de conhecer a cidade e fazer a digestão, para depois tomar um banho e dormir.

E assim foi feito para, no outro dia, bem cedinho, depois do café e do acerto de contas, saírem rumo à Araçatuba.

― Mário, você quer conduzir o “Brasil”, enquanto eu e o Cruz nos revezamos no “São Paulo”?

― Como mecânico preciso conhecer os dois e, se não for agora, em breve terei que conduzi-lo. Preciso me familiarizar com o Brasil e conhecer suas manhas, se é que ele as tem – afirmou o mecânico.    

 De Albuquerque Lins, com o Mario conduzindo o Brasil e Cruz, o São Paulo, seguiram para Calmon, um lugarejo muito pequeno, localizado no entorno da estação ferroviária e próximo do Rio Tietê, onde a água abundante formava uma imensa corredeira e havia um salto, que os caingangues chamavam de Avanhandava.

Depois de rápida passagem pelo lugarejo, os expedicionários entraram em Penápolis, com a intenção de procurar uma bomba para abastecimento dos carros. Abasteceram e, depois de passarem por Birigui, chegaram a Araçatuba, completando a jornada, tal qual haviam planejado para o dia.

Araçatuba, assim como todas as cidades percorridas desde Bauru, era mais um dos vilarejos de fundação recente e o progresso que a impulsionava era o avanço incontido dos cafezais que produziam riquezas, puxando, atrás de si, os trilhos da estrada de ferro, que transportava o ouro negro produzido na região para o Porto de Santos e daí, para as mesas da Europa e das três Américas.

Para o caso de Araçatuba, a cidade estava intimamente ligada ao avanço da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que, em plena mata, inaugurou no dia 2 de dezembro de 1908, no quilômetro 281 da via, sua estação, improvisada no interior de um vagão que, de tanto uso, não tinha mais condição para rodar sobre os trilhos fixados nos dormentes que avançavam no sentido Noroeste do Estado de São Paulo. A estação, instalada como um pólo avançado em plena mata virgem, povoada apenas por caingangues e coroados e sem nenhum vestígio de colonização no seu entorno, começou a atrair os imigrantes italianos, que foram os primeiros a aportar no lugar a partir de 1910 para, em 1919, com a chegada de uma leva de mais de três mil famílias de imigrantes europeus e japoneses, fazer o novo povoado experimentar uma fase de grande progresso, quando a monocultura do café resultou na emancipação do vilarejo, em 1921, desmembrando-se de Penápolis e adquirindo a condição de município.

Essa foi a Araçatuba progressista que, sete anos depois de sua emancipação, recebeu a expedição e os expedicionários que sonhavam e acreditavam no impossível, coisa de que somente os predestinados são capazes e assim eram esses três brasileiros.

O sol ainda não se pusera e o final de tarde era de muito calor e claridade.

― Que tal procurarmos um hotel ou pousada para que possamos tomar um banho, trocar de roupa e comer alguma coisa? - disse  Oliveira para Lopes da Cruz, que conduzia o Brasil.

A cidade era pequena. Algumas poucas ruas, a igreja, a praça e a estação ferroviária, que já não era mais o vagão improvisado da estação primitiva. A estação, agora, era de construção recente. Tinha uma longa plataforma para embarque e desembarque de passageiros e de carga,  localizada na frente de um armazém que, pelas dimensões, podia-se imaginar de movimento muito grande. A cidade tinha também um posto de abastecimento com duas bombas, uma para gasolina azul e outra para a amarela.

― É comum que os hotéis estejam por perto da estação do trem e do ponto das jardineiras. É só passar por um desses lugares que, na certa, haverá um lugar para nós – disse Lopes da Cruz.

E havia mesmo. Ao entrar na Praça da Matriz, um letreiro bem visível, no alto de uma fachada, dizia: Bar e Hotel do Ponto e, numa linha imaginária, logo abaixo, em letra minúscula, estava escrito: “Familiar”.

 Apesar da simplicidade e do pouco conforto que o estabelecimento oferecia, os três viajantes acomodaram-se num dos dez ou pouco mais quartos que havia, todos localizados nos fundos, um ao lado do outro e apenas um banheiro, distante dos quartos, para servir a todos.

― Não há lugar para estacionar os carros, mas podem ficar tranqüilos que a rua é muito segura - afirmou o proprietário do hotel – pode estacioná-los no outro lado da rua, porque, na calçada de cá, é lugar para as jardineiras que fazem o transporte de passageiros, a partir do Ponto.

  E assim foi. Retiraram os pertences pessoais que cada um trazia e fecharam bem os carros. Mário reforçou as cordas que fixavam a lona que cobria a carroceria do São Paulo, onde transportava os tambores com gasolina, as ferramentas, pneus e peças de reposição.

― Se alguém tentar mexer, vai ter muito trabalho – disse o mecânico.

Passaram por dentro do bar e saíram pela porta do fundo, dirigindo-se para o quarto onde haveriam de se acomodar. Entraram no quarto, onde dois beliches com colchões de palha de milho estavam à disposição dos hóspedes que acabavam de chegar.

Colocaram os pertences sobre a cama superior de um dos beliches e, antes de acomodar as camisas no guarda-roupa, procuraram pelo banheiro e, por ser final de tarde, a fila para o banho não era pequena.

Mário, vendo que o seu banho não seria para aquele momento, pensou e resolveu sair para uma volta de reconhecimento pela cidade. Saiu pelo mesmo lugar por onde havia entrado. Foi até a igreja, andou pela raça, viu o movimento da jardineira que acabava de estacionar na frente do hotel. Observou que, assim como os carros da expedição, a jardineira também era da marca Ford e, pelo letreiro que trazia, estava chegando de Birigui. Viu os passageiros descendo – eram homens, mulheres e crianças que, depois do desembarque, ainda esperavam na calçada, aguardando pela entrega de suas malas e outras coisas das mais variadas, que traziam da cidade de origem ou das fazendas, pois a jardineira parava a cada aceno de mão das pessoas que a aguardavam.

Enquanto observava o vaivém que a jardineira provocou, Mário ouviu o apito de uma locomotiva que anunciava a aproximação de um trem que retornava, naquele final de tarde, seguindo no sentido que leva a Bauru. Com passos largos, foi até a estação que ficava a não mais que cem metros do lugar onde se encontrava, chegando a tempo de assistir à parada, com a locomotiva soltando vapor e expelindo pequenas brasas que eram evitadas pelas pessoas que aguardavam  amigos e parentes que haveriam de desembarcar.

Mesmo diante de tanto movimento de gente, Mário sentia-se só, sem ver um único rosto conhecido. Havia muitos imigrantes japoneses, comuns na região, mas raros nos lugares onde o mecânico havia vivido até então, mesmo porque, essa brava gente, vinda do oriente distante, ainda não havia chegado em Bariri ou em Pederneiras.

Com a parada total do trem, alguns operários da companhia se aproximaram da locomotiva e, rapidamente, trataram de abastecê-la com muita água e lenha, combustíveis únicos e indispensáveis para movimentar o trem que, além dos passageiros, transportava alguns outros vagões de carga que seguiam com os portões lacrados para o seu destino.

Mário caminhou pela plataforma, indo desde a locomotiva até o último vagão. Aproximava-se dos passageiros nipônicos e escutava-os sem nada entender. Era a primeira vez que ouvia aquela língua, tão diferente do italiano familiar, que entendia e falava algumas palavras pela criação familiar, e do português, a língua pátria de todos os brasileiros.

Ao passar ao lado dos vagões de carga, pelo cheiro característico que sentiu, percebeu que  transportavam café. O café, produzido em abundância e da melhor qualidade, enriquecia  todos e o Brasil, naqueles anos idos de  então.   

 ― Café, só café. Até quando o mundo vai consumir todo café que é produzido e que será, daqui pra frente, pelos novos cafezais que substituem a floresta exuberante do Estado de São Paulo? As matas de Bariri já foram arrasadas e a força do machado continua avançando por essas bandas – apenas pensou e, por motivo óbvio, o baririense nada falou. Estava só.

Terminadas as operações de desembarque e abastecimento, o trem apitou mais uma vez e partiu. O ruído característico não se fazia mais ouvir e Mário ainda caminhava pela longa plataforma. Pensava na família – a mãe, o pai, os irmãos, os amigos e na oficina, em Pederneiras, cujo emprego acabava de abandonar, sem nem mesmo dar baixa na carteira e se despedir. Contava com apenas 21 anos, completados no último 24 de janeiro e agora, na solidão da plataforma da estação de trem, em Araçatuba, vendo gente que vai e gente que vem, não sentia arrependimento pela decisão tomada. Pensava apenas nas coisas vividas até então: Bariri, o moinho de fubá, a máquina de beneficiar arroz, o desvio do rio que movimentava as máquinas do empreendimento do pai, a escola no Primeiro Grupo Escolar da cidade, a gripe espanhola que havia levado tanta gente conhecida, a saída da casa do pai em busca do sonho de ser mecânico, a revista com o Thomas Edson dizendo sobre a importância da eletricidade para o futuro do mundo, Pederneiras, a oficina da Prefeitura, a vontade de conhecer os Estados Unidos, que não julgava tão distante... Tudo isso corria no pensamento do jovem, enquanto uma angústia tomava conta de sua alma.

― A única coisa que me faz doer na alma é a saudade. Preciso aprender a superá-la. A vida me ensina, todos os dias, que um homem nunca pode se acovardar diante das dificuldades e é assim que tenho vivido – dizia Mário, só para si e para dentro de si – O homem nunca deve se acovardar diante das dificuldades – repetia - deve encará-las de frente e nunca desistir. Esse é e haverá de ser o homem que trago dentro de mim.

Com esse pensamento e propósito, Mário superou a angústia que, momentaneamente, baixou sobre o seu pensamento, enquanto caminhava e meditava ao longo da plataforma da estação.   

― Transformarei essa viagem no meu objetivo de vida. Sei que é uma grande oportunidade que o Criador coloca em minhas mãos e  haverei de aproveitá-la. Ao fazê-la, voltarei um homem diplomado pela escola da vida e estarei tão ou mais preparado do que aqueles que ocupam os bancos escolares, porque, afinal, quem é que, entre as pessoas que conheço, já foi aos Estados Unidos? Conhecerei os americanos que sabem produzir carros, do tipo desses que nos conduzirão de volta para o lugar onde foram fabricados. Conhecerei aquela gente sabe tudo sobre mecânica e eletricidade. A eletricidade, que daqui pra frente vai movimentar o mundo. Que oportunidade Deus está me dando! Obrigado, Senhor! Estou certo de que não o decepcionarei.

Mário voltou para o hotel e juntou-se aos companheiros que ainda aguardavam o momento para o banho.

― Que tal a cidade? – perguntou Oliveira.

― Parece-me interessante. Fiquei impressionado com o grande número de japoneses. Estive na estação do trem apreciando o movimento e vi muitos japoneses conversando entre si. Não dá pra entender uma só palavra. Parecem-me muito alegres e entre algumas poucas palavras dizem arigatô, arigatô...

Depois de um bom tempo de espera, banharam-se, vestiram roupa limpa e foram para o reservado do bar do hotel, onde jantaram, para depois saírem para uma caminhada pela praça e pelas ruas de chão batido, onde uma imensidão de insetos voadores era atraída pelas lâmpadas que mais pareciam tomates vermelhos, pela pouca luz que emitiam e pela umidade excessiva da noite de calor insuportável, muito comum na região onde a cidade de Araçatuba estava plantada.

No meio da rua e sob as luzes de cada poste, sapos de todos os tamanhos se deliciavam com os insetos que caíam no seu leito. Ao longe, podia-se observar a claridade produzida pelas queimadas que devoravam as florestas para darem espaço aos cafezais.

― Lamento pela destruição da flora e da fauna, em favor do avanço incontrolável dos cafezais. Quem consumirá todo o café que essas terras haverão de produzir? - comentava o mecânico, que assim pensava, por ter nascido num lugar onde as florestas haviam desaparecido pelo mesmo motivo. Washington Luis precisaria ficar atento a isso, para que o Brasil não caísse na armadilha da super produção. Em poucas décadas acabaremos destruindo a nossa floresta exuberante com nossa rica fauna e o Brasil acabará se transformando num imenso e único cafezal.

  O grande desenvolvimento dos Estados Unidos, que produz algodão e alimentos em grande quantidade, procurou criar uma indústria de qualidade e hoje faz todo tipo de máquina, gasolina, motores, tratores e carros de excelente qualidade, provavelmente os melhores do mundo, mas também desrespeitou a natureza, destruiu-a e, um dia, terá que pagar por isso – lembrou o engenheiro.

A expedição permaneceu em Araçatuba por alguns dias, tempo suficiente para visitarem o prefeito e falar do objetivo da passagem da expedição pela cidade, além de solicitar apoio em termos de fornecimento de combustível e pagamento das despesas de hotel. O mecânico aproveitou para solicitar permissão para utilizar as dependências da oficina do município, onde pretendia efetuar uma boa limpeza e lubrificação dos motores, além da verificação do estado das suspensões, uma vez que as estradas de chão batido e muita areia solta não haviam sido generosas para com os veículos.

Passados os dias necessários para os pequenos ajustes mecânicos, descanso e visita ao prefeito, os três companheiros voltaram para a estrada, para mais um trecho da viagem. Desta feita, o objetivo era chegar a Jupiá, ponto final da Estrada de Ferro em terras paulistas, onde a companhia ferroviária havia inaugurado, em 1926, a ponte Francisco de Sá, para interligar os trilhos do trecho paulista com os do lado mato-grossense, que chegava até Corumbá, na fronteira com a Bolívia. Antes da construção da ponte, os trens chegavam às barrancas do grande rio e os vagões eram transpostos em balsas, que eram conduzidas para a outra margem, puxadas pelos rebocadores Conde Frontin e Marechal Hermes.

            Saíram de madrugada e, ao pegarem a estrada, seguindo sempre no sentido percorrido pela Noroeste do Brasil, viram algumas máquinas da Companhia Paulista de Colonização Ltda abrindo ruas para implantação de mais uma cidade, esta nas terras dos irmãos Pinto de Oliveira, que haveria de receber o nome de Frutal.

            Seguiram viagem com os dois carros, vencendo as trilhas sofríveis e quase intransitáveis do caminho que os conduzia para a margem paulista do Rio Paraná. Passaram por grandes fazendas, diversos vilarejos e povoados indígenas ou de imigrantes. A região era uma imensidão verde formada pela exuberante floresta do planalto tropical, salpicada por áreas, ora extensas, ora descontínuas, que a mata mostrava não resistir à força dos machados e do fogo, para dar lugar a novos cafezais e cidades novas.

            Passaram por Lussanvira, Itapura e, no final da tarde, chegaram a Jupiá, na esperança de passarem para a outra margem do Rio Paraná, através da Ponte Francisco Sá. Era preciso atravessar o grande rio...  


VIII

A travessia do grande rio

 

            Quando chegaram às barrancas do Rio Paraná, o sol já havia se posto e a escuridão era total, a menos de um ou outro lampião que iluminava o interior das poucas casas do povoado.

            Procuraram por um lugar pra comer e dormir, mas o povoado não era generoso e o jeito foi encostar os carros num canto, julgado adequado, para esperar pelo novo dia. Para enganar a fome repartiram um pão caseiro feito com ovos, sal, farinha e fermento de litro, que Mário trazia no São Paulo e que havia sobrado da primeira refeição que haviam tomado no dia, o café da manhã.

            A noite foi longa, mas o dia chegou e os viajantes puderam ver onde se encontravam. Havia um grande rio e um vilarejo, onde viviam vinte ou mais operários da ferrovia, pescadores, agricultores e algumas poucas famílias que exploravam o comércio em suas vendinhas, daquelas onde se pode encontrar de tudo: querosene para as lamparinas e lampiões, sal, farinha, açúcar, arroz, feijão, fubá e até anzóis, linhas e todo tipo de tralha que os pescadores  procuram.

No grande rio, havia uma ponte por onde o trem passava de um lado para outro.

Pensavam que, apesar de ser uma ponte ferroviária, poderiam utilizá-la para transpor o rio e foi por sabê-la aí que optaram por esse caminho, evitando a outra opção, que era fazê-lo chegando às barrancas do Rio Paraná, num ponto localizado a 200 quilômetros ao sul, porém esse lugar não era tão conveniente, por não levar a Campo Grande, passagem obrigatória para Ponta Porã, a melhor maneira para se entrar no Paraguai, através de Pedro Juan Caballero, conforme o Comandante havia planejado três anos antes.

Mal o sol havia nascido e os moradores começavam a dar as caras. Mário saiu para reconhecer a ponte e logo voltou com uma triste notícia:

― Não tem como passar o rio por essa  ponte.

Assustados e incrédulos e por que não dizer, decepcionados, o tenente e o engenheiro, saíram com passadas largas para ver a ponte de perto.

― É verdade. Para transpor, com veículos como os nossos, a ponte precisa de uma obra complementar de grande monta e tempo.

E era mesmo. A Ponte Francisco Sá havia sido concluída e inaugurada há três anos, para substituir a transposição dos vagões, que antes eram colocados, dois a dois, numa balsa que, depois de carregada, era conduzida para a outra margem pelos rebocadores Conde de Frontin e Marechal Hermes. Na margem mato-grossense, outra locomotiva os aguardava, para recompor a composição e seguir para Corumbá e Bolívia, passando por Três Lagoas, Campo Grande e pelo Pantanal, de fauna exuberante e incomparável.

 A Noroeste do Brasil projetou construir uma ponte no lugar, ainda em 1910, mas uma falha no projeto e problemas na contratação da empresa construtora, fê-la atrasar 16 anos. Quando a ponte ficou pronta, os serviços de balsa foram dispensados e, tanto os operadores, como os balseiros, balsas e rebocadores, deixaram o lugar.

O Comandante havia imaginado passar por esse ponto porque, quando planejou a viagem, em 1925, a passagem era feita pela balsa e fora dos horários das operações com os vagões, transportavam tropeiros e seus animais, boiadas, carros e quem pagasse pela transposição, porém, em 1928, esses serviços não estavam mais disponíveis e os expedicionários não contavam com a novidade.

― Como haveremos de transpor o grande rio? – indagou o Comandante.

Mário ouviu atentamente à indagação do comandante e, como nunca se deixava vencer pelas dificuldades, ao contrário, costumava humilhá-las, propôs uma solução:

― Se não temos as balsas, por que não fazê-las? O que é uma balsa, além de uma prancha mais leve que a água? Que mistério meia dúzia de tábuas, três toras de madeira leve e alguns pregos podem esconder?

Mário foi até a ponte e, caminhando sobre os trilhos, com muito cuidado para não cair pelo espaço vazio que existia entre os dormentes, chegou ao meio do rio, onde parou e permaneceu por meia hora. Olhou para a água que corria sob seus pés e, ao longe, a foz do mais importante rio paulista, o Tietê, cujas águas, mais barrentas e vermelhas, empurravam a corredeira mais lenta do Rio Paraná. Depois de tanto olhar e pensar, concluiu que a força das águas do rio paulista vencia as águas do Rio Paraná, enfrentando-o perpendicularmente e corridos três ou quatro quilômetros rio abaixo, passavam a colorir a margem mato-grossense.

― Aí está a solução do mistério. Para vencer o Rio Paraná é preciso usar a força do Rio Tietê – disse o mecânico para si mesmo.

Logo após descobrir que as águas barrentas, vindas do interior paulista, davam nas margens do lado do Estado do Mato Grosso, Mário sorriu e saiu correndo para levar a novidade aos companheiros.

― Só nos falta a balsa. Devemos construí-la no Tietê, a três ou quatro quilômetros da foz para dentro e, ao sair, devemos conduzi-la pelo centro do rio, para adquirir a maior velocidade que as águas oferecem. A balsa deverá entrar no Paraná e assim como as águas escuras que chegam pelo Tietê rumam para a margem de lá, a nossa balsa fará o mesmo e depois de rodar alguns quilômetros pelo Paraná abaixo, tocará  na margem mato-grossense, que é o que desejamos.

 ― A idéia é genial e só nos falta a balsa. Vamos procurar um fornecedor para a madeira de que necessitamos – disse o engenheiro.

A madeira era farta naquele sertão que estava sendo desbravado impiedosamente. Procuraram e logo encontraram uma serraria que, além das tábuas que desdobrava com o vai e vem das serras, mantinha, em estoque, uma quantidade enorme de madeira bruta, em forma de toras, adquiridas  a preço de banana, das propriedades rurais que se multiplicavam velozmente.

― Para barcos e embarcações, costumo vender o cedro, que é bem mais leve que as outras madeiras – disse o homem da serraria para o engenheiro.

― E eu preciso saber a densidade para fazer um cálculo, assim meio por cima, para saber quanto de madeira precisarei para compensar o peso que transportaremos.

― O senhor quer saber a idade da madeira?

― Não. Eu preciso saber quanto essa madeira pesa por metro cúbico para que, utilizando os princípios de Arquimedes, eu possa fazer os cálculos de engenharia para a balsa – disse o engenheiro para o madeireiro, lembrando que, segundo o sábio de Siracusa, todo corpo mergulhado num fluido recebe uma força vertical, de baixo para cima,  igual ao peso do fluido deslocado. Essa força chama-se empuxo.

― Aqui não tem nada disso, senhor. Tudo é feito na prática e, por ter madeira em abundância, não é preciso miséria. O mais importante é que o cedro esteja bem seco, porque assim ele fica mais leve e, utilizando-se cinco ou seis toras, com diâmetro de sessenta centímetros ou mais, para que sobre elas se construa a plataforma de tábua, bem feita e travada, dará certo. As toras precisam ter mais ou menos dez metros de comprimento. As balsas que a Noroeste utilizava para transportar os vagões, antes da inauguração da ponte, não eram muito mais que isso e o peso dos vagões nem se compara com os carros que vocês querem passar.

Tudo ficou acertado. O madeireiro preparou as toras, as tábuas e as vigas deque precisavam. Forneceu também os pregos de todos os tamanhos, parafusos, ferragens, martelos, marretas e serrotes, que foram oferecidos em forma de empréstimo, como cortesia pelo gasto que realizaram com a madeira e outros materiais.

Mário procurou um pescador e pediu para que o levasse, pelo Paraná, até a foz do Tietê. Pediu também para que subisse o rio paulista por alguns quilômetros, porque desejava encontrar o local ideal para a construção da balsa. Subiu alguns quilômetros e descobriu  que a margem do Rio Tietê oferecia um lugar que julgou interessante.

― Vou pedir para que o madeireiro coloque os materiais aqui – pensou o mecânico, apenas para si, sem nada dizer ao pescador.

Depois da inspeção que fez pelos rios, Mário voltou ao encontro dos companheiros que a essas alturas haviam se acomodado numa casa de pescador, cujo proprietário, de Araçatuba, mantinha o lugar sob os cuidados de um caseiro de sua confiança, que morava nas proximidades.

― Encontrei um lugar na margem do Tietê e lá poderemos construir a nossa balsa em condições favoráveis para a nossa aventura. O lugar é utilizado pelos pescadores para ancoragem de botes e canoas e é lá que embarcam e desembarcam. Vamos pedir ao dono da serraria para que entregue nesse lugar a madeira, os materiais e as ferramentas de que necessitamos e mãos à obra – disse Mário para os companheiros.

No dia seguinte, uma junta com seis bois arrastou as toras para o lugar indicado e, com um carroção puxado pelos mesmos animais, chegaram as tábuas, ferragens e ferramentas.

Mário, valendo-se da experiência adquirida, mexendo e brincando entre os empreendimentos que o pai mantinha no quintal da sua infância, começava a se revelar hábil e criativo e a ele não havia dificuldade que o fizesse recuar. Não se acovardava diante de nada.

No caso da construção da balsa, o mecânico, ajudado pelos companheiros e por mais dois homens que contrataram entre os pescadores, serrou, pregou, despregou, martelou, lavrou, parafusou e fixou ferragens. Depois de 15 dias, a balsa estava em ponto de uso.

― Noé venceu as águas do dilúvio e nós queremos e vamos vencer as correntezas do Tietê e do Paraná – disse o baririense.

Cinco toras secas, distanciadas em um metro e meio entre os eixos de uma para a outra, foram mantidas na posição por dezesseis vigas robustas, posicionadas transversalmente às toras e espaçadas em aproximadamente meio metro uma da outra, muito bem fixadas nos encaixes lavrados a machado que, além da penetração forçada, recebiam quatro pregos grandes, como também uma cobertura sobre os encaixes, construída com um sarrafo colocado e pregado no sentido do comprimento das toras e que haveriam de receber, sobre si, as tábuas da plataforma para os carros. Na parte inferior da balsa e para que as toras não se abrissem durante a aventura, Mário julgou conveniente e seguro fixar duas vigas, uma em cada topo do conjunto de toras, posicionando-as no ponto mais baixo e que haveria de estar submerso nas águas que haveriam de vencer.

Depois de colocar os carros na plataforma que construíram, Mário fixou-os com cordas, além de pregar retalhos de madeira encostados nas rodas dos dois veículos, impedindo-os de se movimentar para frente ou para trás.

Saindo da balsa, o mecânico foi ver o quanto o conjunto de carros mais a balsa haviam afundado na água. Era necessário conferir a estabilidade das toras que, ao serem forçadas pela correnteza do rio, deveriam permanecer solidárias, mas sem prejudicar a velocidade da balsa, que precisava vencer a força do rio que vinha de cima.

― A balsa está pronta. Precisamos apenas de umas varas de bambu para, em caso de a profundidade permitir, a gente dar uma forçada para que não rodemos tanto. Será necessário, também, jogar a balsa para o outro lado do Tietê, antes de chegar no Paraná, para que entremos no grande rio com velocidade e ao fazermos a curva a gente fique do lado do Mato Grosso – afirmou o mecânico.

― Vamos sair amanhã pela manhã. Permanecemos pouco mais de duas semanas construindo a balsa e não será mais um dia que vai atrapalhar. E mais, se tivermos algum problema, teremos o dia todo para corrigir ou pedir ajuda, principalmente para o desembarque, se a nossa parada não for num lugar favorável – disse o comandante.

E assim foi. O dia se fazia quente e claro, quando os viajantes começaram a soltar as cordas que mantinham a balsa presa no lugar onde fora construída.

A balsa, desgarrada das amarras que a mantiveram no barranco durante sua construção e impulsionada pela força da juventude que os viajantes transferiam para o fundo do rio, pelas fibras resistentes do bambu, foi rapidamente para o meio do Tietê e com a velocidade adquirida no primeiro impulso seguiu lentamente para o outro lado, posicionando-se e adquirindo rapidez, que era transferida pela correnteza, levando a balsa para o encontro com as águas do grande rio.

― Estamos indo bem. Vamos conseguir. Basta apenas rompermos as águas do rio que vem de cima para chegarmos ao outro lado – disse, entusiasmado, o baririense.

A velocidade da correnteza do Tietê fez sua água penetrar no Rio Paraná, levando junto de si a balsa e os balseiros, tal qual o mecânico havia planejado.

A balsa, ao entrar no grande rio, seguiu a curvatura externa formada pela força maior que o rio menor possuía e, enquanto as águas se misturavam, os balseiros sentiam que a transposição do Rio Paraná estava garantida.

Vez ou outra, durante a passagem, um dos viajantes verificava a profundidade do rio, valendo-se do bambu e, ao perceber que o fundo podia ser alcançado, os três impulsionavam para que a balsa se aproximasse da margem,  para ser ancorada no lado mato-grossense.

Chegaram. As dificuldades surgidas, até então, haviam sido superadas e humilhadas, mesmo porque não é permitido ao homem que deseja e quer, que lhe tirem o direito de sonhar.

    


IX

Pelas estradas e florestas do Mato Grosso

 

 

Depois de centenas de quilômetros sofríveis e quase intransitáveis do noroeste do Estado de São Paulo e da transposição heróica, os viajantes desembarcaram na margem esquerda do Rio Paraná e agora estavam no Estado do Mato Grosso comemorando a vitória.

― Superamos a primeira grande dificuldade e outras haveremos de enfrentar. A temida cordilheira, outros rios, pântanos, animais ferozes e florestas impenetráveis nos aguardam – disse o comandante.

― Todos os dias nos deparamos com desafios e não existe prazer maior do que encará-los de frente - respondeu o mecânico.

― Então já estamos com um problema que haveremos de enfrentar e superar. A falta de dinheiro irá nos acompanhar todos os dias. O que recebemos do prefeito de Bauru gastamos com a balsa e alimentação, durante os dias que permanecemos nos preparando para a travessia. Ainda resta um pouco, mas não podemos nos descuidar, mesmo porque dinheiro não agüenta desaforo - afirmou o comandante.

 Saindo da margem do rio, procuraram pela estação Jupiá, que depois da inauguração da Ponte Francisco Sá mudou-se do lado paulista para o Mato Grosso e daí, os viajantes sabiam que saía uma estrada, em condições precárias, que seguia para Três Lagoas.

Para chegar à estação, seguiram pelo caminho que corre paralelo ao rio, cuja terra nua era batida pelas patas dos animais utilizados pelos pescadores que aí chegavam, montados ou transportados por charretes e carroças.

   Jupiá não tinha nada mais do que a estação de construção recente, além de algumas casas onde viviam as famílias dos operários da manutenção da ferrovia no lado mato-grossense e um bar, muito modesto e simples que, nos tempos em que os vagões eram transportados pela balsa, servia lanches e o que os passageiros procuravam para tomar, enquanto aguardavam pelas operações de transposição da composição através do rio.

De Jupiá seguiram para Três Lagoas. A estrada que ligava uma estação à outra, mal tratada, não tinha mais que vinte quilômetros, mas mesmo assim, gastaram duas horas para chegar ao destino.

A Três Lagoas que os recebeu era governada pelo intendente-geral, João Miguel Experidião. Tratava-se de um povoado bastante próspero, que havia sido promovido à categoria de cidade no dia 15 de junho de 1915 e que, no passado distante, abrigou a tribo dos Ofaiés, do grupo macro-jê, descendente das civilizações indígenas vindas do Chaco Boliviano.

A expedição entrou na cidade no final da tarde, sob chuva intensa e forte. À frente, seguia o Brasil, dirigido pelo mecânico, que revezava o volante com o comandante e com o engenheiro.

― Precisamos procurar o destacamento militar para que nos acomodem em suas instalações, pelo menos nesta noite e, se o tempo permitir, amanhã teremos que procurar as autoridades para pedir ajuda – disse o comandante ao mecânico.

Percorreram as ruas da cidade. A estação da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a exemplo das outras cidades ao longo de seus trilhos, estabelecia e ordenava o desenvolvimento urbano do lugar.

― Amigo, por favor, onde fica o Destacamento Militar? – perguntou o mecânico para um dos moradores que olhava a chuva através da janela de sua casa.

― É só seguir em frente. Fica nessa rua, a não mais que duzentos metros.

E era mesmo. Depois de percorrerem dois quarteirões, viram um edifício com o brasão oficial da Pátria Amada esculpido no revestimento superior da fachada e, ao lado da grande porta que dava acesso ao interior, quatro mastros para exposição de nossas bandeiras nos dias comemorativos. Sabia-se que uma era reservada ao Pavilhão Nacional, outra recebia a bandeira estadual, a terceira era para a bandeira da cidade e o quarto mastro para a bandeira do glorioso exército de Caxias.

Estacionaram onde era permitido. O comandante desceu do automóvel e, fugindo da chuva, saiu a passos largos, quase correndo, procurando a proteção da cobertura que abrigava dois soldados que faziam a guarda, armados de fuzis e vestidos com o impecável e respeitado verde-oliva do Exército Brasileiro.

― Preciso falar com o comandante que está de plantão – disse o tenente.

As providências foram tomadas e o viajante foi atendido imediatamente.

Oliveira apresentou a documentação militar que possuía e contou sobre a missão que realizava.

― Estamos em missão oficial. Temos a anuência e o apoio do Presidente Washington Luís e do Ministro Otávio Mangabeira – disse o tenente.

Com o consentimento da autoridade militar responsável pelo regimento naquele período, os dois carros foram conduzidos para o pátio interno e os viajantes acomodados no alojamento do quartel.

― O jantar já foi servido, mas sempre temos o que comer. Vamos até a cozinha do regimento e, se quiserem, fiquem à vontade – disse o militar que os recebeu.

Os três viajantes se acomodaram no alojamento e, depois do banho e do jantar, recolheram-se para o quarto, mais para descansar e conversar, mesmo porque o horário não era aquele em que costumavam dormir e o tempo úmido e chuvoso não permitia que dessem uma voltinha pelas ruas, igreja e praça da cidade, como sempre o faziam nas cidades por onde passavam.

― A nossa passagem pelo Rio Paraná foi emocionante. Não fosse a velocidade das águas do Rio Tietê, não conseguiríamos vencer a largura do grande rio sem rodarmos, pelo menos, algumas dezenas de quilômetros rio abaixo, à mercê da vontade da correnteza. – disse Lopes da Cruz.

― Devemos considerar que o Mário demonstrou ser muito criativo e dono de idéias práticas e factíveis – afirmou Oliveira.

― Posso dizer que nasci dentro do rio que passa no fundo do quintal da casa onde ainda vivem os meus pais e os meus irmãos. O meu pai é muito criativo. Construiu uma tirada d’água para movimentar o moinho de fubá e o negócio deu certo. Cresci vendo as loucuras que ele fazia pra aproveitar a água do riacho e isso foi uma escola para mim – disse o mecânico.

– Só lamento que tivemos que deixar a balsa lá, ancorada na margem do Paraná, com as cinco toras de cedro e todas as tábuas que utilizamos na plataforma – continuou o mecânico.

― Madeira é o que não falta. O Brasil tem madeira a dar com pau e, com o tamanho do nosso território, nunca vai acabar – argumentou o engenheiro.

― Não penso dessa maneira. Do jeito que vimos as florestas sendo destruídas pela força dos machados e devoradas pelo fogo que vai queimando tudo e expulsando os animais e as aves, não vai demorar muito tempo para que tudo isso aqui se torne um imenso deserto – disse o mecânico.

― O avanço do café, como vimos, é incontrolável. Não vai parar nunca. E não é só o café que está avançando sobre as florestas. Estamos entrando numa região dominada pela pecuária, cujas pastagens também consomem as florestas e o pior de tudo é que a madeira acaba virando carvão, cinza e fumaça, sem que ninguém a aproveite – disse o tenente.

― Pelo padrão das casas que vi ao entrar na cidade, a impressão que tenho é de que aqui corre muito dinheiro – disse o engenheiro.

― E é exatamente disso que estamos precisando. Amanhã vamos até o prefeito para pedir se ele nos dá uma força e nos indica quem são os homens do dinheiro que moram nesta cidade, pra ver se a gente reforça o nosso caixa, que está a quase zero – disse o tenente, que cuidava e controlava o dinheiro da expedição.

E assim aconteceu. Na manhã seguinte, o tenente e o engenheiro foram até a Prefeitura para falar com o Intendente Geral, um próspero fazendeiro, dono de muitas cabeças de gado, que administrava a cidade desde o ano anterior.

João Miguel, o Intendente, era muito querido em Três Lagoas. Conhecia os tantos criadores de gado que havia na região. Sabia da fortuna de cada um e quantas cabeças de gado possuíam.

― Vou lhes ajudar com uma contribuição pessoal e, além disso, vou reunir alguns amigos aqui na Prefeitura, para que vocês repitam pra eles a conversa que tivemos e estou certo de que vai sair uma boa grana. Posso reuni-los ainda hoje, na parte da tarde. Tá bom pra vocês? – perguntou o intendente.

No final da tarde, lá estavam alguns dos homens mais ricos da cidade. Eram pecuaristas e todos contribuíram com uma quantia que, somadas, resultou numa importância suficiente para continuar a viagem.             

 Com a ajuda que acabavam de receber, seguiram para Campo Grande, onde pretendiam passar o Natal e as comemorações do Ano Novo.

― Vamos permanecer uma semana na cidade e aproveitar o tempo para tentar melhorar o nosso caixa e reforçar o nosso estoque de gasolina. – disse o tenente.

Permaneceram oito dias na cidade, incluindo o dia de Natal e a passagem do ano de 1928 para 1929.

Para o mecânico, passar as festas de final de ano distante da família foi uma experiência nada agradável. Era a primeira vez e o homem forte, capaz de enfrentar emoções de toda sorte, dessa vez tombou, assim como tombam todos os mortais diante das coisas que tocam os corações.

No final da tarde, o baririense foi para a estação do trem e na longa plataforma caminhou sozinho pra lá e pra cá, pensando na mãezinha querida que permaneceu em Bariri,  sabendo-se lá quando voltaria a vê-la.

― Nada supera o amor e o carinho de uma mãe – pensava o mecânico, enquanto caminhava na plataforma, sem destino, de uma ponta para a outra e depois retornando pelo mesmo caminho.

Foi assim no Natal e também na passagem de 1928 para 1929. Muita angústia e saudade, na mais imensa e pura manifestação do amor de um filho para com a doce mãezinha.

Nos dias que separaram uma comemoração da outra, os viajantes, tal como aconteceu em Três Lagoas, abrigaram-se nas dependências do quartel do Exército Brasileiro. Estiveram com o Intendente, responsável pela administração da cidade, Sr. Manoel Joaquim de Moraes e dele receberam apoio e ajuda, que somados ao que receberam em Três Lagoas,  foram suficientes para seguirem com a viagem até o Paraguai.

No dia 2 de janeiro de 1929, os viajantes, com Mário conduzindo o “São Paulo” e Lopes da Cruz, acompanhado pelo comandante Oliveira no mesmo carro, deixaram Campo Grande, com a intenção de cruzar a Serra de Maracajú, rumo à fronteira com o Paraguai.

As chuvas fortes que caíram a partir novembro apagaram os sinais dos caminhos e durante muitos dias permaneceram perdidos no vale do Rio Doce e região do Porto Taboado, até que, apoiados por cinco indígenas, foram conduzidos para fora da mata, mas não sem antes serem atacados por uma onça pintada de grande porte, que primeiro avançou sobre os três cachorros que haviam sido incorporados à expedição a partir de Campo Grande e depois sobre o mecânico.

Ao ver o felino, Mário atirou contra o animal, ferindo-o seriamente e este, ao sentir a dor do chumbo que penetrou no seu corpo, voltou-se contra o baririense com um salto prodigioso, derrubando-o com a violência do impacto e deixando-o desacordado. Enquanto o animal investia contra o corpo desacordado do mecânico, preparando mais uma patada e avançando com os dentes longos e afiados no pescoço do companheiro, Lopes da Cruz e um dos índios, utilizando os facões que utilizavam para abrir a picada, desferiram golpes certeiros e mortais no crânio da fera, atordoando-a e, antes de sua reação desesperada, os cães e os outros quatro indígenas deram fim à sua vida.

Mário permaneceu desacordado por algum tempo e quando despertou não se lembrava de nada. Viu o enorme felino estendido entre as folhas úmidas, caídas das árvores e acumuladas no chão para apodrecer e alimentar a terra boa e generosa que dá vida à exuberante floresta e, mesmo que lhe falassem e contassem sobre o ocorrido, não conseguia acreditar. Sua mente não registrou o momento crítico.

― Não sei como essa onça chegou até nós. Só sei que ela não me atacou e o que dizem não passa de uma brincadeira, ou gozação – disse o mecânico para os companheiros e para os indígenas que os ajudavam a sair da mata.

Mal a adrenalina se espalhou pelo corpo de cada um e os cachorros já refeitos do susto e do medo, os indígenas passaram a mão nos facões e foram para o corpo do felino, ainda quente, retirando o seu couro, pintado e belo, para conduzi-lo como troféu e lembrança da inesperada e indesejável aventura que acabavam de enfrentar.

Ainda com o caminho indefinido, porém guiados pelos índios que, como ninguém, conheciam cada palmo daquele chão, Oliveira, Lopes da Cruz e Mário seguiram rumo à fronteira, protegidos pelos nativos contra novos ataques dos animais hostis, mas não dos insetos voadores e das formigas venenosas, que eram tantas que os corpos dos viajantes se cobriam de ferimentos e a dor era insuportável.

Depois de quase um ano da partida do Rio de Janeiro, finalmente alcançaram a fronteira.

Chegaram em Ponta Porã, onde procuraram e foram recebidos no Comando do 11° Regimento de Cavalaria Independente, pelo Coronel Valentin Benício da Silva.

― Podem ficar no quartel quanto tempo julgarem necessário. Aqui terão cama, banho e comida – disse o Coronel.

― Muito obrigado, Coronel. Nós necessitamos de, no máximo, quatro ou cinco dias, tempo suficiente para revisarmos os carros e nos prepararmos para entrar no Paraguai. Precisamos nos apresentar para as autoridades paraguaias e para isso não precisamos deixar o quartel do seu regimento – disse Oliveira.

 

― Acompanharei você nessa visita. Sou amigo do coronel paraguaio que comanda o Regimento de Pedro Juan Caballero. Mantemos um relacionamento bastante cordial – disse o Coronel Valentin.

 

 

― Pretendemos chegar a Asunción, via Pedro Juan Caballero e é por isso que estamos aqui – disse o comandante Oliveira para o Coronel.

― Pois eu lhe recomendo que não o faça através do caminho que liga a fronteira a Asunción. Os paraguaios e os bolivianos estão em pé de guerra. A toda hora acontece troca de chumbos e o conflito me parece inevitável. Os bolivianos, que perderam a saída para o mar quando o Chile, ajudado pela Inglaterra, anexou a região das jazidas de salitre, querem encontrar um novo caminho para o mar.. Vendo-se isolada no interior do continente, sem um único tipo de acesso ao mundo, a Bolívia reivindica para si, a região do Chaco. Pelo Chaco, os bolivianos passam a ter acesso à Bacia da Prata e, descendo pelo Rio Paraguai e Paraná, colocam seus navios no Atlântico. O Paraguai, para evitar a perda da área que julga sua, está mandando pra lá tudo o que podem e, para isso, estão confiscando carros, caminhões e tudo o que pode ser útil num eventual conflito.

― Mas nós somos brasileiros e não estamos envolvidos no conflito. A nossa missão interessa aos paraguaios e se confiscarem nossos carros, estarão abortando a grande chance de fazermos das três Américas uma única nação, forte e independente – disse o tenente, preocupado com a hipótese de perder os carros e a oportunidade de realizar o sonho que o impulsionava.

― Pense bem no que eu lhe disse, tenente. É prudente não correr o risco e a saída que vejo é seguir, pela floresta, contornando a fronteira com o Brasil, avançando por terras paraguaias, passando por Pedro Juan Caballero, Caremá e São Joaquin, região de pouca vegetação, para depois seguirem pela floresta fechada, acompanhando o Rio Paraná e o Salto de Sete Quedas, até encontrarem a cidade de Villa Rica, de onde sai uma estrada que os levará à capital.  Essa estrada está fora da área do conflito e vocês viajarão com mais segurança, apesar das dificuldades que terão para vencer a floresta impenetrável, principalmente nesta época, quando as chuvas são mais intensas – disse o Coronel.

Mário e Lopes da Cruz não estiveram com o Coronel; permaneceram nos carros.

O Coronel e o Tenente Oliveira conversaram por quase uma hora e, ao terminarem, ambos saíram e foram ao encontro do mecânico e do engenheiro.

― Vocês podem estacionar os carros no interior do quartel. Aqui, a área é muito grande e há espaço suficiente para os carros. Depois é só se alojarem no primeiro quarto da ala à direita. Preparem suas camas. Os lençóis e as toalhas estão na lavanderia – disse o Coronel para os viajantes.  

Acomodados nas dependências do Regimento, puderam se deliciar com um banho decente, camas, colchões e roupas de cama limpas e cheirando a sabão, depois de 31 dias perdidos ou avançando lentamente no interior da floresta úmida, quente e intransponível pela densidade vegetal e pelo desconforto causado pelos insetos venenosos e pelos animais hostis à presença incômoda de quem não faz parte do ecossistema.

É incrível a quantidade de insetos que mordem, picam, devoram, depositam bernes e causam sofrimento – registrou, em seus apontamentos, o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, quando cruzou a mesma floresta, acompanhando o Marechal Rondon, em 1913.

Depois do banho quente e da boa comida que o Coronel lhes ofereceu, com os carros recolhidos no interior do quartel e acomodados no alojamento, os viajantes descansavam e conversavam:

― Estamos no paraíso – disse Lopes da Cruz.

― O banho me fez mais novo e recuperou o meu corpo que parecia quebrado ou sob uma carga de uma tonelada – disse o mecânico.

Depois de alguns minutos com os corpos esticados sobre o colchão macio da cama, para o merecido descanso e rejuvenescimento que o momento exigia, Mário e Lopes da Cruz levantaram-se e saíram para dar o costumeiro passeio de reconhecimento do lugar. Na verdade, o que queriam era ver as mulheres paraguaias que, segundo se dizia por todos os cantos do Estado do Mato Grosso, eram lindas e formidáveis companheiras.

Oliveira não os acompanhou. Recolheu-se no quarto com a intenção de registrar no seu diário de viagem o balanço final dos acontecimentos até a conclusão da viagem em terras brasileiras. Haviam saído do Rio de Janeiro no dia 16 de abril de 1928 e estavam na véspera de passar para o lado paraguaio, deixando a Pátria Amada para não saber quando, ou se a veriam novamente.

“Percorremos 2652 quilômetros desde o Rio de Janeiro até a fronteira, sendo 992 quilômetros de estradas até Bauru e 1660 quilômetros de caminhos, trilhas e picadas até Ponta Porã”.

 

 

 


X

Paraguai - lá havia revolução...

 

 

O dia 2 de fevereiro de 1929 amanheceu chuvoso e os expedicionários acordaram cedo. Era hora de partir, mas antes queriam visitar o Comandante do Regimiento Militar de Pedro Juan Caballero e o tenente Oliveira assim o fez, acompanhado pelo Coronel Valentin Benício da Silva. O engenheiro e o mecânico permaneceram nas dependências do quartel, dando os últimos retoques na carga do São Paulo. Aproveitaram também para completar os tambores que transportavam com a gasolina oferecida pelas autoridades da cidade e pelo Exército Brasileiro que, além da hospedagem e alimentação, cedeu-lhes seis pares de coturnos, para que pudessem proteger os pés nos trechos mais difíceis.

O Comandante Oliveira e o Coronel Valentin seguiram com o Brasil para o lado paraguaio. Cruzaram o eixo da Avenida Internacional e, ao fazê-lo, estavam no território paraguaio. O Coronel Valentin trajava roupa civil, mesmo porque a incursão de um militar em território de outro país, quando não em missão oficial, caracteriza-se como desrespeito e poderia provocar um incidente diplomático que devia e podia muito bem ser evitado.  

― Coronel, aqui estou na condição de amigo, não só para cumprimentá-lo, como também para apresentar-lhe o tenente Oliveira, que se encontra em missão oficial civil, não representando, portanto, o Exército Brasileiro, mas sim, o Governo Federal, num trabalho heróico e patriótico de grande importância para todos os povos da América. Oliveira, Lopes da Cruz e Mário Fava seguem para a América do Norte, com dois carros da marca Ford, modelo T, com a intenção de definir o traçado para a construção de uma futura estrada, para ligar os habitantes de todos os países da América – disse o coronel brasileiro para o coronel paraguaio.

― Você está dizendo que eles irão de carro até os Estados Unidos? – perguntou o coronel paraguaio, mostrando no semblante uma inconfundível expressão de descrença, dúvida e susto.

― Sim, eles saíram do Rio de Janeiro, há quase um ano, e pretendem chegar em Asunción, onde procurarão o presidente Dr. José Patrício Gugguiari, para demonstração do plano e solicitação do apoio paraguaio ao empreendimento.

― Não creio, mas não duvido. Os loucos e insensatos estão por toda parte e isso me parece um suicídio. Nem Marco Polo, nem Colombo, nem Cabral e os antigos navegantes foram tão irresponsáveis. Como cruzar os Andes, as florestas, os pântanos, as feras, os insetos, os indígenas hostis e as doenças? Sem estradas, sem combustível, sem peças para manutenção dos carros e nenhuma estrutura de apoio? Isso só pode ser factível, se realizado por um batalhão de cinco mil homens, um exército, e mesmo assim, se não tiverem que enfrentar doenças, daquelas que dizimam milhares em poucos dias – disse, assustado, o coronel paraguaio.

― Coronel, sei que se trata de uma missão impossível ou muito próximo disso, mas sei também que não se pode duvidar da capacidade dos jovens. São três homens destemidos, daqueles que os nossos exércitos sonham tê-los em suas fileiras. Tanto eu, pelo lado brasileiro, como o amigo, pelo lado paraguaio, passamos nossas vidas procurando fazer homens com essas características e esses três expedicionários já nasceram assim. Foram feitos pelo Criador e isso não lhe parece admirável? Já percorreram 2652 quilômetros de estradas, caminhos, florestas impenetráveis, rios e doenças e não demonstram nenhum sinal de desânimo, ao contrário, estão com um entusiasmo de fazer inveja – afirmou o coronel brasileiro para o militar paraguaio.

 ― Está bem – e em que posso servi-los?

― Estamos aqui para informá-lo e, ao mesmo tempo, pedir-lhe autorização para cruzar a fronteira. A Expedição precisa do apoio paraguaio e o exército precisa saber da reta intenção que carregamos dentro de nós – disse Oliveira para o coronel paraguaio.

― Quanto a mim, não tem problema, porém, se procuram apoio financeiro, acredito que não terão sucesso, mesmo porque o país está comprando armas e preparando homens, pois, como sabem, estamos em vias de um conflito com nossos vizinhos do Norte.  Os bolivianos querem uma parte de nosso território e já basta o que nos tomaram na guerra contra o Brasil, Argentina e Uruguai há sessenta anos – disse o paraguaio.

Oliveira e o Coronel Valentim agradeceram e retornaram ao Brasil, numa viagem que não demorou mais que 15 minutos para chegarem ao quartel, onde o mecânico e o engenheiro os aguardavam.

― Vamos comer alguma coisa e seguir em frente. Esta é uma data histórica - 2 de fevereiro de 1929. Vamos sair do nosso país e não sabemos o que teremos pela frente, nem quando voltaremos a vê-lo  – disse o Comandante Oliveira aos companheiros.

As cidades de Pedro Juan Caballero e Ponta Porã são irmãs siamesas e por ser assim é que o mecânico e o engenheiro, na noite anterior, haviam cruzado a fronteira, enquanto Oliveira fazia suas anotações no diário da viagem.

Mário e Francisco haviam passado de um país para o outro, como num passe de mágica. Queriam ver “las chicas hermosas” e bailar ao som que os músicos tiravam das cordas encantadas de suas harpas.

Galanteadores e paqueradores que eram, deram-se bem e entusiasmaram-se com as mulheres paraguaias. Ouviram músicas folclóricas e lindas guarânias, no calor e hospitalidade dos irmãos de além fronteira. Já conheciam a mulher paraguaia porque enquanto percorriam o território mato-grossense, viram-nas, primeiro em Campo Grande e depois, em número maior, quando chegaram a Ponta Porã, porém, foi em Pedro Juan Caballero que tiveram oportunidade para uma boa cerveja, um papo agradável e para desfrutar o bom da noite: a cama.

― Son calientes – disse o mecânico, fazendo uso das primeiras palavras em espanhol que acabava de aprender.

― Quem vem à fonte bebe água mais limpa – disse o engenheiro para o mecânico, ao ver-se rodeado de tantas mulheres que esbanjavam beleza e sedução.

Enquanto conversavam entre si na taberna paraguaia, uma música, cantada num português de fronteira, ou portunhol, tocou a alma do mecânico - parecia contar a sua história e o momento marcante que os três brasileiros estavam vivendo.

― Cruz, preste atenção na letra da música.

O engenheiro baixou o copo que mantinha nos lábios e colocou-o sobre a mesa para, em meio ao barulho de muitos decibéis  que o ambiente permitia, escutar a letra de que lhe falara o mecânico:

Cheguei na beira do porto

Onde a onda se espraia

A garça dá meia volta

E senta na beira da praia

E o cuitelinho não gosta

Que o botão da rosa caia, ai, ai

Ai eu vim

Da minha terra

Nem despedi da parentáia.

Eu entrei no Mato Grosso

Dei em terra paraguaia

Lá tinha revolução

Enfrentei fortes batáia, ai, ai

A tua saudade corta

Como aço de naváia

O coração fica aflito

Bate uma, a outra fáia

E os óio se enche d’água

Que até a vista se atrapáia., ai...

 

Ao final da música, os dois brasileiros aplaudiram. Mário olhou para o amigo e viu-lhe os olhos cheios de lágrimas, percebendo que o mesmo estava acontecendo com os seus.

― Vamos nos despedir das chicas e voltar para o quartel. Amanhã teremos que reiniciar nossa caminhada – disse o engenheiro.

E foi assim mesmo. No outro dia, pouco antes do meio-dia, Oliveira, acompanhado pelo Coronel Valentim, retornou do encontro com a autoridade militar paraguaia e chegou ao quartel brasileiro:

― Preparem-se para partir. Hoje deixaremos o chão sagrado da nossa pátria – disse o tenente. 

Depois de almoçarem no quartel, os expedicionários saíram de Ponta Porã, cruzaram a Avenida Internacional que é, na verdade, a linha de fronteira entre os dois países.

Foram poucos minutos para saírem do Brasil e, agora, em Pedro Juan Caballero, seguiram no rumo de Coremã e San Joaquin, conforme o Coronel Valentin havia-lhes recomendado.

Acompanhando a fronteira com o Brasil pelo lado paraguaio, seguiram pela província de Amambay até que, dias depois, ouviram e avistaram uma maravilhosa catarata.

― Encantadora - exclamou o tenente.

― É o Salto de Sete Quedas, que os paraguaios chamam de Salto del Guairá – completou o engenheiro.

Os arco-íris, mais de dez, pareciam brotar das águas que caíam e se transformavam em gotículas que mais pareciam uma névoa fina e cristalina.

― Que privilégio poder apreciar esse presente do Criador. Sinto, às vezes, que Deus exagera quando nos oferece um espetáculo como esse. Nós não merecemos tanto – disse o mecânico, ou pensou para dentro de si, diante de um festival de cores que bailavam entre si, ao som da encantada e maravilhosa sinfonia da natureza, a queda da água batendo nas pedras.

Se pudessem, os expedicionários permaneceriam apreciando a maravilha em que os seus olhos nem acreditavam, mas a força que os impulsionava obrigou-os a retomar a viagem e o fizeram, aventurando-se pela floresta quase impenetrável do nordeste paraguaio.

― Vamos abrir nosso caminho sem nos afastarmos do Rio Paraná – disse o Comandante Oliveira.

A força dos braços que empunhavam os machados ia, aos poucos, eliminando cipós e os arbustos mais finos, para possibilitar a passagem dos carros entre as árvores gigantescas da exuberante floresta, nunca antes cruzada por qualquer tipo de veículo motorizado.

Enquanto abriam o caminho, os brasileiros eram assediados por feras e pelos índios selvagens e hostis da etnia guarani.

― Estamos sendo observados pelos índios. Vamos ficar atentos para não sermos colhidos de surpresa numa emboscada. Isso seria fatal para nós – disse o tenente.

― Vamos fazer de conta que não os percebemos. Eles apenas nos observam e permanecerão assim, a menos que se sintam ameaçados – disse o mecânico.

A floresta, os guaranis, os animais, os insetos e as chuvas intensas revezavam-se, ou aconteciam ao mesmo tempo e a cada passo.

O cuidado com as cobras venenosas precisava ser redobrado porque eram raros os dias em que não deparavam com uma, duas ou mais, as quais viam fugir ao som das machadadas e do barulho dos motores dos carros, que pouco avançavam naquelas condições. Havia, também, as serpentes que, amedrontadas ou assustadas com o movimento estranho a que assistiam, atacavam os expedicionários que, não fossem os coturnos que receberam do Coronel Valentin, teriam sido eliminados pelo veneno mortal que as peçonhentas carregam na pequena bolsa armazenadora, ao lado do par de dentes agudos e penetrantes, guardados em suas bocas.

Lopes da Cruz não foi tão feliz assim. Uma serpente venenosa conseguiu atingi-lo, picando sobre sua calça, na altura do meio da perna direita, onde o couro do coturno não mais o protegia e o tecido da calça, embora grosso, permitiu a penetração dos dentes finos, levando para dentro de suas veias parte do veneno que não foi absorvido pelas fibras do algodão, quando a bolsa de veneno foi rompida,.

― Só isso é o que me faltava – disse o engenheiro, ao sentir a dor da picada e a visão começando a ser ofuscada pela ação do veneno.

O mecânico e o tenente largaram seus machados e correram em socorro ao engenheiro. Mário procurou pela serpente e viu-a fugindo entre a relva. Avançou sobre ela e, com o facão de mateiro que levava preso à cinta, desferiu um, dois ou três golpes mortais, cortando o réptil em duas partes, para depois esmagá-la, pisando em sua cabeça.

― Vamos fazer um torniquete quatro dedos abaixo do joelho, para evitar que o sangue envenenado se espalhe pelo corpo. Faremos um pequeno corte, em cruz, sobre a picada para permitir que o sangue e o  veneno saiam – disse o mecânico – é preciso puxar o sangue por aspiração bucal e isso eu o farei. Depois disso, é só pedir e esperar pela generosidade divina.

Enquanto o mecânico apertava o torniquete, feito com um pedaço de corda que retiraram das amarras do caminhão, o tenente foi até o Brasil para apanhar uma faca que levava consigo.

― É preciso esterilizá-la com fogo, para evitar o tétano – disse o engenheiro, sentindo o calafrio que o veneno lhe causava.

Com a lâmina pouco afiada, o tenente fez dois cortes em cruz sobre a picada do réptil e o mecânico pôs-se a aspirar e cuspir seguidamente o sangue que retirava da perna ferida do amigo.

O engenheiro entrou em estado febril e a temperatura do corpo passou a ser controlada pelos companheiros, que se revezavam na busca de água das nascentes cantantes que havia na densa vegetação para umedecer o corpo frágil e trêmulo.

Depois dos cuidados possíveis pelas circunstâncias que o lugar permitia, os companheiros levaram o engenheiro para o rancho que haviam improvisado e o acomodaram sobre um colchão de palha, para que aí permanecesse na tentativa de livrar-se da morte.

Sentiram, mais uma vez, que a força da natureza se multiplica nessas condições, demonstrando que a fragilidade dos corpos daqueles três brasileiros que levavam em suas almas a grandiosidade de seus sonhos, pouco ou nada podia valer, se não fossem impulsionados por uma vontade transformadora que os colocava na condição de mais fortes do que, na verdade, eram.

O corpo do engenheiro parecia não resistir ao veneno que corria em suas veias. Suava muito até que a noite veio, trazendo uma tempestade terrível. Ventos, raios, trovões e chuva pareciam mostrar que o juízo final havia chegado. Despertados do sono profundo e sobressaltados pelo espanto, recebiam a chuva forte sobre os corpos cansados da lida do dia anterior, enquanto o vendaval levava o rancho que haviam construído no final do dia anterior.

 ― Meu Deus, será o dilúvio? – exclamou o tenente.

Iluminando a tragédia, a claridade dos relâmpagos fazia ver o rosto do engenheiro que, além de assustado, mostrava-se abatido com a luta que os glóbulos vermelhos do seu sangue travavam, no interior de suas veias, com o veneno mortal da serpente peçonhenta.

― Será que sairei dessa? É muito, num só dia – reclamou o engenheiro, sentindo o tic-tac acelerado do coração, dentro do peito.

O espantoso estalido dos trovões fazia a terra tremer e o som ensurdecedor produzido pelos raios e pelo vento juntava-se ao barulho das árvores sendo arrancadas, produzindo um retumbar, como se um combate de canhões estivesse acontecendo no interior de seus ouvidos.

― Espero que nenhuma árvore caia sobre os nossos carros ou sobre nossas cabeças – gritou o mecânico, porque somente assim podia se fazer ouvir.

 Aos poucos, o dilúvio foi se transformando numa tempestade mais generosa, momento em que os valentes viajantes levantaram os olhares aos céus, clamando pelo Criador com tanta fé e energia, que  sentiram como que suas preces tivessem sido atendidas, porque constataram que, mesmo com os raios caindo aos seus pés, deixando no ar o cheiro forte do enxofre e no chão o aspecto de terra arada,  permaneciam intactos.

― Esse é mais um momento para agradecer a Deus. Ele não nos tem faltado e haverá de dar força para que o amigo supere a enfermidade que o veneno da serpente lhe causou – disse o mecânico, lembrando-se das tantas vezes que conversara com Deus, quando a mãe o levava para as cerimônias religiosas na Igreja de Nossa Senhora das Dores, em  Bariri.

― Já me sinto mais disposto e a febre não me castiga tanto. No momento, as pulsações do meu coração não estão aceleradas e parece-me que não será desta vez – disse o engenheiro, colocando a mão esquerda sobre o peito e fazendo o sinal da cruz com a direita.

No dia 22 de abril de 1929, dia em que a Pátria Amada completava mais um aniversário do seu descobrimento e, depois de pouco mais de dois meses e meio abrindo picadas e improvisando pontes pela mata, lograram chegar a Villa Real, queimados pelo sol, com as barbas e os cabelos crescidos e acometidos por insuportáveis febres e infecções intestinais. O engenheiro, depois de muito sofrimento, mostrava-se muito debilitado, porém era visível a recuperação lenta e constante, considerada a sua situação nos dias anteriores.

Três dias mais tarde, agora por boa rodovia, tomaram o destino de Asunción, onde foram recebidos pelas autoridades locais, entre elas o Dr. Fernando de Souza Dantas, embaixador brasileiro que representava e cuidava dos interesses do Brasil no Paraguai, pelo senador Dr. Zoilo Dias Escobar, pelo engenheiro Alejandro Bibilini, presidente do Touring Club local e pelo Dr. Agustín Gasanelo, presidente da imprensa paraguaia.

O embaixador brasileiro acomodou os expedicionários no alojamento que mantinha para esse fim e encaminhou Lopes da Cruz para uma revisão médica, valendo-se do médico que fazia parte do corpo diplomático brasileiro.

Curioso que estava, o Embaixador ouviu dos expedicionários o histórico dos acontecimentos durante a viagem e procurou saber, com detalhes, da intenção e dos propósitos da importante missão.

Oliveira, bom comunicador que era, mostrou os documentos e credenciais assinadas pelas autoridades maiores, o presidente Washington Luís, o ministro das relações exteriores, Dr. Otávio Capanema e pelo embaixador dos Estados Unidos, Mr. Edwin Morgan, para depois falar do propósito da Expedição e contar sobre a viagem.

O Dr. Fernando ouviu atentamente e, antes que o tenente lhe solicitasse, antecipou-se e disse:

― Vou procurar agendar com o presidente Gugguiari uma audiência no Palácio Francisco Solano Lopes, sede do governo paraguaio. Ele vai gostar de saber que os paraguaios serão integrados, definitivamente, com todos os povos da América.  No momento, o Paraguai passa por uma crise com a Bolívia que, para o bem de todos, espero que seja resolvida pela diplomacia dos dois países.

Imediatamente após a recepção na embaixada brasileira, o Dr. Fernando entrou em contato com a assessoria do presidente, que marcou para recebê-los no dia 30 de abril de 1929.

Na data marcada, ainda pela manhã, o presidente Dr. José Patrício Gugguiari recebeu os brasileiros e, depois de ouvi-los, declarou-os “Hóspedes de Honra”, além de formular votos de pleno sucesso para a importante missão.

Passaram duas semanas na capital paraguaia, esperando pela recuperação completa do engenheiro que, mesmo abatido e enfraquecido, tratou de orientar os desenhistas paraguaios que o governo colocou à sua disposição, para as anotações e registros no mapa, do traçado do ramal que haveria de ligar os paraguaios ao tronco coletor principal da futura rodovia.

Cumpridas as formalidades diante das autoridades locais e com a saúde do engenheiro em franca recuperação, seguiram para o Sul, rumo à Villa Encarnación, de onde, no dia 10 de junho de 1929, despediram-se do Paraguai e entraram na Argentina.

― Pelas minhas anotações, percorremos 1402 quilômetros desde que saímos de Pedro Juan Caballero. Foram 682 quilômetros de picadas abertas até Villa Rica, 700 entre Villa Rica, Asunción e Villa Encarnación, além dos 20 que rodamos nos arredores da capital – disse o tenente.

― Esses 20 quilômetros que rodamos em Asunción parece-me que foram muito interessantes e saudáveis, porque saímos para ver as formidáveis chicas paraguaias – disse o baririense, estampando um alegre sorriso maroto nos lábios.

 Os três brasileiros riram muito pela feliz lembrança que o mecânico acabava de fazer, enquanto aguardavam a balsa para a travessia do Rio Paraná, fronteira dos dois países e ponto para ligação entre a Villa Encarnación, do lado paraguaio, e Posadas, do lado argentino, onde a água do grande rio desce mansa à procura de seu destino: o oceano.

― Aqui, um dia haverá uma ponte - disse o engenheiro, pensando na importante rodovia que os expedicionários traziam nos sonhos.   


XI

Argentina - Conferência das Américas

 

 

Depois de algum tempo de espera, a balsa atracou na margem paraguaia do grande rio, para depois retornar para o lado argentino, transportando os dois carros da expedição, além de pedestres, carroças e animais.

Os primeiros a entrar na balsa foram os brasileiros, que aguardavam pela travessia há mais de uma hora.

― Chegou a nossa vez – disse o tenente Oliveira.

O São Paulo seguiu na frente e posicionou-se sobre a balsa, no lado direito, dando espaço para que o Brasil ocupasse a sua esquerda. Além dos freios, as rodas foram travadas com pedaços de madeira. A plataforma que servia de rampa para os embarques foi levantada pela ação das mãos e dos braços fortes do balseiro, que acionou a  manivela e esta a roldana, na qual o cabo de aço foi se enrolando para erguê-la, desprendendo-a do chão paraguaio.

A balsa partiu, empurrada pelo motor barulhento do rebocador, que funcionava acoplado na plataforma lateral. 

― Estamos na Argentina – disse o engenheiro, quando percebeu que a balsa havia deixado a metade paraguaia do Rio Paraná.

― Esta é a nossa segunda passagem pelo grande rio. Posso garantir que foi mais tranqüila, porém, menos emocionante do que a primeira, quando entramos no Mato Grosso, impulsionados pela água veloz e barrenta do Rio Tietê – disse o mecânico, lembrando-se da balsa que tiveram que construir e da estratégia armada para transpor o grande rio, em Jupiá.

― Aqui vamos ouvir Gardel o tempo todo. O talento desse homem é a magia que encanta e enlouquece os argentinos e  haveremos de nos deliciar, ouvindo-o também – disse o tenente.

Os dois veículos desembarcaram, ingressando na República Argentina, por Posadas, e aí permaneceram, em cumprimento às obrigações e trâmites de fronteira, pernoitando do dia 10 para 11 de junho de 1929.

Ao amanhecer, seguiram pelo território de Misiones. Atravessaram as províncias de Entre Rios, Corrientes e Santa Fé, onde foram recebidos pelas autoridades locais, que os abrigaram no 12° Regimiento de Infanteria.

 

Na ocasião, os argentinos eram governados por Juan Hipólito Del Sagrado Corazón de Jesus Yrigoyen, que havia ocupado a presidência entre 1916 e 1922, período em que os platinos experimentaram um excelente desenvolvimento. Em 1928 voltou ao poder, na esperança de dar prosseguimento ao notável crescimento acontecido na sua gestão anterior.

A Argentina de então possuía uma invejável malha viária, com rodovias pavimentadas com a qualidade que se podia comparar às dos países mais desenvolvidos da época e a capital acabava de construir e inaugurar a sua primeira linha de metrô, seguindo as mesmas diretrizes adotadas em Paris.

As conquistas econômicas refletiam-se no bem estar de todos e esse era mais um motivo para que o sistema viário argentino fosse integrado ao tronco coletor da grande rodovia, através de um de seus ramais, conforme sonhava o Comandante Oliveira.

A Expedição mapeou as estradas argentinas, desde Posadas, seguindo para o Sul, até a cidade fronteiriça de Concórdia, chegando no dia 7 de agosto, para uma rápida missão pela região que faz fronteira com o Uruguai. De Concórdia, seguiram para Salto, no lado uruguaio, com a intenção de obter dados sobre as ligações do sistema viário do país e, principalmente, da via que liga Salto com Montevideo.

Insatisfeitos e julgando não factível a integração viária do Uruguai com a futura rodovia através de Salto e Concórdia, voltaram para o lado argentino e daí seguiram para Colón, para nova incursão pela fronteira, agora através de Paysandu. O traçado que escolheram aproveitava a estrutura da estrada que, saindo de Montevidéo,  passava por Canelones, San Jose, Cordona e, ao chegar na cidade de Mercedes, cruzava a fronteira, chegando em Gualeguayachú, no lado argentino, de onde foi julgado possível ligá-la ao ramal secundário, através da cidade de Córdoba.

A missão na fronteira do Uruguai foi concluída no final da tarde do dia 10 de agosto.

Depois de definido o ramal uruguaio, seguiram para o Sul, com a intenção de chegar a Buenos Aires a tempo de participarem da 6ª Conferência Internacional das Américas, programada para o dia 20 de agosto de 1929, onde representantes de todos os países americanos estariam reunidos para promulgar o decreto 18875, que tratava da união pan-americana.

― Precisamos chegar à capital a tempo de encontrar os ministros para que tomem conhecimento do que planejamos – disse o tenente para os companheiros, quando ainda em Gualeguayachú.

Chegaram a tempo e foram recebidos pelos argentinos que os declararam Hóspedes Oficiais, porém o encontro com as autoridades dos países americanos não aconteceu.

― Eles não querem nos receber – pensou o tenente. Julgam o projeto mirabolante e que somos loucos ou sonhadores e irresponsáveis.

E não os receberam mesmo, argumentando que o encontro dos brasileiros com os Ministros de Estado não havia sido programado e que a presença dos expedicionários era uma surpresa, não prevista, pelos organizadores do evento.

Mesmo considerando-se que o encontro não aconteceu, ninguém pode negar que a simples informação, de que havia alguém sonhando com a ligação das Américas através de uma grande estrada, devia ser vista como um fato importante e de bom tamanho.

― As autoridades da capital não estão sendo tão receptivas como o foram os governadores e prefeitos dos lugares por onde passamos – disse Oliveira para o engenheiro.

― Diante da negativa, é melhor procurarmos a Embaixada do Chile, coletar dados sobre as rodovias que possuem e planejarmos o traçado. O país é muito mais extenso, no sentido de quem vai da cidade de Ushuaia, na Patagônia, para as regiões desérticas do Norte. O ramal chileno deverá margear o Oceano Pacífico, acompanhando os Andes, até encontrar com os outros dois, um que sai de Buenos Ayres e outro que vem do Rio de Janeiro – disse o engenheiro. Basta apenas verificarmos, na Embaixada do Chile aqui em Buenos Ayres, se a malha viária chilena tem condição de ser integrada ao nosso projeto.

― Temos ainda o Norte da Argentina, desde Buenos Ayres até a fronteira com a Bolívia, para concluirmos o nosso trabalho em território argentino – respondeu Oliveira que, olhando para o mapa onde o engenheiro fazia suas anotações, sentiu que a posição dos ramos já registrados sugeria o encontro e ligação dos mesmos ao tronco principal, na divisa da Bolívia com o Peru.

Os brasileiros saíram de Buenos Ayres sem o apoio esperado, seguindo para o Norte, com a intenção de chegarem à Bolívia.

Ao passarem por Oncativo, na Província de Córdoba, o prefeito departamental os recebeu e fez questão de fazer-se fotografar, ele, a mulher e suas duas filhas menores, ao lado dos expedicionários, antevendo que, pela bravura que viu nos olhos de cada um, certamente encontrariam a vitória e consagração de seus propósitos.

Em Córdoba, capital da província de mesmo nome, o inspetor Cortella, chefe da polícia, recebeu os expedicionários e os levou ao governador Dr. Jose A. Ceballos que, além de abrigá-los, ofereceu-lhes apoio material e financeiro.

 Saindo de Córdoba, passaram por Santiago de Estero, Tucumán, Salta e Jujuy, concluindo aí os estudos e a definição do traçado do ramal que, além de ligar a Argentina ao sistema pan-americano, receberia o sub-ramal procedente de Montevideo.

Durante os quase três meses que permaneceram na Argentina, as oito rodas dos valentes veículos percorreram 3836 quilômetros. Pouco mais de 3224 aconteceram em rodovias de boa qualidade, 300 por caminhos rurais e os últimos 312, entre Jujuy e La Quiaca,  tiveram que ser abertos.

― O maior desafio em território argentino foi o trecho de Jujuy até La Quianca, na fronteira com a Bolívia, quando tivemos que subir até o alto da temível cordilheira. Enfrentamos todo sofrimento provocado pelo ar, cada vez mais rarefeito, e pelo frio penetrando em nossos corpos. Aprendi, na minha infância em Bariri, que os brasileiros não desistem nunca. Acovardar-se diante das dificuldades não faz parte da minha natureza – disse o mecânico, no dia 16 de setembro de 1929, ao colocar os pés em território boliviano, ainda sentindo os efeitos da altitude em que se encontrava.


XII

Bolívia - entre os Aymaras e os Quéchuas

 

 

             Ainda não adaptados ao baixo teor de oxigênio das grandes altitudes e atordoados pelo efeito que ele proporciona, os expedicionários entraram no território boliviano, pela cidade de Villajón, no dia 16 de setembro de 1929.

            ― Parece que estamos entrando em outro mundo, tal é a diferença étnica dessa gente em relação ao que conhecemos ou ao que vimos pelos lugares por onde passamos - disse o comandante, ao descer do Brasil e encontrar com o mecânico e o engenheiro, que chegavam com o São Paulo.

            ― São frutos do isolamento proporcionado pela topografia. A maneira como se vestem e outros costumes, vêm das raízes que os ligam aos seus antepassados, os Aymaras e os Quéchuas, do poderoso Império Inca, destruído pelos conquistadores europeus, sedentos pelo ouro e pelo sangue dessa gente – disse o engenheiro, conhecedor que era da história que aprendera nos bancos escolares e pelos livros que lera.

            ― Fiquei encantado com os animais que encontrei ao longo do caminho e das aves gigantescas que vi sobrevoando os picos mais altos da cordilheira. Sei que são condores e que a força de suas asas permite que habitem as alturas – disse o mecânico.

            ― Essas aves e esses animais são sagrados para os nativos – completou  Oliveira.

            ― Apesar de atordoado, sentindo um sono insuportável e a cabeça rodando, percebo que o cenário dessas diferenças nos proporciona o admirável e o belo – completou o engenheiro.

            Os caminhos que encontraram, depois de vencido o desafio de sair de uma altitude mediana em relação ao nível do mar e chegar aos altos píncaros da cordilheira, foram construídos pelas civilizações locais há vários séculos e muito antes da chegada dos europeus. Os conquistadores espanhóis valeram-se das trilhas incas e por elas transitaram por muitos anos, explorando e transportando metais nobres como o ouro, a prata e o estanho, cuja riqueza era tanta, que a coroa espanhola chegou a abrir, em território boliviano, a sua primeira Casa da Moeda fora da Espanha.

            Era a primeira vez que automóveis chegavam à região distante, isolada e remota. Um fim de mundo, num ponto esquecido do planeta.

            Os nativos mostravam-se curiosos e alguns se sentiam assustados com os engenhos concebidos por Henry Ford, que se movimentavam, produzindo o barulho característico de seus motores. Imaginavam que os veículos tinham vida, uma vez que no universo de seus conhecimentos somente seres vivos - as lhamas, as vicunhas, as alpacas, as aves, os peixes, os répteis e outros animais, além do homem, podiam movimentar-se por si, sem nenhuma interferência externa. O vento também se movimenta, pensavam os nativos, porém, esse é um mistério dos Deuses ou o próprio Deus.

            Mesmo diante da novidade que seus olhos testemunhavam, os habitantes do lugar acolheram os viajantes com muito carinho e deram a eles todo tipo de ajuda.

            ― A gasolina e o óleo lubrificante de que dispomos está no fim. Os tambores que o São Paulo traz estão quase vazios. A subida para o alto da Cordilheira consumiu mais do que imaginávamos – disse o mecânico.

            Oliveira procurou as autoridades do vilarejo para se apresentar e dizer da missão que realizavam, uma vez que haviam cruzado a fronteira e isso exigia o cumprimento dos regulamentos que a lei do país determinava.

            ― Aproveite para perguntar onde poderemos encontrar combustível para repor o nosso estoque – lembrou Mário.

            Oliveira foi, e ao chegar diante das autoridades, estas já sabiam tudo sobre a novidade a que o povoado assistia. Contou sobre a missão, apresentou documentos assinados pelo governo brasileiro e vendo o entusiasmo dos bolivianos aproveitou, como fazia em todas as vezes que oportunidades dessa natureza apareciam, para pedir apoio material e financeiro.

Os bolivianos mostraram-se solidários, mas nada ou quase nada podiam oferecer.

― Diante das dificuldades materiais e financeiras que vivenciasmos, podemos apenas oferecer-lhes abrigo, para que passem as noites que aqui permanecerem, além de  dividir o pão nosso de cada dia – disse o boliviano.

― Além da hospedagem, do que mais necessitamos, no momento, é combustível para os nossos veículos – disse o Comandante para as autoridades que o recebiam.

― Combustível não existe. Aqui, chega apenas o querosene na quantidade suficiente para abastecer as lamparinas que são utilizadas na iluminação caseira. Até os nativos utilizam lamparinas. Gasolina só existe a centenas de quilômetros daqui e posso lhe afirmar e garantir que aqui nunca chegou um carro. Sou de Santa Cruz de La Sierra e vivo nessa fronteira desde o dia 12 de junho de 1919 – completou o crucenho.

Ao ouvir que o combustível não poderia ser encontrado, as pernas do tenente tremeram e por um minuto um vermelho pálido tomou conta de seu rosto e os lábios emudeceram.

― Centenas de quilômetros? - perguntou assustado o Comandante - depois de se refazer do choque que a informação lhe causou.

― Quatrocentos ou mais – disse o boliviano.

Oliveira despediu-se das autoridades e percorrendo os pouco mais de 50 metros que separavam o posto das autoridades bolivianas do lugar onde os carros se encontravam, agora, rodeados por quase todos os moradores do vilarejo: homens, mulheres, velhos e crianças, que satisfaziam sua curiosidade pondo as mãos, olhando por baixo e por cima, pegando na manivela, nos faróis e sentindo o calor dos escapamentos e dos motores que há pouco estavam ligados, pensava muito, enquanto um profundo desânimo tomava conta de seu corpo e mente.

― O que haveremos de fazer? – pensou o tenente que, ao chegar, contou a triste novidade para os companheiros.

― Quatrocentos quilômetros? O combustível que temos em nossos tanques e o que resta no único tambor que ainda tem alguma coisa, não dá para rodar nem cem – disse o mecânico.

Mário que, enquanto o tenente conversava com as autoridades, havia provado uma dose de chicha, um tipo de aguardente de alto teor alcoólico, que os nativos obtinham pela fermentação do milho e que lhe fora oferecido por um deles, teve a feliz intuição de que poderia estar na bebida aymara a grande e única saída.

O mecânico sabia que Henry Ford, ao conceber o modelo “T”, em 1908, acreditava que o etanol seria o combustível do futuro e fê-lo para funcionar, tanto com o etanol como com a gasolina, que acabou prevalecendo, por ser um subproduto desprezado do petróleo e, portanto, com preço irrisório.

― O motor Ford, que funciona com a combustão da gasolina ou do etanol, haverá de funcionar, também, com um combustível intermediário - pensou e falou o mecânico, para ninguém ouvir.

Os nativos, entusiasmados com tudo a que os seus olhos assistiam, com seus dedos tocando os carros e encantados com o jeito alegre dos brasileiros, forneceram-lhes a aguardente solicitada pelo baririense.

Mário retirou a gasolina que havia no tanque do Brasil e em seu lugar colocou pouco mais de um litro da aguardente. Tentou ligar o carro e este, ainda com o motor embebido pela gasolina que permanecia nas tubulações do motor, começou a funcionar, porém, com a chegada do álcool no seu dispositivo de queima, não sustentou a marcha e apagou. Mário adicionou um copo da gasolina que havia retirado e, dessa vez, ao acionar a ignição, percebeu que o motor respondeu positivamente.

― Vai funcionar. O motor vai aceitar a cachaça. Será necessário ajustar o motor, porém, como o problema é a falta de gasolina, precisamos encontrar outra coisa para misturar com a bebida. Querosene, talvez...

Mário misturou a cachaça com diversas proporções de querosene e ajustou no motor para cada fórmula que produziu, procurando encontrar a composição mais adequada. Depois de várias tentativas, percebeu que a combustão da chicha secava o mecanismo de propulsão. Era necessário incorporar à formula que procurava, algo com característica oleosa e experimentou a gordura suína e das lhamas.

Alterando as proporções a cada tentativa, uma delas levou o baririense a uma mistura que transferia aos carros a potência  semelhante à que vinham obtendo com a gasolina.

― Vai dar pra ir em frente – disse o mecânico - a mistura obtida substituirá a gasolina e a banha das lhamas ou dos porcos selvagens, depois de aquecidas, funcionarão como lubrificante.

Os três viajantes comemoraram festivamente a solução improvisada  pelo mecânico baririense.

― Mário, você é o melhor mecânico do Brasil. Não existe ninguém melhor que você – disse o tenente.

― Os carros é que são fantásticos. Além de valentes, são mágicos. Henry Ford os concebeu assim – respondeu o mecânico – trazem motores que, se ajustados, aceitam o etanol e a gasolina. O que fizemos foi preparar uma mistura que não é totalmente álcool, nem gasolina. Trata-se de um combustível intermediário, mesmo porque, aqui no alto não temos o álcool propriamente dito, nem gasolina. Tampouco temos o oxigênio em quantidade suficiente para uma boa respiração.

 Ainda atordoados pela altitude, mas agora felizes com a descoberta do novo combustível, deixaram Villazón, seguindo para o interior do território boliviano.

Admirando a fauna – vicunhas, lhamas, alpacas e guanacos – vez por outra viam os condores, aves gigantescas que habitam os pontos mais altos da cordilheira, simbolizando a grandeza dos Andes.

Os expedicionários seguiam apreciando o cenário maravilhoso proporcionado pelo altiplano. Paisagens paradisíacas foram apresentando-se e maravilhados com a beleza sublime do Salar de Uyuni, onde o céu e a terra se fundem numa única miragem, os expedicionários tiveram certeza de que quem chega tão próximo de Deus tem assegurado o sucesso de suas empreitadas. Apoiados pela fé, seguiram pelos Departamentos de Chichas, Abaroa, Sicasica, Ingavi, Potosi e Oruro, até chegar a La Paz.

Na cordilheira, os expedicionários, muitas vezes, dormiram entre as pedras, suportando o desconforto da altitude de quase 4000 metros e as baixas temperaturas. Alimentavam-se com os coelhos que caçavam, auxiliados pelos cães que os acompanhavam. Comiam batatas, que são nativas do lugar e bebiam a chicha, que era gentilmente fornecida pelos nativos, para combustível e bebida que, quando ingerida, aquecia seus corpos por dentro.

No percurso, foram recebidos pelos governadores dos Departamentos por onde passaram e se apresentaram, solicitando apoio e expondo o projeto que implantavam. Além de apoio material e financeiro, foram escoltados pelos batalhões do exército boliviano.

Ao chegarem a La Paz, a capital dos bolivianos, foram recebidos pelo presidente Hernando Siles Reyes, que ocupava o comando do país andino desde 10 de janeiro de 1926. O presidente os recebeu com muito entusiasmo.

― Da Bolívia vocês podem contar com todo o apoio de que dispomos. Estou declarando-os hóspedes oficiais dos bolivianos e a nossa gente se sente honrada com a presença de vocês em nosso território - disse o presidente.

Os expedicionários deixaram o gabinete presidencial e ao fazê-lo, foram abordados por um dos generais palacianos.

― Se estão viajando para os Estados Unidos, haverão de passar por Manágua, não é? – perguntou o general.

― A Carretera que sonhamos ligará todos os povos das três Américas e o território nicaragüense é parte do nosso projeto. Passaremos por Manágua, sim – disse o Comandante Oliveira.

― Uma de minhas filhas casou-se com um diplomata americano que servia na Embaixada dos Estados Unidos, em La Paz. Agora, o meu genro foi transferido para a Nicarágua e  minha filha foi morar em Manágua. Minha esposa e eu gostaríamos de enviar uma carta para ela e ficaríamos muito felizes se pudessem ser os portadores – disse o general.

― Será um prazer para nós – respondeu o tenente.

Depois de cumpridas as formalidades junto às autoridades na capital boliviana, o engenheiro cuidou de atualizar o traçado da futura rodovia, incluindo as anotações feitas no último segmento argentino e o segmento referente ao trecho boliviano, percorrido entre Villazón e La Paz. Oliveira foi até a Embaixada do Brasil e o mecânico cuidou de abastecer os carros e encher os tambores que o São Paulo transportava. A gasolina havia sido fornecida pelas autoridades bolivianas.

Prosseguindo com a missão dentro do território boliviano, mais uma visão maravilhosa os aguardava no alto da cordilheira: o Lago de Titicaca, com sua grandeza e paisagem de intenso azul.

A vista que tiveram do grande lago foi a despedida da Bolívia, acontecida no dia 13 de outubro de 1929, depois de percorrerem 1035 quilômetros em estradas de construção antiga, que permaneciam bem conservadas, pela escassez das chuvas.

 


XIII

Peru - acidentes, milagres e sofrimento

 

 

            Desaguadero, na divisa da Bolívia com o Peru, foi o destino da Expedição. Chegaram no dia 13 de outubro de 1929, com a intenção de chegar a Lima definindo o traçado da Carretera, depois de percorrer as províncias de Cucuito, Canchias, San Ramón, Puno, Cuzco e Apurimac.

            A viagem pelo altiplano peruano, um imenso chapadão que os antigos incas e os atuais consideram como sagrado pela beleza da paisagem e pelos regatos de água pura e cristalina, além da fertilidade incomparável de suas terras, foi marcada por graves acidentes. No Peru, a expedição e os expedicionários sobreviveram, não pela sorte ou pela necessidade soberana do sucesso da missão que abraçavam, mas, com certeza, pela interferência divina.

            Um dia, ao descer uma quebrada, num lugarejo conhecido por Tablachaca, o São Paulo, que acompanhava o Brasil, despencou pelo abismo e na queda o mecânico baririense ficou gravemente ferido. O auto, ao cair num desfiladeiro de três mil metros de profundidade, enroscou numa árvore em forma de forquilha, ficando pendente no abismo, à mercê dos ventos que, canalizados que eram, sopravam fortemente.

            O mecânico, ferido gravemente pelas pancadas e solavancos causados pelas tantas vezes que o São Paulo rodou, rolou e cambaleou antes de encontrar uma árvore salvadora, plantada na encosta do precipício pelas mãos generosas do Criador, sentiu que ainda não havia chegado sua hora e vez. Com o corpo dolorido e ensangüentado, com muita dificuldade e dor, estendeu a mão direita para a buzina do veículo, com a intenção de anunciar aos companheiros e para o mundo que ainda  estava vivo.

            O biiip-biiip que saiu da buzina tocada pelo baririense ecoou entre as montanhas da cordilheira e fez estampar um sorriso indescritível nos rostos assustados do comandante e do engenheiro.

            ― Graças a Deus - disse Lopes da Cruz, olhando para o céu azul e limpo, que cobria os picos coloridos de branco, pela neve das alturas.

            ― Creio que Deus é mais um dos expedicionários que faz parte desta missão. Somos quatro e ele é o comandante – disse o tenente.

            Mário, com o corpo ferido e sangrando, permaneceu no interior do carro por algumas horas, tempo suficiente para que os companheiros procurassem pelos indígenas que habitavam os altos da cordilheira. Vieram em multidões, trazendo cordas que os próprios faziam com as fibras da totóra que crescia do fundo do Lago de Titicaca e eram utilizadas para pastorear suas lhamas, nas pastagens cultivadas nas bancadas que escavavam e construíam nas encostas terrosas das montanhas.

            Uma longa corda, obtida pela ligação amarrada entre outras menores, foi lançada no precipício e, enquanto muitos  a fixavam com uma volta e vários nós numa pedra da margem da trilha estreita e pedregosa, que um dia o antigo e poderoso império Inca construiu, um jovem indígena, forte e valente desceu até a árvore onde Mário Fava e o carro, ambos  sobreviventes da tragédia, se encontravam. O nativo colocou-se do lado de fora da janela do veículo e, auxiliado pelo mecânico, amarraram a corda com uma volta contornando o peito, sob os braços do corpo ferido. Serviço feito, o indígena colocou dois dedos da mão direita nos lábios e emitiu um assobio, imediatamente compreendido pelos seus, que permaneciam na trilha, lugar de onde o mecânico e o carro que conduzia despencaram.

            Aos poucos, a corda foi sendo puxada e o corpo ferido, com a ajuda do indígena valente, foi retirado da cabine do São Paulo para, pouco depois, indígena e homem branco, serem içados pela encosta nua e lisa, da profundeza que ligava as nuvens do céu ao fundo do mundo.

            Ajudados pelo tenente e pelo engenheiro, os nativos, com muito cuidado e carinho, recolheram o baririense e conduziram-no para a sombra de uma pedra, entre as tantas que havia na cordilheira e colocaram-no sobre um apanhado de folhas, que tomaram dos arbustos vizinhos.

            Enquanto os indígenas se preocupavam em salvar o carro, puxando-o para cima, valendo-se de duas ou três dezenas de cordas, um nativo de longa idade, pajé talvez, apalpou os braços, pernas e onde havia ossos para, com a sensibilidade das mãos experimentadas, localizar uma possível e até inevitável fratura. Verificou que, a menos dos hematomas e cortes, o corpo do jovem de vinte e dois anos, forte e sadio, daquele que, ao nascer, teve do pai a profecia de que seria um cidadão do mundo, estava perfeito. Nenhuma fratura, nada mais grave que os cortes, perda de sangue e a dor da carne espremida, batida e amassada pelas pancadas recebidas no girar e rodar do automóvel, precipício abaixo.

            Salvaram a vida do mecânico e o auto, mas todo o combustível, pneus, peças de reposição, as ferramentas doadas pelo prefeito Juquinha, alguma soma em dinheiro, máquina fotográfica, filmes, fotografias, toda roupa e pertences do baririense e a maior parte da documentação da viagem perderam-se na garganta profunda.

            ― Perdemos quase tudo, mas ainda temos a vida, a fé e a esperança. Não há lugar para o desespero e nem motivos para nos lastimar – disse o mecânico.  Temos que carregar em nossas almas apenas a certeza da vitória.

            O carro foi retirado da encosta e colocado na trilha para, dias depois, ser puxado pelos animais que foram oferecidos pelos nativos até a oficina de reparo de carroças e charretes, para que o mecânico, ainda ferido, cuidasse da sua recomposição.

            Os ferros retorcidos do São Paulo foram recuperados e o carro ficou em condição de seguir viagem.

Ainda consternados com as perdas em Tablachaca, os expedicionários tomaram o rumo de Lima para, oito dias mais tarde, sofrerem outro acidente. O cabo de aço que prendia o “Brasil”, numa das inúmeras operações que faziam para tornar possível a viagem num mundo sem estradas, arrebentou e o veículo desceu o precipício, no local conhecido por Quebrada Honda. O carro recebeu avarias consideráveis e demorou vários dias para sua recuperação. Mais uma vez, Mário Fava escapou milagrosamente da morte.

Passados os dias necessários à recuperação do Brasil, os expedicionários puseram os pés na trilha, deixando a região do Apurimac, a caminho da capital.

― Nossa passagem pela Cordilheira dos Andes, na região do Apurimac foi muito penosa. Abrimos o caminho à força de dinamites, pás e picaretas, além da improvisação de várias pontes. Os acidentes sofridos são uma mostra da ausência de qualquer tipo de estrutura viária – disse o Comandante Oliveira para Lopes da Cruz.

― Não podemos esquecer que, mais uma vez, a falta de combustível e lubrificantes obrigou-nos a empregar o querosene, a chicha e a gordura de porco na dosagem que o Mário inventou – completou Lopes da Cruz.

E assim, com grande esforço, chegaram à Andahuaillas, com os corpos frágeis e debilitados pela pouca alimentação, além do clima adverso e dos ferimentos causados pelos acidentes, formando um ambiente favorável às bactérias.

Acometidos de enterite crônica, recorreram ao atendimento médico do Dr. Queiroz Vega que, depois de submetê-los a uma longa dieta e medicamentos, conseguiu recuperá-los da temível enfermidade.

Apoiados pelo exército peruano e restabelecidos das enfermidades, continuaram a jornada programada, desafiando, mais uma vez, a Cordilheira dos Andes. Subiram a quase 5000 metros sobre o nível do mar, seguindo pelos cumes congelados e imprevisíveis – um deserto de gelo. Para percorrer 450 quilômetros em condições adversas, foram necessários quatro meses e meio.  Alimentavam-se com folhas de coca e milho torrado, fornecidos pelos índios Quéchuas da região de Páramo e Alalaya, que serviam de guia e os conduziam pela região intransponível.

Dormiam em cavernas e antes de fazê-lo retiravam a água e o combustível dos motores para que o congelamento não os destruísse. No no outro dia, utilizavam o fogo para descongelar o combustível e derreter a neve, para repor o que haviam retirado.

Alegraram-se e festejaram quando avistaram a cidade de Lima e, olhando a imensa cordilheira que ia ficando para trás, o Comandante gritou, jogando pelos ares o gorro indígena que protegia e aquecia sua cabeça:

― Mais uma vez, humilhamos a cordilheira.

Entraram triunfantes em Lima, onde foram recebidos pelo embaixador brasileiro, Vasco Leitão da Cunha.

― Sejam bem-vindos – disse o embaixador aos expedicionários, ao recebê-los na Embaixada que o Brasil mantinha em Lima.

 

Vasco Leitão da Cunha recebeu-os e deu a eles todo o apoio de que necessitavam.

O embaixador contou também sobre as últimas notícias que tinha do Brasil:

  ― A crise da bolsa de Nova York está castigando a nossa pátria e as coisas por lá não andam bem. A eleição, realizada no dia primeiro de março, durante o domingo de carnaval, deu vitória ao Dr. Júlio Prestes, ex-governador do Estado de São Paulo. Os partidários do Dr. Getúlio Vargas, ex-governador do Rio Grande do Sul, estão contestando o resultado, alegando que houve fraude. Há rumores de que a Aliança Liberal que apoiou o Dr. Getulio para presidente, e o Dr. João Pessoa, ex-governador da Paraíba, para vice, reivindica a anulação da eleição.  

 Depois de contar e comentar as notícias que vinham do Brasil, o embaixador e seus assessores agendaram alguns encontros com as mais importantes autoridades peruanas, entre elas, o prefeito de Lima, Sr. Albizuri e o Presidente da República, o Sr. Augusto B. Leguía y Salcedo.

 Na recepção realizada pelo prefeito, Mário Fava apresentou-se com a roupa que lhe restou dos acidentes de Tablachaca e Quebrada Honda, porém, na visita ao Presidente da República, o baririense vestiu-se com a roupa que ganhou do embaixador, cujo corpo e altura eram muito semelhantes.

Depois da recepção festiva que tiveram na capital peruana, os expedicionários tomaram o rumo norte, com a intenção de chegar ao Equador, cuja fronteira com o Peru foi cruzada no dia 7 de agosto de 1930.

― Enfrentamos acidentes, enfermidades de todo tipo e muitas dificuldades durante os dez meses que permanecemos no território peruano – disse Lopes da Cruz.

― Apesar das dificuldades, aqui estamos, com a graça de Deus. Vencemos uma etapa muito difícil. Percorremos e exploramos 3446 quilômetros. Passamos por 1716 quilômetros de estradas construídas e 450 de caminhos sofríveis. Os 1280 restantes construímos com nossos braços, dinamites e com a ajuda dos nativos – concluiu o Comandante. 


XIV

Equador – paralelo zero

           

 

Contados vinte e oito meses da partida, os valentes expedicionários encontravam-se na iminência de saltarem o paralelo zero, passando para a outra metade do planeta, onde haveriam de prosseguir com os estudos realizados no lado Sul.

            Saíram do Rio de Janeiro no memorável e longínquo 16 de abril de 1928 e passados tantos dias, em 7 de agosto de 1930, deixaram La Tina, no lado peruano e chegaram em Macara, o primeiro povoado do lado equatoriano, localizado na região inter-andina, ao longo do trajeto de quem vai de Lima para Quito.

            Haviam cumprido os seus propósitos na metade sul do planeta e agora, com o mesmo entusiasmo que os norteara desde o primeiro dia, seguiram registrando e demarcando o eixo da rodovia na metade norte.

            De Macara rumaram para Loja, a cidade natal de Isidro Ayora, homem forte que governava o país, onde foram recebidos como verdadeiros cruzados do pan-americanismo.

            Oliveira e Lopes da Cruz traçavam sobre a topografia do continente o pré-projeto da maravilhosa rodovia do futuro, enquanto o mecânico cuidava dos carros.

            ―Esses carros me surpreenderam. Fizeram milagres e resistiram porque são valentes – pensava o mecânico, ao relembrar as dificuldades superadas durante os vinte e oito meses de sofrimento – são carros que não se acovardam e não desistem diante dos problemas – parecem ter sentimentos, como os humanos, e é por isso que eu os trato com muito carinho. Converso com eles porque, depois de tantas aventuras, sinto que fazem parte do meu próprio corpo, do meu próprio sangue.

            Mário procurou lembrar as tantas vezes que teve que recompor ou substituir as rodas que eram danificadas quando da passagem sobre as pedras e buracos ao longo do trajeto. Lembrou-se, também, dos pneus que foram preenchidos com terra e capim para que pudessem ser aproveitados até chegar ao lugarejo mais próximo, uma vez que o estoque que levavam consigo não havia sido suficiente para tamanha agressão.

            ― Os caminhos não são generosos, mas nada detém o homem que deseja e quer – pensava o mecânico

            Quando ainda em Loja, foram convidados para serem membros honorários no “Congreso de Vialidad del Equador”, organizado pelo Capellan Benjamin Rafael Ayora, irmão do Presidente da República e homem de grande influência no país.

            Percebendo que o religioso era um homem muito bem informado, o tenente, curioso e preocupado com o que estava acontecendo no Brasil, depois das informações que recebera de Vasco Leitão da Cunha, perguntou ao Capelão:

            ― O amigo tem alguma notícia sobre o que está acontecendo no Brasil?

            ― A última notícia que tenho é que no dia 26 de julho o Dr. João Pessoa, candidato a vice-presidente ao lado de Getúlio Vargas, foi assassinado e ao que tudo indica, é pouco provável que o fato provoque coisas mais sérias, como uma indesejável revolução. Há rumores de que querem depor o presidente Washington Luís Pereira de Souza.

            Oliveira lamentou os fatos e, depois de transmitir as notícias aos companheiros, procurou participar do Congresso Viário, transformando-se na grande atração do encontro.

            O sucesso da participação dos brasileiros da expedição repercutiu em todo país, aumentando ainda mais as honrarias e a gratidão que as populações das cidades visitadas, a partir de então, passaram a manifestar e oferecer.

            ― A nossa participação no congresso foi gratificante e a repercussão aumentará a nossa credibilidade – disse Oliveira para Lopes da Cruz.

            ― Com exceção da Argentina e apesar das dificuldades que tivemos que enfrentar, não podemos reclamar de nada, mesmo porque a receptividade das autoridades e dos povos por onde passamos compensou por tudo e o saldo é mais que positivo – respondeu o engenheiro.

            Felizes com o sucesso alcançado em Loja e com as manifestações de carinho e apoio que recebiam no Equador, seguiam realizando o sonho que os impulsionava até que, no anoitecer do dia 19 de outubro de 1930, quando atravessavam a província de Azuay, uma nuvem escura formou-se sobre as montanhas, anunciando a chegada de uma terrível tempestade que, ao chegar, fez o solo arrepiar e na superfície íngreme do lugar conhecido como Baixada do Cumbé o Brasil deixou de obedecer aos comandos de Mário Fava, que o dirigia, e obedecendo apenas ao que lhe impunha a natureza, precipitou-se encosta abaixo, rodou mais de cem metros, parando emborcado, com o baririense abaixo de suas ferragens totalmente retorcidas.

― Mais uma vez, a Divina Providência salvou a minha vida – disse Mário Fava, ao ser retirado pelos companheiros em meio à incrível tempestade.

            O mecânico, assim como nas vezes anterior, escapou com vida, mas Tudor, o cachorro mascote que acompanhava os expedicionários não teve a mesma sorte.

― Parece incrível nossa pouca sorte com mascotes. Este é o décimo que perdemos, desde o Rio de Janeiro - disse o Comandante, ao ver que mais um cachorro havia morrido.

O Equador vivia, com muito entusiasmo, a ampliação de sua malha viária e por todos os cantos a populações comemoravam a passagem dos expedicionários. Havia um clima favorável para as idéias dos brasileiros, a ponto de os homens e camaradas do exército equatoriano permanecerem aguardando pela definição do traçado que estava sendo realizado, para dar início aos serviços de implantação do trecho que lhes cabia.

            De Azuay partiram cruzando Chimborazo e Leon. Por todos os cantos os equatorianos os saudavam e colaboravam com a empreitada que seguia triunfante, até chegarem a Quito, onde foram ovacionados pela população e homenageados pelas autoridades governamentais, através do Ministro das Relações Exteriores do Equador, Sr. Atílio Balilari e do Presidente da República, Dr. Isidro Ayora, além do Embaixador Brasileiro, Dr. Ruy Pinheiro Guimarães.

            Por ordem do Presidente da República e do Ministro da Guerra, alojaram-se no quartel do “Regimiento de Artilleria Bolívar”, onde se recuperaram da exaustiva caminhada, preparando-se para os novos desafios que haveriam de enfrentar, desta vez acompanhados por um novo cão, o Pritz, que acabavam de adotar para mascote, substituindo Tudor, que havia sucumbido em 19 de outubro.

            ― Esse é o nosso décimo primeiro mascote – comentou o engenheiro.

No trajeto percorrido em terras equatorianas, através da grande cordilheira, admiraram uma série de vulcões em atividade e na oportunidade visitaram, para ver de perto, o estado incandescente das lavas que eram derramadas pelos vulcões Sangay e o Cotopaxi, além do Pichinca, cuja cratera é a mais profunda do mundo, com 870 metros. Viram também e ficaram impressionados com a imponência e  rara beleza do Pico Nevado Chimborazo que, com seus 6300 metros de altitude, deixou uma bela imagem gravada na mente de cada um.

― Quando, em minha vida, poderia imaginar que um dia os meus olhos poderiam apreciar tamanha beleza? Às vezes sinto que o Criador até exagera com tanta generosidade – disse Mário, lembrando-se das palavras que ouvira, quando acompanhava a mãe nas cerimônias religiosas, nos tempos de menino, em Bariri.

 

Os seis meses passados no Equador foram marcados pela solidariedade do povo e das autoridades, que muito contribuíram para a realização dos estudos e demarcação do trajeto para a futura via.

― Sempre seremos gratos à hospitalidade do povo equatoriano. Jamais poderemos nos esquecer da acolhida e do apoio que recebemos – disse o Comandante Oliveira, ao deixar o território equatoriano, em 16 de fevereiro de 1931, depois de estudarem, demarcarem e abrirem 517 quilômetros de estradas que, somados aos 642 já existentes, concluíram o segmento de 1159, que a fantástica rodovia da verdadeira integração de todos os povos da América haveria de medir no país.

Além do sucesso diante das autoridades locais e da população, o Equador ficou marcado na memória dos expedicionários, porque foi de lá que acompanharam os acontecimentos que haveriam de ser registrados na história dos brasileiros, quando da revolução que depôs o Presidente Washington Luís, colocando em seu lugar o Dr. Getúlio Vargas como chefe do governo provisório, apesar de o mesmo ter sido o candidato derrotado, no dia primeiro de maio, pelo Dr. Júlio Prestes, ex-governador dos paulistas.   


XV

Colômbia – zancudos, jejéns e arenillas

 

 

A América do Sul, que fez registrar na memória e na alma dos expedicionários todo tipo de sofrimento, estava ficando para trás.

― Este é o último país sul-americano a ser estudado – disse Lopes da Cruz para o Comandante Oliveira, quando cruzaram a fronteira do Equador para entrar na Colômbia, no dia 16 de fevereiro de 1931, levados pelo veículo que, desde a partida, convencionou-se chamá-lo Brasil, porque a ele coube a missão de conduzir os expedicionários com a mensagem e o abraço fraterno dos brasileiros para os irmãos de todos os países da América.

Apesar do entusiasmo, entraram pelo extremo sul colombiano, feridos, cansados e doentes. Tentavam esquecer os sofrimentos, a fome e os riscos que tiveram que enfrentar, os quais foram superados pela bravura e pela força incontida que só os idealistas carregam em suas almas. 

― Não nasci para me acovardar diante das adversidades – dizia e repetia sempre o baririense. Procuro encará-las de frente para vencê-las e humilhá-las.

As manifestações delirantes e o carinho com que eram recebidos alimentavam suas almas até não mais haver, nas adversidades, forças capazes de detê-los no cumprimento da missão que traziam dentro de si e que os obrigava a seguir com a obra da rodovia da união e fraternidade dos povos do Novo Mundo.

― Esse povo, principalmente os que fizeram e fazem parte das civilizações indígenas, já sofreu demais nas mãos dos conquistadores europeus, comandados por Pizzarro e Cortez e agora terão o sagrado direito de sonhar – afirmou o engenheiro, apaixonado que era pela história dos homens que outrora habitavam as Américas e cujos descendentes eram encontrados a todo momento.

Com os trabalhos avançando e impulsionados pela força do ideal sagrado, seguiam por Ipiáles, Nariño, Cauca, Valle Caldas, Tolima, Cudinamarca, Antioquia e Choco. Eram recebidos com carinho e admiração, em cada povoado e em cada cidade, pelas autoridades civis e militares e pelas populações que os aplaudiam e os reconheciam pelo heroísmo, valentia e dedicação com que encaravam a missão de projetar e abrir passagem para a implantação da rodovia, que só em sonho, ou nem dessa maneira, havia passado pela mente das autoridades e dos governantes mais arrojados.

Aos poucos, os expedicionários, definindo e traçando o eixo da via, iam deixando os pontos mais altos, rumando na direção de uma imensa floresta que, vindo de onde a vista não alcança, chegava e contornava os pés da cordilheira.

― Essa é a nossa Amazônia. A exuberante floresta que salta nossas fronteiras para abraçar e servir outros povos, assim como a nossa rodovia fará com todos os países americanos – disse o comandante, enquanto, do alto da cordilheira, observava a imensidão verde que desaparecia no horizonte, onde os céus pareciam descer ao chão.

A espessa nuvem de mistérios que cobria o desconhecido da cordilheira estava retirada. Os expedicionários venceram o desafio das alturas para embrenhar, desta vez, na selva impenetrável, constituindo um novo desafio que, pela experiência adquirida nas matas mato-grossenses e paraguaias, julgavam menos sofrível.

― Humilhamos a cordilheira e agora haveremos de fazer o mesmo com a hiléia amazônica, com seus animais ferozes, répteis peçonhentos e insetos venenosos. Triunfaremos, mais uma vez, e deixaremos a América do Sul, depois de superarmos todas as adversidades – disse o comandante para o mecânico.

― Não existe adversidade para o homem que deseja e quer. A história da nossa luta haverá de ser uma lição para que os jovens não se acovardem diante das dificuldades que acontecem ao longo de suas vidas – respondeu o mecânico.

As rodas do Brasil e do São Paulo, aos poucos, iam deixando as alturas frias e rarefeitas e os viajantes começavam a sentir o conforto que o oxigênio puro e abundante que brotava da imensidão verde proporcionava, através do milagre da fotossíntese, quando o sol e a clorofila se tornam parceiras para purificar o ar que respiramos e aprisionar o carbono nas fibras da madeira da exuberante floresta. As florestas são o milagre da vida.

As trilhas que desciam das alturas viam que, pouco a pouco, os blocos de pedra eram substituídos por arbustos que, com o caminhar, transformavam-se lentamente em matas cada vez mais densas. A expedição estava entrando na floresta.

A imensidão verde esconde seus mistérios e, fazendo uso da força que a natureza lhe confere, apronta das suas para expulsar todo e qualquer corpo estranho que nela penetra. A floresta não entende e não se dá bem com os homens, porque a linguagem das queimadas e dos machados não lhe agrada. A natureza se defende e o estranho se torna frágil diante de sua imensidão.

Mal adentraram em suas entranhas, abrindo picadas com o golpe de suas foices, facões e machados, perderam-se na malha formada pelas árvores e cipós que resistiam à penetração rejeitada pela natureza.

As dificuldades armadas pela flora intensa e os perigos oferecidos pela fauna tornaram-se pequenos, se comparados aos minúsculos e quase invisíveis habitantes da mata. Milhões de zancudos, jejéns e arenillas, que os agrediam a cada momento, eram os inimigos maiores.

― Uma coisa é vê-los e outra é experimentá-los, desde as cinco horas da manhã, quando os jejéns, em nuvens compactas, nos assediam – disse o Comandante Oliveira, com as tantas marcas e ferimentos que cabiam no rosto e por toda a pele não coberta e protegida pela roupa.

Depois de alguns minutos sem nada dizer, o Comandante continuou:

― São mosquitos imperceptíveis que esquentam nosso sangue e nos colocam em tremendo mau humor e a única saída que nos resta é meter-nos nos rios para que a água fria reduza nossas dores. A irmã menor dos jejéns, as arenillas, não dão trégua em nenhum momento. Penetram em nossas narinas e deixam marcas negras em nossas peles.

― A menos das áreas protegidas pelo tecido mais grosso de nossas vestes, que não ousamos trocar para não perdermos a proteção durante os poucos minutos da substituição, não temos mais lugar em nossos corpos para a pele que nos reveste. Parecemos monstros que causam medo e nojo àqueles que tiverem a infelicidade de nos ver assim, dessa maneira e nesse estado – disse o mecânico.

― A febre insuportável e a diarréia que nos fazem fracos diante do machado que temos que operar não nos permitem avançar mais do que alguns poucos metros por dia – disse Lopes da Cruz, mostrando o desânimo que tomava conta de si, enquanto o Comandante continuava dizendo dos insetos que os expedicionários tinham que enfrentar:

― Os zancudos são tantos, que seu ruído parece uma orquestra de mil violinos desafinados, com seus picos pontiagudos parecendo agulhas hipodérmicas. Cobrem-nos, não só chupando velozmente o nosso sangue, mas produzindo coceiras que viram feridas e hematomas, provocando febres e transtornos mais sérios, principalmente se não se tem o cuidado de tornar quinino.

Quatro meses mais tarde, depois de estarem seguros de que a expedição havia fracassado e de que a morte seria a última grande aventura que haveriam de experimentar, o mecânico, quase delirando pela febre e tremor causado pela malária adquirida, lembrava-se dos dias felizes da infância e mocidade vividos em Bariri. Recordava-se dos meninos e dos homens mais conhecidos de sua infância: o João Cava, Cesar de Alice, Eugênio Basso, Juca Masson, João de Melo, Benedito Aguiar, Alécio Ricoboni, Aurélio Brocco, Batista Gatto, Luís Ferrari e todos aqueles que participavam das brincadeiras e dos folguedos de menino. Lembrou-se também da figura de José Teixeira, um homem simples, de alma pura, que em 1919, quando a gripe espanhola chegou à cidade, dizimando parte da população, enfrentou a peste maldita de peito aberto, sem temê-la, alimentando e cuidando dos doentes e dos mortos, que eram abandonados pelas famílias e pela cidade, tal era o medo da contaminação. Também lhe passou pela mente que o homem simples que cuidou da saúde da cidade, começava a ser esquecido pelas autoridades mal agradecidas.

― A morte é certa e inevitável. Sinto-a como um gesto do Criador para poupar o sofrimento e a dor que estamos suportando aqui, longe de tudo e de todos. Se acontecer mesmo, sei que minha família jamais ficará sabendo e que meu corpo jamais será encontrado. Será alimento para as formigas famintas que nos atacam a todo momento e para os insetos e feras da floresta que nos assediam. Sei também que ninguém será enterrado porque estamos esgotados e nenhum de nós terá força suficiente para abrir a cova para o outro. Não é assim que eu esperava o meu fim – pensava o mecânico.

A noite chegou com muita chuva e vento, trazendo para os brasileiros a certeza de que não amanheceriam. A debilidade de seus corpos, esgotados pela malária e enterite crônica, não permitia que resistissem por muito tempo e a morte era evidente – não pensavam em suicídio. 

Foi com muito sacrifício que os três viajantes se acomodaram no interior do automóvel para mais uma noite. Resolveram passar os últimos momentos juntos.

Molhado pela água da chuva que aliviou um pouco o delírio que anunciava a morte, o mecânico, cansado da dor, conseguiu dormir ou desmaiar.

Ao amanhecer, Mário acordou e, surpreso por sentir-se vivo, fez uma chamada para verificar se os companheiros ainda viviam.

― Oliveira, Cruz, vocês estão vivos?

Ninguém respondeu ou se mexeu. Os corpos imobilizados pela debilidade em que se encontravam, pareciam indicar que o mecânico estava só e que o momento dos dois companheiros havia chegado.

― O Criador continua exagerando comigo – pensou o baririense. Estou vivo, mas não quero ficar só.

Mário, que se encontrava no banco traseiro do Brasil, conseguiu sentar-se com muito sacrifício e, não querendo acreditar que os amigos estavam mortos, estendeu o braço direito até o ombro do engenheiro e, ao sacudi-lo percebeu-o vivo. Alegrou-se e fez o mesmo com o comandante que, ao ser tocado, acordou e disse:

― Amigo, apraz-me sentir que ainda não chegou o nosso dia – disse o comandante, que ainda trazia na alma a esperança de que um milagre haveria de acontecer e a missão triunfaria, apesar da situação em que se encontravam.

Mesmo com o Comandante não admitindo a derrota, o mecânico e o engenheiro pensavam em desistir, caso saíssem da mata.

― Sofrer dessa maneira não faz parte dos meus propósitos – disse Lopes da Cruz para o Comandante Oliveira, depois de revelar ao tenente o desejo de abandonar a missão.

― Quando se abraça uma missão como essa, ou se triunfa ou se morre – respondeu Oliveira, que acreditava no milagre.

            E o milagre aconteceu porque, mal os raios da luz do Sol começaram a  penetrar entre as folhas das árvores anunciando um novo dia, Mário, ao remover a água condensada nos vidros do carro, percebeu que estavam sendo observados por alguns nativos que, curiosos e em silêncio, tentavam entender o que aqueles veículos e aqueles moribundos  faziam naquele lugar e como ali haviam chegado.

Mário chamou a atenção dos companheiros, avisando-os da presença dos índios, que os observavam à meia distância do carro onde os brasileiros passaram a noite. Imediatamente, Oliveira levou a mão até o vidro do Brasil, removendo a água que os impedia de ver o que acontecia no lado de fora.

― Pode ser o nosso fim ou o milagre que você está aguardando – disse o engenheiro para o tenente, não sabendo das intenções dos nativos que os observavam.

Era o milagre...

 

Levados pelos nativos, os brasileiros e os dois carros lograram sair da mata, chegando a Popayán com os corpos debilitados, esgotados e doentes. Foram medicados e submetidos a uma alimentação farta que resultou numa recuperação rápida, mesmo porque Guilhermo Valência, célebre poeta colombiano, de admirável capacidade literária, levou-os para a famosa Fazenda Bellalcázar, de sua propriedade, onde repousaram, descansaram e foram medicados por alguns dias.

Recuperados das doenças e do sofrimento a que foram submetidos no interior da floresta, seguiram para o Norte, alcançando Bogotá, onde foram recebidos pelo embaixador do Brasil, Manuel Coelho Rodriguez. De Bogotá, rumaram para Medellin, cuja população e autoridades tributaram aos expedicionários uma recepção, como ninguém antes havia recebido. Autoridades, oficiais do exército, diplomatas e jornalistas se destacavam entre milhares de pessoas que seguiram o cortejo formado com todos os automóveis da cidade que, ao som de buzinas, homenageavam os expedicionários.

 

Depois das honrarias recebidas da população, seguiram viagem, amparados pelas palavras de agradecimento pronunciadas pelo engenheiro Uribe Enrique Ramirez, Director General de Carreteras da Colômbia e as de reconhecimento e apoio proferidas pelo Presidente da República, Enrique Holaya Herrera.

 

De Medellín, seguiram em direção ao mar, pela selva de Urubá. Foram três meses de viagem, debaixo de sofrimento incrível, saciando a sede com água de bejuco, porque as nascentes e os rios estavam contaminados.

 

 

Para a abertura dos caminhos pela mata cerrada, foram ajudados pelos negros que habitavam a região e, por um verdadeiro milagre, chegaram a Necocli, último ponto de Urubá, de onde cruzaram as 18  milhas que separam um lado do outro do golfo.

 

Depois de vencerem a Selva de Urubá e o golfo, continuaram a viagem pela Selva de Choco, onde julgaram que a construção da Carretera era impossível.

 

 

Para lograr chegar à fronteira com o Panamá, desde Timutate, via Acandi e Sapsurú, último ponto da Colômbia, e chegar a Puerto Obaldia, no lado do Panamá, foi necessário cruzar os rios, puxados por bois e pequenos batalhões de homens. Na região Del Atrato, o terreno é tão pantanoso que, no seio da selva milenar, o chão pode tragar um automóvel inteiro.

― Mesmo com os avanços que a engenharia haverá de experimentar no futuro, será quase impossível construir pontes, pois se não bastasse o rio ser caudaloso, suas margens têm mais de duas léguas de pântanos profundos – disse o engenheiro para o tenente.

― A única maneira para atravessar tamanha escabrosidade será desmontar os dois automóveis e transportá-los nos lombos dos animais e dos carregadores que estão nos auxiliando nessa jornada – disse o mecânico, ao verificar as dificuldades que haveriam de superar para entrar no Panamá.

― Apesar de todas as dificuldades, é por milagre que, depois de quatro anos de viagem e dezesseis mil quilômetros rodados, ainda temos esperança, vida e coração – lembrou o comandante, no dia 12 de maio de 1932, depois de percorrer 1669 quilômetros de estradas que interligam as principais cidades colombianas, 122 quilômetros de trilhas e caminhos e os 679 quilômetros que abriram1 e que somados resultam nos 2.469 quilômetros em território colombiano.        

    


XVI

Panamá – canal e esportistas brasileiros

 

 

            Felizes por deixarem a América do Sul, onde a dor e o sofrimento superaram o limite de suas forças, os expedicionários pisaram o solo da América Central, ingressando no Panamá através de Puerto Obaldia, no dia 12 de maio de 1932.

            Os dois carros chegaram desmontados, transportados por carregadores e animais. Mário trabalhou durante alguns dias e noites para recompor os valentes automóveis e a expedição reiniciou sua caminhada no final do mês de maio, contornando a Cordilheira del Darién, através das margens do Caribe, passando por San Blás, até Alajuela e por Caledônia, Navajandi, Playion, Puerto Bello, Colón, La Soledad e Las Campanas.

 

Ao passarem por Colón, cidade mais importante do caminho, aproveitaram a oportunidade para visitar o Canal do Panamá.

― Poucos são os que têm a sorte de visitar, como nós, uma das mais belas obras da engenharia. Não podemos negar o trabalho e inteligência dos norte-americanos – disse o Comandante Oliveira, ao ver o canal.

Além de presenciarem os navios cruzando o canal, uma outra emoção os tocou profundamente: o navio Itaquecê que,além das 55000 sacas de café brasileiro que transportava, levava também os 84 atletas da Seleção Brasileira de Esportes, que seguiam para as competições mundiais de 1932 em Los Angeles, aguardava a sua vez para a travessia. O encontro com os atletas que desembarcaram emocionou os três saudosos brasileiros.

― A minha emoção pela deslumbrante vista do canal, com os navios ligando um oceano ao outro, é superada pelo nosso encontro com a seleção dos atletas que defenderão as nossas cores na competição de Los Angeles. O nosso compatriota, que leva o meu nome, Leônidas da Silva, figura entre os representantes da nossa Pátria – disse o tenente.

O Comandante procurou o seu homônimo, com a intenção de cumprimentá-lo.

― Leônidas, é com muita alegria que o saúdo e aproveito para lhe desejar sucesso nas competições de que irá participar. Eu também me chamo Leônidas – disse o Comandante, ao apertar a mão do talentoso craque, que desde o início da carreira encantava os amantes do futebol.

― Leônidas? Nós, que assim nos chamamos, temos a responsabilidade de honrar o nome que nos identifica, assim como fez o rei e general de Esparta, que enfrentou os persas em condições numéricas muito desfavoráveis – disse o atleta.

Enquanto o Comandante conversava com o jogador, o mecânico viu e encantou-se com a beleza da única mulher da delegação, que haveria de defender o Brasil como nadadora. Tratava-se de uma jovem com traços germânicos e apenas 17 anos.

― Qual é o seu nome? Estarei torcendo pelo seu sucesso – disse o mecânico para a bela atleta.

― O meu nome é Maria, Maria Lenk. Vou competir como nadadora.

Em Colón, assim como faziam pelos lugares por onde passavam, os expedicionários procuraram as autoridades locais para solicitar apoio financeiro, combustível, pneus e peças de reposição para os carros, além de acomodação para se alojarem durante os dias que permaneceriam na cidade.

Depois da conclusão dos trabalhos e superadas as emoções provocadas pelo encontro com os atletas brasileiros, rumaram para a capital panamenha.

Ao chegarem à Ciudad del Panamá, em primeiro de junho de 1932, foram recebidos pelo cônsul do Brasil, Dr. Jorge Domingo Arias Ferroud, que agendou e os acompanhou no encontro com as autoridades governamentais.

O Presidente da República, Dr. Ricardo J. Alfaro, surpreso com a incrível façanha de serem os primeiros homens a cruzar, por terra e em automóveis, o pântano intransponível da fronteira com a Colômbia, autorizou um atendimento de honra aos expedicionários.

― Nunca imaginei que alguém fosse capaz de passar, de carro, pela região do Rio Atrato e dos pântanos da nossa fronteira com a Colômbia – disse o presidente, admirado com o feito.

 

 

 

 

O comandante e o engenheiro mostraram o traçado da Carretera ao presidente, que o analisou atentamente. Oliveira falou sobre os planos e a viabilidade do projeto, idealizado para unir todos os povos da América:

 

 

― Não haverá custos para o Panamá, apenas benefício, mesmo porque os recursos necessários para a implantação sairão da venda de um milhão de bônus, que darão direito, para cada unidade, a um lote de terra resultante do fracionamento de uma extensa área ao longo da rodovia, que será desapropriada – disse o comandante, enquanto o presidente apreciava o traçado da via que haveria de cortar o Panamá, de Leste a Oeste.

Aproveitando o apoio oferecido pelo presidente, o engenheiro orientou os desenhistas, que lançaram em planta todas as anotações e levantamentos realizados em território panamenho, desde a fronteira com a Colômbia até a capital.

Um dia, no início da segunda quinzena de julho, o embaixador do Brasil mandou um mensageiro até o hotel onde os brasileiros se encontravam, pedindo para que comparecessem à embaixada.

― Meus caros compatriotas, lamento informar que as coisas não andam bem lá pelos lados do nosso Brasil. Uma revolução iniciada na semana passada está provocando derramamento de sangue entre os brasileiros. No dia 23 de maio, a milícia federal disparou contra um grupo de jovens que realizavam uma manifestação na Praça da República, em São Paulo, exigindo o retorno da autonomia estadual. Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, jovens estudantes, morreram vitimas do incidente. Agora, no dia 9 de julho, explodiu a insurreição constitucionalista. São Paulo está lutando contra o Governo Federal e não sabemos qual será a conseqüência desse confronto – disse o embaixador.

  ― Realmente, é lamentável. Nós estamos dedicando os melhores anos de nossas vidas para realizar o sonho de unir a América numa única nação e num único povo e é triste saber que os brasileiros estão se dividindo, numa luta que só gerará ódio e dor – disse o comandante.

― Não saber o que está acontecendo com meus irmãos, os nossos pais e amigos, em Bariri, é muito triste. A minha esperança é que a luta termine o mais rápido possível e que as vidas inocentes sejam poupadas – disse o mecânico.

O engenheiro também lastimou e nada disse.

Preocupados com a triste notícia que acabavam de receber, os viajantes procuraram concluir os serviços de escritório que realizavam na capital para, na manhã seguinte, retomarem a viagem. Passaram por La Chopera, Capira, Bejuco, Chame, San Carlo, Antón, Penonomé, Nata, Água Dulce, Santiago e Soná, todas ligadas por ótimas rodovias.

 

Por todos os lugares por onde passavam, eram homenageados. Em Chiriqui, palavra que na linguagem indígena quer dizer “Vale da Lua”, foram recebidos pelas autoridades e pela famosa escritora chiricana, Gilda Maria Araúz y Cora.

 

A escritora, acostumada a viver as fantasias e emoções que mentalizava e registrava nas suas obras literárias, encantou-se com a façanha dos brasileiros e apaixonou-se pelo mecânico, jovem, alto e belo. Mário vivia o esplendor de seus 25 anos.

― Quando regressarás? É a pergunta que fica em meus lábios.

            Essa foi a frase que a notável escritora registrou no verso da fotografia, que ofereceu como recordação do breve e enlouquecido amor vivido com o baririense.

Depois de tanto tempo percorrendo e registrando as rodovias panamenhas e com o pensamento e as preocupações voltados para a terra amada, onde uma luta entre irmãos acontecia, Mario preocupava-se muito com a tragédia que a guerra fratricida poderia estar causando à sua gente.

― O que pode estar acontecendo com os meus? – era o pensamento que não saía da mente do mecânico. 

Mário não sabia que, entre os seus, o sangue do menino Claudionor Barbieri, filho do Seu Carlos e da Dona Honorina, foi derramado de suas veias e misturou-se com o chão barrento e frio do fundo de uma trincheira úmida e triste, na cidade de Silveiras, próximo à divisa do Estado de São Paulo com o Rio de Janeiro. A guerra fratricida levou à morte o menino Claudionor, que contribuiu com sua vida para uma causa nobre.

Mário, além do Claudionor, também não sabia que outros meninos de sua infância, o Ruy Fagundes de Almeida, Paulo Silveira Gonzaga, Luiz Balbino de Queiroz, Ademar França Martins, Ulisses Santos Fernandes, José Rafael de Almeida Prado, Antonio Leite de Oliveira Barros, Antonio Soares, Afonso Galhardo, Benedito de Almeida Prado Júnior, Arnaldo Bonatelli, João Antonio Oréfice, Luiz Rosanova, Domingos Galízia Regina, Luiz Piragine, Eduardo Romero Filho, Jamil Sabag, Virgilio dos Santos Fernandes, João Lourenço Pires de Campos, Orosimbo Carvalho, Euclides de Carvalho Silva e Manoel Pereira também foram para as frentes de batalha, expondo suas vidas em defesa do respeito e da ordem que haveria de estar registrada numa constituição, destinada a estabelecer regras iguais para todos, além dos mesmos direitos e obrigações.

Em meados de outubro, ainda pisando o chão panamenho, ficaram sabendo que a revolução brasileira havia acabado no primeiro dia do mês e, felizes com a boa nova, seguiram registrando os 970 quilômetros de estradas do país que haveriam de fazer parte da rodovia, um imenso cordão sem ponta, pelo chão desenrolado, com o destino e a missão de unir as três Américas e sua gente numa única nação, num único povo e num único sentimento.

― Com a notícia de que a paz voltou a reinar no Brasil, sinto-me com o mesmo entusiasmo do dia 16 de abril de 1928, quando partimos do Rio de Janeiro, dando o primeiro passo para esta nossa missão – disse o comandante.

E foi com a força e o entusiasmo recuperados que os três brasileiros prosseguiram, definindo o traçado da rodovia em terras panamenhas, até o dia em que cruzaram a fronteira com a Costa Rica, em 2 de janeiro de 1933.


XVII

Costa Rica – trilha do Frei Antonio

 

No dia 02 de janeiro de 1933, a expedição dos brasileiros ingressou na Costa Rica, através da sua divisa, por água, deixando o Panamá e cruzando o “Fallo White” e o Fallo Loubet”.

A intensidade da floresta costarriquenha, localizada logo após a fronteira, fê-los lembrar o sofrimento vivido, quando cruzaram parte do território colombiano através do interior inóspito da floresta amazônica.  A triste lembrança fez com que optassem pela via Copal, até o Alto Las Cruces, onde existia um único e solitário posto policial. Do Alto Lãs Cruces seguiram em direção de La Union, Plantanillo, Sabanilla, Vueltas, Clavera y Paso Real, até chegarem ao Rio Diques ou Terraba.

Durante a viagem, seguiram pela trilha aberta em 1700 pelo missionário Frei Antonio Mergil, avançando para o cume da pequena cordilheira, entre os rios Brús e Limón, região totalmente desabitada, de matas intocáveis e beleza ímpar.

― É difícil descrever a encantadora paisagem da floresta ao sul da Costa Rica, disse  Oliveira, observando os regatos de águas cristalinas correndo entre as atrevidas e brincalhonas ondas dos rios Terraba e Limón, perfumadas pelo aroma embriagador das cem mil qualidades de flores silvestres ali existentes.

― Mais uma vez, o Criador exagera conosco, dando-nos a força que carregamos em nossas almas, o esplendor da natureza com o perfume indescritível das flores e o canto magnífico dos pássaros que nos encantam e nos dão vida. O que mais poderemos pedir dessa bondade infinita? – completou o engenheiro.

― É uma floresta paradisíaca, amada pelas brisas que, com doces murmúrios a acariciam e  beijam, vestindo-a igual a uma rainha soberana com esplêndida roupagem, tecida pelas campinas exuberantes, na variedade de clima, rios, flora e tudo o mais com que o céu quis presentear a Terra. Na verdade, parece o compêndio das maravilhas assombrosas da criação, colocadas abaixo de um céu de puríssimo azul, tomado por Deus do manto de sua mãe – exaltou o comandante, num momento de inspiração e paz, provocado pelo que os seus olhos podiam ver naquele momento.

Encantado com as espécies de aves e animais que complementavam a exuberante natureza que se descortinava diante de seus olhos, o comandante levou sua mente para uma viagem de sonhos e continuou a descrever:

― Entre a densa vegetação, as espécies animais, muitas delas ainda não catalogadas, milhares de aves de cantos doces e de preciosa plumagem mesclam-se com multidões de macacos de várias formas e cores, feras carnívoras e a exuberante onça negra, que com seus estridentes rugidos imprimem beleza, majestade e terror.

Apreciando as belezas naturais da Costa Rica, um país com notável diversidade dos reinos animal e vegetal, os expedicionários encantaram-se, também, com a boa qualidade do clima e  do solo, assim como com suas riquezas naturais.

Para alcançar Buenos Ayres, um vilarejo de cabanas, atravessaram por duas vezes o Rio Diquís, com aproximadamente 150 metros de largura, buscando a melhor topografia para a futura rodovia. No ponto denominado Las Vueltas, despediram-se da parte montanhosa e seguiram rumo a Terraba, onde receberam dos índios da tribo, também chamada Terraba, um importante apoio que facilitou muito o trabalho que os brasileiros desenvolviam.

A planície e os pequenos rios ao longo do trajeto até El General, não ofereceram nenhum tipo de dificuldade. De El General até El Copey, cruzaram os rios Chirripó, San Izidro e Pacuar, acompanhando a Serra de las Muertes. Pela estrada de San Marcos, Santa Maria de Dota, San Pablo e Corralillo chegaram a Cartago por estrada em bom estado de conservação. De Cartago até San José, a capital do país, seguiram por rodovia pavimentada.

― Um dia, a Carretera Pan-americana, que sairá da Patagônia e irá até o Canadá, estará pavimentada, a exemplo deste segmento que ora estamos percorrendo – disse o comandante para Lopes da Cruz.

― Essa estrada será uma artéria que distribuirá riqueza, conforto e vida para todos os povos da América – respondeu o engenheiro.

 

Em San José, a capital, os expedicionários receberam todas as atenções e apoio das autoridades. Foram ao Congresso Nacional, onde o presidente do Senado, Sr. Onofre Sandoval, decretou apoio irrestrito e ajuda em dinheiro para a expedição. Na Câmara dos Deputados, representada pelo Lic. Arturo Bolio, foram recebidos em sessão solene e o Presidente da República, Lic. Ricardo Jimenes elogiou a iniciativa e exaltou a façanha realizada pelos brasileiros.

― A bravura, o heroísmo e o desprendimento de vocês nos impressionam. Serão lembrados pelas gerações que estão por vir. Serão mitos nas terras onde nasceram. Seus nomes serão dados às ruas das suas cidades e seus bustos, moldados em bronze, serão expostos nas praças públicas. Os livros haverão de registrar em páginas de ouro o heroísmo inigualável de cada um de vocês e seus nomes serão repetidos, nas escolas, pelas crianças e professores. O feito que ora realizam será objeto de estudos. Vocês são heróis e o que propõem é inteligente e nobre - disse o Presidente.

Mário ouviu atentamente tudo o que o presidente da Costa Rica falou. Pensou, saboreou cada uma das palavras que massagearam o seu ego e o de seus companheiros e, prevendo que o heroísmo de que o Lic. Ricardo Jimenes acabava de exaltar jamais seria reconhecido em sua terra,  falou para dentro de si:

― Não procuramos estátuas e nem nomes de ruas, mesmo porque os prefeitinhos e vereadores só pensam em eternizar os nomes de seus parentes e amigos, mesmo não sendo eles dignos de tal reconhecimento. Basta observar e conferir os sobrenomes dos vereadores e compará-los com os nomes que estão nos mapas das cidades.

Depois das palavras de incentivo e reconhecimento, o presidente abraçou cada um dos expedicionários.

― Contem com o apoio do povo costarriquenho. Desde já, coloco o corpo técnico de nosso departamento viário à disposição de vocês, para que possam coordenar e orientar os desenhistas, engenheiros e topógrafos na complementação do traçado da rodovia, levantado desde a capital do Panamá até San José.

Com os serviços de escritório concluídos, os expedicionários seguiram com os levantamentos, agora da parte Norte do país, onde não encontraram nenhuma dificuldade. De San José, seguiram, percorreram e passaram por Herédia Grécia, Naranjo, Abangarez, Las Cañas, Begaces, Libéria, Santa Rosa, La Cruz e Naranjito, numa extensão de 305 Km de estradas bem conservadas, até a fronteira com a Nicarágua.

O destaque para a travessia entre a capital e a fronteira nicaragüense ficou por conta dos inúmeros vulcões, entre eles os célebres El Poas, El Orosí, Rincón de La Vieja, El Turrialba e El Miravelles, que formam a cadeia de montanhas do círculo vulcânico do Pacífico, onde puderam sentir por várias vezes os abalos sísmicos de pequeno porte.

As belezas naturais, o apoio das autoridades e os dias vividos sem dificuldades ou sofrimento ficaram registrados na memória dos brasileiros.

Os 560 quilômetros percorridos em terras da Costa Rica foram muito saudáveis.

― Aqui retomamos nossas forças e a construção da rodovia não exigirá grandes dificuldades, uma vez que o país conta com 75 quilômetros pavimentados e 230 quilômetros de estradas construídas. Os 255 que ainda faltam não apresentarão grandes dificuldades – disse o engenheiro, ao cruzar a fronteira com a Nicarágua, no dia 9 de dezembro de 1933, depois de deixarem a cidade costarriquenha de La Cruz, para entrar no território nicaragüense..


XVIII

Nicarágua – Sandino e momento histórico

 

 

            No dia 09 de dezembro de 1933, depois de seguirem por uma suave baixada, margeando o Oceano Pacífico, cruzaram a fronteira que separa a Costa Rica da Nicarágua, entre Coventillos e El Mojon. Os viajantes haviam passado a última noite na cidade costarriquenha de La Cruz e agora estavam na Nicarágua, que vivia momentos de incertezas e instabilidades políticas devido à luta que um grupo de patriotas, comandados por Augusto Cesar Sandino, realizava para livrar a Nicarágua dos invasores norte-americanos que haviam ocupado o país em 1922 e ainda mantinham o domínio, através do alinhamento dos políticos entreguistas locais com Washington.

            Sempre margeando o Pacífico, seguiram para Ostional, onde se encontrava o destacamento de fronteira da Guarda Nacional. Atravessaram toda a região Del Carrizal e, desviando dos penhascos acidentados da região vulcânica, chegaram ao Porto de San Juan Del Sur. Acompanhando a linha telegráfica que seguia paralelamente à Ruta General Fonseca, que acabava de ser construída pelos americanos com a colaboração do engenheiro José Andrés Urtecho, rumaram para a cidade de Rivas, onde foram recebidos e hospedados no Quartel da Guarda Nacional. Tomando a direção Norte, cruzaram os rios Ochomogo, Quebradas Mojón, El Iguanero, San Roque e Cabezas, até chegarem à encantadora cidade de Granada, grande centro comercial, situada na margem do Lago de Nicarágua, um dos mais belos do mundo. Em Granada, foram recebidos pelas autoridades locais e nacionais, através de Anastácio Somoza, chefe da Guarda Nacional, que os declarou Hóspedes de Honra e, em nome do Banco de Granada, ofereceu-lhes boa soma em dinheiro, como incentivo e apoio à expedição.

            De Granada, tomaram o destino de Masaya, em cujo trajeto  incluíram o povoado de Nindiri ao traçado da futura rodovia. Viajando pela estrada de Altos Del Valle, passaram pela Villa de Tititapa e chegaram aos Departamentos de Masaya e Chontalles, onde puderam observar a grandiosidade das obras de construção das estradas realizadas pelo ex-presidente, o General José Maria Moncada, que gentilmente recebeu os expedicionários em sua casa.

 

 

 

Em Manágua, o Comitê Oficial de Recepção, formado para esse fim, aguardava a chegada dos expedicionários que, ovacionados pela população, foram conduzidos ao luxuoso Hotel Anglo Americano, onde passaram a primeira noite, para depois serem transferidos e alojados no Quartel da Guarda Nacional.

 

Começava o novo ano de 1934 e as homenagens à expedição continuavam, sendo declarados Hóspedes Oficiais da Nicarágua. A Prefeitura de Manágua, o Congresso Nacional e as escolas, todos queriam apoiar e saber da extraordinária viagem e dos heróis que a realizavam, como paladinos da Carretera Pan-americana.

A cidade vivia um momento histórico e o comentário que corria pelas ruas era o acordo que estava sendo firmado entre o governo e a guerrilha, comandada pelo General Sandino.

Sandino, o “General dos Homens Livres e Chefe do Exército Defensor da Liberdade da Nicarágua”, que vivia escondido nas montanhas e florestas com seus guerrilheiros, lutando pela expulsão definitiva dos norte-americanos que, primeiro submeteram o país à ocupação imperialista pela força de seus soldados e, agora, através de governantes nicaragüenses submissos às orientações que vinham da Casa Branca, foi atraído para uma negociação de paz, supostamente interessante.

O governo do presidente Juan Bautista Sacasa, através do ministro da agricultura, Dr. Sofonías Salvatierra, havia proposto ao herói do povo nicaragüense a formação do futuro Exército da Nicarágua. O posto de comandante seria dado a Sandino e, para os seus subalternos, a incorporação nas fileiras do futuro exército, no exercício das mesmas patentes que ocupavam nas operações de guerrilha.

Sandino chegou a Manágua no dia 16 de fevereiro de 1934. Era a quarta vez que o guerrilheiro ia até a capital para dar andamento às negociações de paz e, como das outras vezes, ficou hospedado no Quartel da Guarda Nacional, onde os expedicionários estavam alojados há mais de um mês. Sócrates Sandino, irmão do comandante guerrilheiro Juan Ferreti e Santos Lopes, que faziam parte do alto comando guerrilheiro e que acompanhavam o Defensor da Liberdade da Nicarágua, hospedaram-se no quarto de hóspedes que Salvatierra mantinha, ao lado de sua casa.

Oliveira aproveitou o encontro dos viajantes com os guerrilheiros para, durante o momento histórico, explanar ao chefe dos rebeldes as intenções e o objetivo da missão que realizavam.

― Estamos percorrendo as Américas desde abril de 1928, procurando o melhor caminho para implantar uma rodovia capaz de unir todos o povos do Continente, transformando-os em irmãos – disse o Comandante da Expedição Brasileira para o Comandante Supremo dos rebeldes nicaragüenses.

Sandino, um homem de baixa estatura - media pouco menos de 1,70 m, olhos pequenos, de olhar vivo, tez branca e rosto sofrido, trajando calça de cor amarelada, camisa guerreira de cor verde-oliva, botas altas de cor preta e um lenço vermelho no pescoço, ouviu atentamente o que o brasileiro revelava e, encantado com o objetivo da missão, olhou para dentro dos olhos do tenente, nascido na cidade paulista de Descalvado, para dizer:

― Não é por acaso que a grandeza do trabalho que a comissão brasileira está desenvolvendo em favor da humanidade está sendo reconhecida em todos os lugares, ao longo da heróica e sofrida trajetória. Mesmo com o reconhecimento e apoio que recebem, acredito que poucos homens compreendam o suficiente, a grandiosidade da missão que seus espíritos andam levando em proveito da humanidade.

O comandante, o mecânico e o engenheiro agradeceram pelas palavras de incentivo ditas por Sandino que, em seguida, contou da missão que realizava em favor de seu povo e de sua Pátria.

― Os norte-americanos invadiram e subjugaram a Nicarágua e aqui continuam, com o apoio de alguns nicaragüenses que ocupam cargos que satisfazem seus egos e suas ambições, em troca da subserviência ao invasor. Luto para que a Nicarágua volte a ser dos nicaragüenses, mesmo que o preço para isso seja o meu sangue – disse o patriota nicaragüense.

Depois de uma rápida troca de idéias, os guerrilheiros e os brasileiros se despediram, sem esconder que naquele encontro havia nascido uma forte admiração entre os heróis viajantes e o herói incontestável do povo nicaragüense...

― No futuro, o seu feito será estudado nas escolas, para que os meninos o tomem como um exemplo de patriotismo – disse o mecânico ao se despedir do guerrilheiro.

― Não creio que serei estudado nas escolas. A minha luta é contra o colonialismo norte-americano e a força do dólar não permitirá que eu seja lembrado, porém, vocês que lutam por uma causa heróica, cuja grandeza toca minha alma, serão lembrados em todos os cantos. A gratidão de todos os povos das três Américas haverá de registrar seus nomes nas páginas dos livros, para que o mundo saiba da grandeza que trazem dentro de si – respondeu o guerrilheiro.

Mário sorriu e, ao se retirar, disse ao engenheiro:

― A grandeza de nossa missão nos satisfaz por si. Nada além do que vimos e vivemos nesses últimos seis anos superará a experiência que acumulamos, com a convivência com os povos dos lugares por onde passamos.

Lopes da Cruz ouviu atentamente o que o mecânico lhe disse e esboçando um sorriso nos lábios respondeu ao baririense:

― O presidente da Costa Rica disse que seremos reconhecidos pela nossa gente, que farão erguer estátuas em nossa homenagem. Eu fico pensando como é que iremos nos livrar dos pombos.

Os expedicionários, depois de tantos pântanos, florestas, cordilheiras e rios, sem dizer das incontáveis enfermidades a que sobreviveram, agora estavam em Manágua, pouco mais de quatro anos após a passagem por La Paz, onde haviam assumido o compromisso com o general boliviano de que haveriam de entregar uma carta à sua filha, que havia acompanhado o marido, um diplomata norte-americano que outrora servira na Embaixada dos Estados Unidos na Bolívia e que havia sido transferido para a Nicarágua.

― Não podemos nos esquecer da carta que o general boliviano pediu para que entregássemos para sua filha – disse o comandante para o mecânico e para o engenheiro.

― Finalmente, depois de cinco anos..... – disse Lopes da Cruz.

― E onde poderemos encontrá-la? - completou Oliveira.

― Sempre ouvi dizer que quem tem boca vai a Roma. A Embaixada Americana deverá ser o primeiro lugar para onde deveremos nos dirigir – disse o baririense.

No dia seguinte ao encontro com o guerrilheiro, 20 de fevereiro, os três viajantes foram até a Embaixada Americana e, depois de pouco perguntar, ficaram sabendo que a esposa do diplomata era a dona do luxuoso Hotel Anglo Americano, onde haviam passado a noite do dia da chegada em Manágua.

Cumprindo o que acordaram em La Paz, os viajantes foram até a filha do general e entregaram-lhe a carta.

A boliviana, ao receber a mensagem, agradeceu emocionada e convidou os mensageiros para um jantar com o casal, que foi marcado para o dia seguinte.

Durante o jantar, o Comandante contou ao diplomata americano todos os detalhes da viagem que realizavam e sobre o sofrimento, acidentes e doenças a que sobreviveram. O mecânico, nas poucas vezes que entrou na conversa, falou da qualidade dos carros, os valentes automóveis da marca Ford, Modelo “T”, um fabricado em 1918 e outro em 1925 e do combustível que improvisou para cruzar parte do território boliviano e peruano. 

O diplomata, impressionado com o heroísmo e saboreando a história contada pelos três brasileiros, exagerou nas doses do bom whisky e o álcool em excesso fê-lo soltar a língua.

― Enquanto nós estamos aqui, saboreando o que a vida tem de melhor – um bom whisky e comida farta e saborosa – Augusto Sandino, o guerrilheiro que atormenta e tira o sossego dos meus conterrâneos, acompanhado de seu pai, Dom Gregório Sandino e de seus generais guerrilheiros Francisco Estrada e Juan Pablo Umanzor, além do ministro nicaragüense, Sofonias Salvatierra, estão no Palácio, jantando com o presidente Sacasa, sem saber o que o aguarda – disse o diplomata, olhando para os três brasileiros.

― Nas ruas corre a notícia de que ele está concluindo uma negociação com o governo. Dizem que será um acordo de paz e que a Nicarágua formará um exército que será comandado por Sandino e que seus companheiros também farão parte, ocupando as mesmas patentes e funções que exercem no movimento guerrilheiro. Os nicaragüenses aguardam ansiosos e estão esperançosos pela paz que, finalmente, haverá de acontecer no país – disse Oliveira.

― Que nada! - respondeu o diplomata – Trata-se de uma cilada que armamos hoje à tarde, na Embaixada. O Somoza e o nosso pessoal planejaram tudo. Depois do jantar, o carro que vai buscar o Sandino não o levará para o quartel onde está alojado. Será seqüestrado pela Guarda Nacional, comandada por Somoza que, para disfarçar, neste momento está no teatro assistindo a um recital da intelectual peruana, Zoila Rosa Cárdenas, que está percorrendo a região, apresentando sua arte. A Guarda Nacional levará  Sandino e os seus generais, Francisco Câmara e Juan Pablo Umanzor para a escuridão do aeroporto e lá serão fuzilados. Dom Gregório e o Ministro Sofonias Salvatierra serão presos, apenas como parte da armação. A eliminação dos guerrilheiros será uma preocupação a menos para a Casa Branca – concluiu o diplomata.

Os três brasileiros ficaram assustados com o que acabavam de ouvir e Mário, na esperança de que aquilo poderia não ser verdade, sem nada dizer, pensou para si:

― Será verdade o que o americano está falando ou é a elevada dose de álcool que subiu na sua cabeça que o faz sonhar?

E era verdade... Na entrada da noite, quando os expedicionários ainda se deliciavam com o jantar, um carro oficial apanhou  Augusto Sandino, Don Gregório Sandino, o General Juan Pablo Umanzor e o General Francisco Estrada, além do Dr Sofonías Salvatierra e os levou para jantar com o Presidente Sacasa.

As negociações e o jantar que aconteciam no Palácio Presidencial avançou até as 10 horas da noite, momento em que, tal qual o diplomata havia revelado, o carro oficial retornou ao Palácio para apanhar os sandinistas e o ministro.

Ao se aproximarem do Quartel da Guarda Nacional, denominado “El Hormiguero”, o carro foi detido por uma patrulha. O Capitão Lizandro Delgadillo, que comandava a operação, deu ordem para que o ministro Salvatierra e Dom Gregório Sandino descessem do veículo, encaminhando-os, como presos, para “El Hormigueiro”. O carro, levando Augusto Sandino, Francisco Estrada e Juan Pablo Umanzor, conduzido pela Patrulha da Guarda Nacional, seguiu até as proximidades do aeroporto, onde o Capitão Delgadillo ordenou o fuzilamento.

A rajada de tiros ecoou no silêncio da noite. O baririense Mário Fava, o comandante Oliveira e o engenheiro Francisco Lopes da Cruz, que ainda conversavam com o diplomata americano no luxuoso Hotel Anglo Americano, ouviram os tiros:

― Infelizmente, é verdade – pensou o mecânico que, ao ouvir os disparos que começaram a acontecer em todos os cantos de Manágua, imaginou procurar abrigo na casa do ministro Salvatierra que, por fazer parte do governo do presidente Sacasa, gozava de eficiente segurança oficial.

O diplomata, tranqüilo e bem dosado pelo álcool, procurou acalmar os brasileiros:

― Não se preocupem. A calma voltará em pouco tempo. Os tiros que agora acontecem fazem parte da caça planejada com Somoza. Sua polícia está caçando outros guerrilheiros que acompanharam Sandino e que se acomodaram nas pousadas mais simples da cidade...

Tiros e mais tiros aconteciam em diversos pontos da capital, disparados que eram na caçada aos companheiros de Sandino.

Assustados com o barulho e com a agitação da população, os expedicionários saíram do hotel e, ao chegar à residência do Dr. Sofonías Salvatierra, presenciaram o assassinato do irmão de Sandino, o General Sócrates que, depois de morto, teve o seu corpo retirado do local, arrastado sobre o solo arenoso, puxado por um de seus pés. Juan Ferreti e Santos Lopes conseguiram fugir pelo teto da casa.

― Ainda vimos as marcas de sangue que se misturavam com a areia, marcada pelos sinais do arrastamento - disse Mário Fava, ao narrar a cena que acabava de assistir.

Os brasileiros, que estavam alojados no “El Hormiguero”, o Quartel da Guarda Nacional, de onde partiam as ordens e instruções para a caçada, retornaram ao lugar, para uma noite não dormida.

A tranqüilidade voltou e poucos dias depois os expedicionários foram recebidos em audiência especial no elegante Palácio de Tiscapa, pelo presidente Juan Bautista Sacasa que recomendou ao seu gabinete atenção e facilidades, franqueando os serviços de correios, telégrafos e telefônicos, além de apoio financeiro, para que pudessem seguir com o pré-projeto da grande estrada das Américas.

Os grandes lagos, como o Nicarágua e o Manágua, foram ficando para trás, como magnífica recordação e dando lugar para as serras de Yeñuca, Yolaina e Amerique e para os vulcões El Cosiguina, Momotombo, El Viejo, Los Marraibos, El Chencó, El Zapatero e el Ometepé, com destaque para o El Chitepeque, localizado no interior do Lago de Manágua, entre as águas cristalinas que refletiam a natureza e os raios do Sol.

De Manágua até Honduras, cruzaram por La Paz, Leon, Quetzalluaque, Chichigalpa, Chinandega, Villa de Las Delícias, Las Mesas e, finalmente Somotillo, localizada na fronteira.

― A futura estrada, em território nicaragüense, percorrerá 501 quilômetros, sendo 233 na parte Sul e 268 na parte Norte. Toda extensão está praticamente construída, a menos de alguns trechos onde a pavimentação e algumas pontes estão por fazer – disse Lopes da Cruz para os companheiros, depois de somar quilômetro por quilômetro percorrido na Nicarágua.

 


                                              

XIX

Honduras e El Salvador - mundo maia

 

 

            Numa vasta região de terras férteis e ricas, o povo maia criou uma das mais grandiosas civilizações que o mundo conheceu.

Embora não constituída por um grupo homogêneo, os maias fizeram, de um conjunto de etnias com diferentes línguas, costumes e realidades históricas, uma nação unida por uma cultura tão avançada que não é exagero dizer que, através dela, esse povo influenciou todos os habitantes do altiplano, sul mexicanos e América Central.

O que chamamos hoje de Mundo Maia é a vasta região compreendida pelas terras dos estados mexicanos de Yucatan, Quintana Rôo, Campeche, Tabasco e Chiapas, além de mais quatro países, Belize, Guatemala, El Salvador e Honduras e é nessa área que os três intrépidos brasileiros, Leônidas Borges de Oliveira, de Descalvado; o catarinense Francisco Lopes da Cruz e o baririense Mário Fava ingressaram, no dia 23 de março de 1934, depois de deixarem a Nicarágua, cruzando o Rio Guasaule.

Os três brasileiros penetraram em Honduras através das montanhas e praias, tomando a estrada Del Triunfo, contornando a Cuesta Del Coyol, passando por Namasigue e Choluteca, para chegarem em San Lorenzo.

― O trecho da estrada da integração entre os povos americanos, dentro de Honduras, será pouco extenso e o nosso trabalho será muito rápido – disse Lopes da Cruz para os companheiros.

E é verdade mesmo. Apesar de Honduras ser um dos países da América Central com dimensões consideráveis, a posição geográfica permitiu que o traçado da futura rodovia fosse assentado em apenas 187 quilômetros, extensão suficiente para ligar Nicarágua a El Salvador que, por se tratar de um segmento relativamente curto, oito dias foram suficientes para que os estudos fossem concluídos, dispensando, inclusive, a passagem dos expedicionários por Tegucigalpa, a capital.

Mesmo com a capital fora da rota, o apoio da Presidência da República aconteceu através de um telegrama dirigido aos expedicionários, com cópia para as autoridades do trajeto.

Oliveira, ao receber o telegrama, abriu-o na frente da autoridade hondurenha que lhe entregou a mensagem:

― É o presidente Tibúrcio Carias, manifestando o seu apoio à nossa causa – disse Oliveira para Mário Fava, depois de ler a mensagem que acabava de receber de Tegucigalpa.

Após a leitura da mensagem contida no telegrama, Leônidas entregou-a ao mecânico, para que o guardasse na caixa das fotografias e documentações que traziam.

Mário, antes de guardar o telegrama, procurou lê-lo, fazendo manifestar, mais uma vez, o seu espírito de profundo interesse no conhecimento, desde as coisas mais simples até as mais complicadas e menos compreendidas, como a eletricidade e a mecânica.

“Me permito manifestarle que yá dí mis instrucciones a las autoridades de los Departamientos a afecto de que les guarde toda clase de consideraciones y se les haga facilidades en su noble cometido. Afectísimo. Tiburcio Carías – Presidente de la República” – era a mensagem que os expedicionários acabavam de receber.

Os expedicionários seguiam com o pré-projeto da futura rodovia e, ao chegarem à última cidade por onde haveriam de passar, Nacaome, foram recepcionados festivamente pelas autoridades locais.

O Alcade Marcelino Salazar saudou os brasileiros, exaltando sua bravura e a importância da Carretera Pan-americana que, depois de concebida, integraria Honduras com as Américas.

Depois da rápida passagem pelo país, os expedicionários deixaram o território hondurenho no dia primeiro de abril de 1934, entrando em El Salvador, depois de atravessar o Rio Goascorán.

― Estamos em El Salvador – disse Lopes da Cruz, depois de cruzar o rio e colocar os pés em solo salvadorenho.

― O nome desse país é uma chamada para que nossas almas jamais se esqueçam de que depois de tantas incertezas conseguimos chegar até aqui. O Criador sempre nos apoiou e nos guiou em todos os momentos e passos da nossa marcha – completou  o mecânico.

Depois de atravessarem o rio-fronteira e adentrarem no belo e hospitaleiro território salvadorenho, no mesmo dia, chegaram a São Vicente.

 

― Sentir-me-ei honrado em acomodá-los na Fazenda Las Delícias, de minha propriedade – disse Don Marcial Vela, uma das autoridades mais expressivas da cidade.

Depois de breve descanso na Fazenda de Don Marcial e com as energias recuperadas, os brasileiros seguiram para Ilopango.

― Esta rodovia está em ótimo estado – disse Lopes da Cruz que, como engenheiro, anotava tudo no seu pré-projeto.

Ao chegarem a Ilopango, uma comitiva liderada pelo Cônsul do Brasil, Sr. Jorge Harrison, esperava pelos brasileiros, para acompanhá-los até a cidade de Cojutepec, onde o governador da província de Custcatlán, o coronel Alonso Enriquez, os aguardava com impaciência e ansiedade:

― O governador deseja conhecê-los – disse o cônsul para o Comandante, comentando que a notícia da bravura e do heroísmo dos expedicionários caminhava bem na frente da expedição.

― A notícia da passagem de vocês por aqui é aguardada há dias. A imprensa refere-se a vocês como heróis e intrépidos e o povo quer vê-los, quer tocá-los – afirmou o cônsul.  

― Nada de herói, nada de intrépido. Nós apenas seguimos impulsionados por um ideal e este, incrustado em nossas almas como está, nos enche de força e vontade. Assim, a vitória será certa – disse Oliveira para o cônsul.

Os brasileiros encontraram o sistema viário do país avançando e o trabalho resumiu-se somente na anexação dos traçados existentes aos estudos da futura rodovia. Os projetos de que El Salvador dispunha foram elaborados pelo engenheiro Manuel Lopes, sob as ordens do Presidente da República, General Maximiliano Hernandez Martinez.

 

Os estudos mostraram que a futura rodovia haveria de percorrer 298 quilômetros dentro de El Salvador, ligando o oriente ao ocidente, passando pelas principais cidades, inclusive a capital e seguindo para a cidade de San Cristobal, na fronteira com a Guatemala.

― Seis anos de trabalho, contados desde a nossa saída do Rio de Janeiro até hoje, 27 de maio de 1934, nos encontramos na fronteira da Guatemala com o mesmo entusiasmo que carregávamos no momento da partida . Não é interessante? – disse Lopes da Cruz.

― A vitória está quase garantida. Ainda temos três países, a Guatemala, o México e, finalmente, os Estados Unidos. Daqui pra frente, as dificuldades não poderão ser comparadas às que enfrentamos na América do Sul. Dos três países que faltam, apenas o sistema viário da Guatemala requer melhorias e obras consideráveis. Quando entrarmos no México, a lembrança dos acidentes, doenças, fome e de todos os incidentes que enfrentamos até aqui, será apagada de nossas memórias e quão grande será a alegria pelo sonho realizado e pelo dever cumprido – disse Oliveira, demonstrando um contentamento que não cabia dentro de si.

                                                                     


XX

Guatemala – a certeza da vitória

 

 

            Mário, Leônidas e Lopes da Cruz deixaram El Salvador e entraram em terras guatemaltecas no dia 27 de maio de 1934.

A primeira cidade do além fronteira foi San Cristóbal, conhecida, na época, como “Jerez de la Frontera”.

Depois de San Cristóbal, seguiram, pela Ruta del Desviadero, um caminho que contorna a Laguna Atescatempa, cercada por vegetação abundante cobrindo o Valle de Las Moritas.

Lago de um lado e a exuberante vegetação do outro, compunham o cenário digno do sucesso da sofrida e vitoriosa expedição, que tinha tudo para não dar certo e só cobriu-se de glória pela bravura, determinação e heroísmo desses três intrépidos brasileiros e dos carros, Modelo “T”, idealizados e construídos por Henry Ford. A floresta estampada no espelho do lago e a luz do dia refletindo na superfície espelhada mostravam como se o astro estivesse emergindo, com toda sua força e calor, da profundeza de suas águas cristalinas e puras.

― Parece o nascer do sol saindo das águas do Rio Tietê de minha infância – pensou o mecânico que, naquele momento, conduzia a caminhonete denominada São Paulo e, ao fazê-lo, deliciava-se com o presente que a natureza oferecia aos seus olhos, mente e alma.

― Deus exagera na sua infinita bondade – deviam estar pensando os três brasileiros da expedição heróica.

Percorrido o cenário encantado, eis que os expedicionários chegaram a Mongoy e Jicaral para seguir pelo Valle de San Jerônimo até a Villa de Asunción Mita. Cruzaram os rios Sanchul, Trapiche Abajo, Teucal, Amatal, Mongoy, Engapia, Tamasulapa e, na seqüência da viagem, passaram pelos povoados de Asuncionsita, Guacamayo e Las Canoas, chegando a El Progreso, de onde tomaram o rumo de Jutiapa e San José de Acatempa.

Por estrada construída há tempos, rumaram para Cuilapa, no Departamento de Santa Rosa, onde cruzaram o Rio Acatempa. Passaram por Molino e Los Esclavos e se encantaram com uma ponte de pedra, construída pelos escravos indígenas em 1592 que, intacta e perfeita, parecia ter sido inaugurada no dia anterior, ou no mesmo dia pela manhã.

 

Para chegarem ao Departamento de Amatitlán, percorreram caminhos por entre grandes serras e aí encontraram várias equipes de cientistas e pesquisadores, que estudavam os movimentos tectônicos da crosta terrestre, além de uma gruta localizada nas proximidades da cidade de San Pedro Mártir, a Laguna de las Calderas e inúmeros respiradores vulcânicos de vapor, cuja temperatura chegava a 60ºC, que despertava o interesse científico dos estudiosos.

Percorrida a região montanhosa, chegaram a Frajaines e daí tomaram o rumo da capital do país, passando por Don Justo Arrazola, Concepción, Puerta Parada, Pillar e Villa de Guadalupe, para chegarem na Ciudad de Guatemala, a capital do país, de etnia predominantemente maia.

Na capital, foram recebidos em audiência especial pelo Presidente da República, o General Jorge Ubico que, além de oferecer uma alta soma em dinheiro, concedeu-lhes, também, pneus, combustível e franquia telefônica, telegráfica e de correios. Receberam, ainda, todo tipo de serviço de engenharia para o registro dos levantamentos ainda não mapeados.

 

 

Durante a permanência na capital, puderam observar o Volcán del Fuego e o Volcán del Água, este último, temido desde o ano de 1776, quando destruiu a importante cidade de Santiago de Los Caballeros,  que acabou sendo reconstruída com o nome de Ciudad de Guatemala.

Depois de concluídos todos os serviços de mapeamento, patrocinado pelo governo local, a expedição seguiu sua histórica missão, cruzando San Rafael, Majada e Mixco, para entrarem no Departamiento de Secatepéquez e chegarem a Santiago, depois Santa Maria, Sumpango, San Miguelito, Tejar, Chimaltenango, Zaragoza, Patazícia, Tecpán e Chichoy, último ponto desse Departamiento, antes de entrarem no de Totonicapán.

Seguindo, chegaram a San Cristóbal e Salcajá, de onde conduziram a expedição até a cidade de Quetzaltenango, que havia sido arrasada por um terremoto em 1902 e que, agora reconstruída, havia se transformado na segunda cidade da Guatemala, com prédios imponentes e de beleza arquitetônica moderna admirável.

Passando por San Mateo, Ostuncalpo e Palestina, seguiram rumo a San Marcos, onde o chefe político local, o coronel Miguel Ydígoras Fuentes, os recebeu com entusiasmo e admiração.

― Vocês são um grande exemplo de bravura e valentia para todos nós. As futuras gerações haverão de tê-los como modelos de verdadeiros heróis – disse o Coronel.

Para chegarem à fronteira do México, ainda haveriam de passar por Palo Gordo, San Rafael, Panorama, Rodeo, San Pablo, Malacatán, Petacalpa e El Carmen e o fizeram, deixando a Guatemala no dia 26 de setembro de 1934, depois de percorrerem e anexarem ao projeto da futura Carretera Pan-americana 594 quilômetros de estradas já construídas e bem conservadas pela direção de Servícios Nacionales de Caminos de Guatemala, cujo diretor, o General de Exército Don Rafael Aldana, com muita competência, as construiu e dava manutenção à maravilhosa malha rodoviária guatemalteca.

 

Depois de concluído mais esse trecho da América Central, firmava-se na mente e na esperança dos brasileiros que as dificuldades enfrentadas na travessia da América do Sul, e não repetidas nas mesmas proporções na América Central, não voltariam mais, uma vez que daí pra frente haveriam de percorrer o México e os Estados Unidos, onde, sabidamente, encontrariam estrutura viária de nível muito superior e todo tipo de recurso de que o sucesso da missão necessitava.

E eles estavam certos. Mário Fava, Leônidas Borges de Oliveira e Francisco Lopes da Cruz haviam conquistado a América e haveriam de colher os louros da vitória, porque o sucesso da maior façanha do automobilismo mundial estava garantido.

 


XXI

México – hospitalidade inesquecível

                                 

                                                                       

            Quando ainda em El Carmen, última cidade da Guatemala, os expedicionários despediram-se das autoridades de Malecatán e adentraram no México, dando prosseguimento à heróica missão.

Era 26 de setembro de 1934 e, cruzada a fronteira, as rodas dos veículos que trouxeram os expedicionários desde o Rio de Janeiro até o sul do México, iam desviando da encosta íngreme, por uma estrada que, ainda em construção, os levou a cruzarem o Rio Suchiate, onde os guardas do Posto de Fronteira El Talisman receberam os brasileiros e os conduziram a Tuxtla Chico, no estado fronteiriço de Chiapas.

 

 

― Dizem que o México é lindo e aqui, tenho certeza de que as nossas almas serão tocadas profundamente pela generosidade de um povo bom e hospitaleiro – disse Lopes da Cruz, depois do primeiro contato com o povo mexicano.

― A generosidade dos mexicanos deve-se aos povos dos antigos impérios que aqui existiam, antes da chegada dos conquistadores europeus. Nesse particular, a contribuição espanhola é menos significativa do que a dos nativos – disse Oliveira.

Depois de dois dias em Tuxtla Chico, caminharam mais dezesseis quilômetros de boa estrada e cruzaram os rios Guajata, Cosalapa e Texcuyhuapa, para chegarem à progressista cidade de Tapachula, com 16000 habitantes, lavoura avançada e grande comércio.

As autoridades da cidade, exército e população, recepcionaram e apoiaram os brasileiros, bem à moda mexicana.

Quando da chegada em Tapachula, o Comandante Oliveira, acometido que estava por mais uma das inúmeras enterites crônicas sofridas ao longo dos tantos quilômetros percorridos até então, e essa última, adquirida pela ingestão da água contaminada de um dos rios cruzados no território chiapaneco, sentiu seu corpo enfraquecido e incapaz de prosseguir sem a cura necessária.

  ― Preciso urgentemente de um médico – disse o Comandante.

Oliveira foi levado até o posto médico da cidade, para ser atendido pela Dra. Maria Buenaventura Gonzáles, uma mulher de etnia maia, de alma generosa e pura que, aos 12 anos, decidiu ser médica, em cumprimento a um pedido de Nossa Senhora de Guadalupe, revelado durante um sonho vivido pela menina.

― Você será médica e haverá de cuidar do seu povo, tão pobre e tão carente. Além de médica, você haverá de se casar com um homem pouco comum – teria sido essa a revelação que a Mãe de Deus e de todos os mexicanos lhe fizera, em sonho.

A menina, religiosa que era, atendeu prontamente à convocação de Nossa Senhora e, mesmo sem o consentimento da família, fugiu de casa aos 16 anos e foi para a Cidade do México para, anos depois, só Deus sabe de quanta luta e de quanto sofrimento, conseguir se transformar na primeira mulher mexicana a alcançar tamanha distinção, numa época em que o machismo exagerado não permitia tal feito.

― Mulher é pra servir ao marido, na cama e no fogão – era a missão reservada à mulher, segundo o que determinava a prática e o pensamento dos machos de antanho e de muitos, ainda hoje.

A doutora, depois de cumprida a primeira parte do sonho, viu no comandante Oliveira, o homem pouco comum que o sonho lhe havia revelado.

― Esse é o homem – pensou a generosa doutora.

  Com os medicamentos recomendados pela jovem doutora, Oliveira recuperou suas forças e, no dia 13 de outubro de 1934, depois de cruzarem a zona cafeeira de Soconusco, chegaram à Huixtla. Foram 97 quilômetros de estrada de ótimo traçado, construída com os esforços dos colonizadores alemães que aí viviam.

O trecho percorrido, desde o dia em que cruzaram a fronteira com a Guatemala até a chegada em Huixtla, estava em boas condições e perfeitamente adequado para ser transformado em mais um segmento do futuro caminho da integração.

Acompanhados pelo governador do Estado de Chiapas, General Francisco Ruiz e pelo Comandante do Exército Mexicano, no Estado, o General Carlos Malpica, a expedição foi recebida pelo prefeito de Huixtla, Sr. Alfonso M. Méndez. O governador e o prefeito os declararam “Hóspedes de Honra”, durante a bela recepção com festa e baile, no Salão Social do Palácio Municipal que, depois de tantos boleros, viu os músicos calarem seus instrumentos para que o governador fizesse uso da palavra:

― O povo mexicano sente-se honrado com a presença dos bravos expedicionários brasileiros em nosso território e os declara “Hóspedes de Honra”.  Esse é um modesto tributo que o Estado de Chiapas e o povo da cidade de Huixtla, concedem a esses homens, cujo heroísmo nos encanta e nos conquista. Tê-los em nosso meio é uma honra para todos nós, os mexicanos.

Deixando Huixtla, os três brasileiros seguiram para Pueblo Nuevo, passando por fazendas e cruzando rios, inclusive o Rio Yslamapa, com 50 metros de largura e o Rio Huixtla, com 75.

Os rios do trajeto não dispunham de pontes e foram vencidos, uns, menos profundos, com os motores dos carros funcionando e outros, totalmente mergulhados e amarrados com cordas, que eram puxadas por homens e animais.

A beleza do lugar, destacada pelas águas cristalinas dos rios e pelo verde da vegetação tropical que cobre o território chiapaneco, encantou os viajantes.

― Em meio à tranqüilidade das águas, observa-se o desenhar no fundo verde, da massa de água doce que, vezes imóvel e compacta, provoca-nos o desejo supremo de montar sua correnteza, que deverá ser interessante e cheia de encanto, agregando à perigosa atração do desconhecido. É um espelho líquido – disse o Comandante Oliveira, manifestando sua admiração pela maravilha que seus olhos apreciavam.

Percorreram mais 17 quilômetros, passando por San Felipe, para chegar a Acapetahua, num trajeto que, mais uma vez, os deixou encantados com a exuberância da natureza que se mostrava generosa quando viam o perfil de uma terra em alto mar, como uma linha escura de parte da serra, alternada por colunas de palmeiras reais, emolduradas pelo céu do final de tarde, formando longos círculos inflamados.

― Não podemos negar que o Criador sempre nos brinda com os encantos da natureza, prova incontestável de sua existência – pensou o mecânico, que seguia solitário, conduzindo o “São Paulo” e pensando sempre nas lições de catecismo recebidas na Igreja de sua infância, na longínqua cidade de Bariri.

Para chegar a Escuintla, era necessário percorrer mais 6 quilômetros e o fizeram no dia 21 de outubro de 1934, permanecendo na cidade por cinco dias para, em 26 de outubro, rumarem para Mapastepec, percorrendo 42 quilômetros por terras muito férteis e grandes plantações de bananas.

Mapasepec era uma importante estação ferroviária e a população do entorno tinha grande interesse na passagem da Carretera Pan-americana que, entroncando com a ferrovia, traria muito progresso para a região. 

No dia 6 de novembro, a expedição chegou a Pijijiapan, depois de difícil travessia por região montanhosa. Cruzaram quatro áreas pantanosas e vários rios, todos sem pontes, destacando-se o Rio Novillerito, com mais de cem metros de largura.

Sofremos muito nessa rota, pois tivemos que passar fome e suportar os rigores do inverno em plena selva, sem teto de nenhuma classe e os mosquitos que aproveitaram o nosso sangue, como num banquete do qual participaram sem serem convidados – disse o engenheiro.

― O sofrimento causado pela fome, frio, cansaço e pelos insetos nos faz sentir o aspecto sombrio da selva. Selva! Quem nunca saiu da cidade não conhece a majestade dessa palavra – reclamou o Comandante, depois de superarem mais um trecho da futura Carretera.

Prosseguiram a viagem rumo à cidade de Tonalá, passando por inúmeras fazendas de gado, todas distribuídas ao longo de cento e sete quilômetros de estradas transitáveis, além de doze rios e quinze riachos e nenhuma ponte.

Chegaram a Tonalá no dia 17 de novembro de 1934, onde, mais uma vez, foram declarados “Hóspedes de Honra”.

― É com muita alegria que declaramos os bravos e heróis brasileiros, nossos Hóspedes de Honra – disse o prefeito, ao recebê-los no Palácio Municipal.

Tonalá lembrava, no aspecto comercial, a cidade de Tapachula. Sua localização, ao lado da Ferrovia Interamericana, colocava-a numa posição excepcional, dentro do estado chiapaneco.

Avançando mais trinta e cinco quilômetros, chegaram a Arriaga, uma cidade que, com a passagem da Carretera, ocuparia posição estratégica dentro do estado porque, além de grande produtora de milho, era também um centro comercial de grande importância e haveria de ser maior ainda, com a chegada da nova estrada.

Clahuites é a última cidade do Estado de Chiapas, muito próxima da divisa com o Estado de Oaxaca, terra do grande ex-presidente mexicano, Benito Juarez, um indígena de sangue puro, da etnia zapoteca, considerado o maior presidente do país, e do ditador Porfírio Dias, que governou por mais de 30 anos e só apeou do poder pela revolução que imortalizou Pancho Villa e Emiliano Zapata que, depois de tantas lutas, colocou Madero no comando dos mexicanos e foi nesse ponto que a expedição deixou Chiapas, no dia 24 de novembro de 1934.

Cruzada a fronteira interestadual, chegaram a San Jerônimo, depois de percorrerem cento e oito quilômetros, cruzando fazendas e plantações de cana-de-açúcar e milho. Em San Jerônimo, pequenas fábricas de gelo e de refrigerantes impulsionavam o seu movimento comercial, uma vez que o local era servido por importante ferrovia, capaz de colocar os produtos do lugar em alguns dos maiores centros consumidores da República Mexicana.

A chegada a San Jerônimo foi marcada pela enfermidade pela qual o Comandante Oliveira foi acometido, conseqüência de uma terrível infecção intestinal contraída, mais uma vez, pelo consumo de água infectada. Oliveira permaneceu vinte e dois dias entre a vida e a morte e, graças aos cuidados do renomado médico mexicano, Dr. Juan N. Tercero, foi curado, tendo condições, novamente, de retomar a caminhada.

― Dr. Juan, sou-lhe grato pela competência e dedicação no trato da minha terrível enfermidade. Que Deus lhe pague, porque o que fez não tem preço que um pobre mortal possa pagar – disse Oliveira.

― Curar faz parte do meu juramento a Hipócrates. Procuro cumprir o meu propósito e apraz-me saber da minha modesta contribuição para a recuperação de um homem com ideal tão nobre. Você e seus companheiros são ímpares, são bravos, são heróis. Eu desconheço alguém tão determinado e capaz – respondeu o médico.  

Ainda enfraquecido pelos longos dias de sofrimento, Oliveira reassumiu o comando e a Expedição marchou na direção de Tehuantepec, pela estrada que leva aos povoados de Tlacotepec e Mistiquilla. Depois de percorrerem trinta e sete quilômetros de caminhos em bom estado, chegaram ao destino, no dia 19 de dezembro de 1934.

Na seqüência da viajem, cruzaram a Cordilheira de Oaxaca, passando pelos povoados de Tequisistlán, San Juan Lagarcia, Nejapa, El Chacal, Totolapan, San Dionísio e Mazatlán.

Até essa data, haviam percorrido e observado duzentos e sessenta e sete quilômetros dentro do Estado de Oaxaca, sendo que, entre as cidades de Tequisistlán e El Chacal, os cento e vinte e oito quilômetros que as separam tiveram que ser abertos pela força de seus braços e pela contribuição dos nativos, o que consumiu um mês de jornada e fome. Alimentavam-se com “totopo”, uma espécie de bolacha à base de milho, de alto valor nutritivo, preparada pelos índios zapotecas, nativos que ocupavam a região e aí viviam desde os tempos mais remotos.

Os expedicionários passaram o Natal e o Ano Novo entre os povos de pequenos povoados, todos marcados pela forte devoção a Nossa Senhora de Guadalupe e pela fé incomum que aquela gente, pobre e simples, dedica ao Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mário e seus companheiros encantaram-se pela maneira com que os mexicanos comemoram o Natal. São 49 dias, revivendo os acontecimentos registrados na Escritura Sagrada, desde 16 de dezembro, quando festejam o momento em que José e Maria encontram alguém de boa alma para lhes cederem uma manjedoura, para que lá se acomodem e se abriguem entre os animais. Cada passo percorrido pelo casal sagrado à procura desse abrigo é festejado pelos mexicanos, numa comemoração denominada “Pousadas”, ocasião em que os amigos e famílias se reúnem para montar o presépio, com José, Maria e os animais, porém, sem o menino Jesus. O Menino Deus só ocupa o seu lugar na noite de 24 para 25 de dezembro, mesmo porque não faz sentido aí estar, antes do seu nascimento. No dia de Natal, as reuniões familiares voltam a acontecer, apenas para a comemoração religiosa e para um almoço simples. A passagem de um ano para o outro também é comemorada, mas a grande festa só acontece no dia 6 de janeiro, quando as crianças recebem presentes, tal qual aconteceu com o incenso e mirra, trazidos pelos Reis Magos ao Menino Jesus. Após o almoço desse dia, em meio à alegria da criançada, encantada com seus presentes, come-se, como sobremesa, uma rosca doce, enriquecida com as mesmas frutas secas e passas da nossa tradição natalina. A rosca guarda, em seu interior, um bonequinho e quem pegar o pedaço da rosca com a surpresa é o sorteado para retirar o Menino Deus do presépio.

Após retirarem o Menino Salvador do presépio que, em seguida é desmontado e guardado cuidadosamente para o próximo ano, aquele que foi sorteado leva o bonequinho desnudo para casa, com a missão de prepará-lo, vestindo-o com roupa bonita para ser mostrado em novo encontro, que acontece em dia 2 de fevereiro, dia da Candelária, que corresponde, na Escritura Sagrada, ao dia em que a Mãe Santíssima apresenta o filho para a comunidade. De 16 de dezembro até 2 de fevereiro, são 49 dias de muita religiosidade e os mexicanos o fazem pela fé que trazem em suas almas e como um ensinamento religioso para as crianças que, de forma muito prática, aprendem o que o livro sagrado registra em suas páginas.  

No dia 10 de janeiro de 1935, num último esforço superior às suas forças, chegaram a Mitla, depois de percorrerem um longo trecho, em que foram apoiados pela equipe de trabalhadores comandados pelo engenheiro norte-americano Claudio Finney, que construía a estrada para as Minas Del Colorado. Os brasileiros permaneceram na cidade histórica de Mitla por quatro dias, descansando das jornadas penosas e aproveitando para conhecer as esplêndidas ruínas da cidade.

Antes da chegada dos conquistadores europeus, Mitla fora um importante centro religioso, construída a partir da união dos zapotecas com os mixtecas. Em Mitla, a arquitetura de precisão e os dispositivos anti-sísmicos, dominados pelos zapotecas, uniram-se à beleza de acabamento e arte dos mixtecas e o resultado não poderia ter sido outro que não esse, o qual fez os brasileiros interromperem a sua viagem para apreciar tamanha beleza.

― Mitla foi construída para substituir Monte Alban e é tão bela, que nem os dominicanos que aqui chegaram, para implantar a doutrina que trouxeram da Europa, tiveram coragem de destruir os templos dos nativos – disse o prefeito da cidade, enquanto acompanhava os viajantes durante a visita à zona arqueológica.

Tlacolula, a próxima cidade do roteiro, os aguardava para o dia 14 de janeiro. A expedição entrou triunfante na cidade e aí, acompanhados pelas autoridades municipais, aproveitaram para um rápido passeio pela cidade, para que pudessem conhecer os monumentos coloniais e os edifícios históricos que enriqueciam a cidade. No mesmo 14 de janeiro, a expedição seguiu, atravessando os povoados de Tlacohuahuaya e Santa Maria del Tule, para chegarem à Oaxaca, capital do Estado que tem o mesmo nome.

―O México é lindo e jamais encontrei um povo tão hospitaleiro. Aqui, sentimo-nos tão à vontade que parece estarmos em nossas casas – disse, ou pensou o mecânico.

Na capital do Estado, alojaram-se no luxuoso Hotel Modelo, com janelas voltadas para a praça principal da cidade, de onde puderam apreciar a iluminação, os automóveis que circulavam, os cafés, teatro, cinema, homens, mulheres e crianças que caminhavam sem pressa, parecendo tudo muito estranho para quem, por sete anos havia enfrentado cordilheiras, montanhas, rios, florestas, pântanos, doenças, acidentes e animais hostis. Para eles, aquelas imagens pareciam como se o céu tivesse descido à terra.

― O que os nossos olhos vêem parece ser uma amostra do paraíso, sem contar com o sabor do mescal que, com esse teor suave de álcool produzido a partir do agave azul, é o bálsamo que alivia as dores do cansaço – disse o Comandante, apreciando a vida da cidade através da janela do quarto do hotel.

 

No dia seguinte, acompanhados pelo Director de Caminos, Ingeniero David Martinez Dolz, foram recebidos pelo governador Dr. Anastácio Garcia Toledo, pelo Sr. Luiz Mendoza Macanley, presidente do Ayuntamiento Municipal e pelo Sr. Enrique E. Sumano, presidente da Câmara dos Deputados de Oaxaca.

No dia 23 de janeiro de 1935, acompanhados pelo Ingeniero Martinez Dolz e por Aragón Robles, amigos que fizeram em Oaxaca, seguiram para a cidade de Nochitlán, percorrendo, no mesmo dia, uma extensão de cento e vinte e dois quilômetros, para serem recebidos com festas e banquete pelas autoridades que administravam a cidade.

No dia 24 de janeiro, dia em que Mário Fava comemorava o seu vigésimo oitavo aniversário, seguiram para San Sebastian, percorrendo setenta e quatro quilômetros, chegando à divisa do Estado de Oaxaca com o Estado de Puebla. 

Setecentos e quarenta e seis quilômetros dentro do Estado de Oaxaca haviam sido estudados, quando, em 28 de janeiro, entraram no Estado de Puebla.

Percorreram cinqüenta e cinco quilômetros em terras poblanas, passando pelos povoados de Zapotitlán, Tlascala e Coapa, para chegarem em Tehuacán, no dia 31 de janeiro de 1935.

O Sr. Teófilo Flores, prefeito do município de Tehuacán, em nome dos tehuacanos, recebeu a expedição em seção solene, no Consejo Municipal, onde foram declarados “Hóspedes de Honra”.

― Não poderia ser mais honroso para um homem como eu – disse o prefeito - poder receber os expedicionários brasileiros, cujo heroísmo está impressionando a todos. A forma e a bravura com que realizam essa viagem, superando toda e qualquer dificuldade, enfrentando os perigos do desconhecido, doenças e todas as adversidades, causa-nos muita admiração e respeito. Os homens atuais e todos os que estão por vir haverão de tomá-los como exemplo. Vocês, meus caros brasileiros, enobrecem a raça humana.  

Continuando, o prefeito falou de sua cidade:

― Tehuacán é admirada pelo seu clima agradável e pela natureza pródiga. Possui águas minerais e medicinais e as indústrias de engarrafamento as exportam para os Estados Unidos, Europa e América do Sul. A cidade conta com uma ferrovia e rodovias de acesso totalmente pavimentadas, que serão incorporadas ao traçado da futura Carretera Pan-americana, idealizada pelos brasileiros e que nos colocará numa situação privilegiada no que se refere ao desenvolvimento e à nossa economia.

No dia 4 de fevereiro de 1935, caíram na estrada, mais uma vez, tomando o rumo que os levava a Puebla, capital do Estado com o mesmo nome, distante cento e vinte e quatro quilômetros. As excelentes e confortáveis estradas que percorreram, depois de saírem de Oaxaca, reforçavam o sucesso da expedição e da grande rodovia de união dos povos do Continente.

As rodas dos automóveis seguiam cortando o chão da estrada, percorrendo o trajeto na direção da cidade de Puebla.

Os expedicionários, enquanto mergulhados no pensamento sublime da grandeza da missão que realizavam, avistaram um automóvel oficial na direção contrária da que seguiam, dando sinal de luz, fazendo entender que deviam parar à margem da estrada. Eram o governador do Estado de Puebla, general Mijares Palencia, o Director de Caminos, Ingeniero Enrique Allende e o presidente del Consejo Municipal, Sr. Manuel Gómez, que, ansiosos, não suportaram a espera para conhecer os heróis brasileiros que eram aguardados com chegada anunciada para o Palácio do Governo, vindo ao encontro dos expedicionários.

Atendendo aos sinais de luz, os brasileiros estacionaram à margem da estrada e as autoridades poblanas pararam na margem oposta. O encontro foi emocionante, onde não faltaram abraços e apertos de mão, acontecidos no eixo da estrada.

― A vontade de conhecê-los era tanta, que não resistimos esperá-los e viemos ao encontro. O povo, nas ruas, quer vê-los e tocá-los. Preparem-se para serem recebidos pelo carinho incomparável da nossa gente – disse o governador, emocionado, depois de abraçar e apertar as mãos dos viajantes.

― Vocês caíram na graça dos mexicanos – completou ele.

― Os mexicanos são os campeões da hospitalidade. Sentimo-nos gratificados pelo carinho dessa gente, desde o momento em que cruzamos a fronteira e pusemos nossos pés no chão sagrado mexicano, através de Chiapas – disse o Comandante – A alma generosa dos mexicanos contamina a todos e somos gratos por tamanha hospitalidade.

Depois do encontro emocionante, o governador tomou assento na direção do carro, manobrando-o e posicionando-o na frente dos carros dos expedicionários, conduzindo-os, em cortejo, para a entrada triunfante e inesquecível, percorrendo as principais ruas de Puebla, onde o povo, com lenços brancos e com a bandeira mexicana, acenava e aplaudia os viajantes, que não conseguiam conter as lágrimas que marejavam seus olhos.

― Eu não acredito no que estou vendo – pensou o mecânico.

O governador conduziu a comitiva até o Palácio, onde centenas ou milhares de poblanos aguardavam a chegada dos brasileiros que, sob aplausos, acompanharam o general Mijares para um rápido lanche e cafezinho no seu gabinete para, meia hora depois, serem conduzidos e hospedados no luxuoso Grande Hotel Central.

 

 

A elegante capital do Estado de Puebla era a terceira cidade, em importância, da República Mexicana. Como grande centro comercial e industrial, contava com edifícios modernos, ruas pavimentadas, centros de diversões, cinemas, teatros, restaurantes, colégios, universidade e uma maravilhosa catedral, réplica, em escala pouco menor, da catedral da Cidade do México, construída pelos conquistadores espanhóis, valendo-se dos materiais de desmanche do Templo Maior, símbolo da religiosidade pré-corteziana, localizada no centro de Tenochitlán, antiga capital do império asteca.

Depois de uma semana em Puebla, acompanhados pelos amigos oaxaqueños, Gusmán e Allende, saíram com destino à tão sonhada Cidade do México, capital da República Mexicana. Era 11 de fevereiro de 1935. No trajeto entre Puebla e a Cidade do México, distantes cento e trinta e cinco quilômetros  uma da outra, passaram por Cholula, onde os antigos indígenas haviam construído a maior pirâmide do mundo e que o conquistador espanhol Hernán Cortez ordenara que fosse destruída para aproveitamento do material na construção de 365 igrejas, uma para cada dia do ano.

Ainda no trajeto para a Cidade do México, passaram pelos povoados de San Juan, Tlautla, Zapatec, Huejotzingo, San Martin e outros povoados menores. Passaram também pela famosa Estância Santa Bárbara, de propriedade do ilustre general Plutarco Elias Calles, que havia governado o México, como presidente, de 1924 a 1928, período em que, por seu ódio incontrolável à igreja católica, promovera um terrível confronto entre os católicos e os soldados do governo, que resultou na morte de cerca de 80000 mexicanos, número maior do que as mortes que aconteceram na revolução que fez o ditador Porfírio Dias apear do poder.

 

Quando da passagem da expedição pela fazenda do antigo político, Calles era um dos homens mais destacados do país e fez questão de recebê-los, pessoalmente, e reconhecer o esforço heróico dos brasileiros.

― Sou grato por atenderem ao meu convite para este nosso encontro inesquecível em minha casa. Convidei-os porque, nos meus 58 anos de vida, foram poucos os homens que conheci, com tamanha determinação e desapego à vida na realização de um ideal. Vocês são verdadeiros heróis e o são para as três Américas – disse o importante homem forte do México.

No mesmo dia, 11 de fevereiro, chegaram à capital mexicana, onde foram recebidos na embaixada do Brasil pelo embaixador Dr. Abelardo Rocas, que os encaminhou para serem hospedados no imponente Edifício Muriel.

O Dr. Abelardo era o representante brasileiro para toda a América Central, uma vez que o Brasil não mantinha embaixadores em todos os países. Acompanhou os expedicionários aos órgãos de imprensa da capital asteca e às repartições públicas mexicanas.

No Ministério das Comunicações e Obras Públicas, receberam do ministro Rodolfo Elias Calles, filho do ex-presidente Plutarco Elias Calles, ampla franquia postal e telegráfica, desenhistas e serviços de engenharia para atualização dos mapas e estudos, bem como fornecimento de todo tipo de oficina para recuperação total dos dois veículos da expedição.

Enquanto desfrutavam da generosidade e aprendiam a amar os mexicanos, Mário Fava acompanhava e auxiliava os mecânicos mexicanos na recuperação dos carros, patrocinada pelo governo de Lázaro Cardenas, por ordem do seu Ministro das Comunicações e Obras Públicas, Sr. Rodolfo Elias Calles e o engenheiro Lopes da Cruz orientava os desenhistas na atualização dos mapas. A notícia de que os brasileiros ainda se encontravam na Cidade do México chegou a Tapachula e aos ouvidos da médica que, desejosa de cumprir a segunda parte da mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe, saiu do seu “pueblito” e foi ao encontro do Comandante.

― Você se casará com um tipo muito estranho – era a mensagem de La Madre de Dios, recebida, em sonho, pela menina chiapaneca.

Depois de longa viagem, a médica chegou à capital dos mexicanos, encontrou os brasileiros e passou a acompanhá-los, seguindo ao lado do Comandante, tal qual lhe ordenara a mensagem do seu sonho de menina.

Durante o longo período em que permaneceram na Cidade do México, os brasileiros se incorporaram ao dia-a-dia da capital, que ainda vivia momentos de instabilidade, provocados pela extensão dos antigos conflitos da Guerra Cristera, que teve sua fase mais crítica entre os anos de 1927 e 1929, porém, ainda não totalmente resolvida, avançando com um e outro conflito isolado, além de 1929, quando, aparentemente, o enfrentamento havia sido controlado.

― Um dia eu me vi no meio de um imenso tiroteio. De um lado, o exército mexicano e de outro, os cristeros. Procurei abrigo num hospital, entrando por um longo corredor, cheio de portas nos dois lados. Escolhi uma, meti a mão na maçaneta, a fechadura estava aberta, entrei. Era o local onde os médicos se vestiam com aquela roupa branca e um gorro, também branco. Não pensei duas vezes. Fechei a porta com duas voltas na chave e me vesti de médico. Minutos depois, ouvi uma gritaria na frente da porta e alguém tentando abri-la. Saí do vestiário trajando roupa de médico, valendo-me de uma porta lateral e dei-me numa sala cirúrgica, onde uma equipe médica realizava uma operação. Entretidos com a cirurgia, ninguém olhou para trás e eu, fazendo-me de médico, aproximei-me daquela gente vestida de branco e olhei por sobre os ombros dos médicos mais baixos. Estavam operando uma mulher e, ao ver tanto sangue e os órgãos da mulher para fora do corpo, deu-me uma vertigem terrível e  caí para trás – disse o mecânico, narrando o fato que enfrentara.   

O apoio total das autoridades dos diversos setores da República Mexicana foi de grande importância na viabilização do projeto da futura “Carretera.”. Do Consejo Municipal e do Exército Mexicano, passando pelo Automóvel Club, Universidade Nacional, até a Presidência da República, na pessoa do presidente, o General de Divisão de Exército, Sr. Lázaro Cárdenas e do ex-presidente provisório, o General Abelardo Rodrigues, que governou o México de 1932 a 1934, todos contribuíram para a concretização da grande obra de interligação das nações americanas.

 

No dia 20 de julho de 1936, apaixonados que estavam pelo povo mexicano, mas com as almas desesperadas e os corações cheios de dor, pela separação, os expedicionários deixaram a capital dos mexicanos, rumando para o Norte. Depois de rodarem trinta e nove quilômetros, alcançaram a divisa com o Estado de Hidalgo, através do povoado de Tizayuca, depois Actoplan, Tomazunchale, Pachuca, Valles, para chegarem a Tampico, Estado de Taumalipas, no dia primeiro de agosto de 1936.

― Aprendi a amar o México pela generosidade de seu povo. Jamais me esquecerei de sua gente – disse o Comandante.

Com os automóveis totalmente recuperados por ordem das autoridades mexicanas e as estradas pavimentadas, a viagem em todo norte do território mexicano foi rápida e tranqüila. Recebiam honrarias e apoio de toda sorte ao longo do trajeto e assim foi em Monterrey, capital do Estado de Nuevo Leon e Torreón, no Estado de Coahuilla de Zaragoza.

A cidade de Nueva Laredo, ao chegarem no dia 8 de outubro de 1936, rendeu-lhes homenagens a tal ponto que, ao deixarem o território mexicano para entrarem nos Estados Unidos, mais uma vez, o Comandante Oliveira não conteve a emoção:

― Quantas recordações gratas e inesquecíveis sentiremos, sempre, do México e de seus habitantes, cuja maravilhosa sensibilidade, estremada cortesia e lealdade, por ocasião de nossa visita, entraram em nossos corações e não se extinguirão jamais. Que mais poderei dizer do México? Não direi outra coisa, senão as lembranças que levarei dessa terra de emoção mística, onde encontrei beleza para meus vorazes olhos, saúde para meus nervos esgotados, amizades profundas e sinceras e vida para meu apaixonado coração.

Ao deixarem o México, em 13 de outubro de 1936, os expedicionários, agora acompanhados pela médica, haviam percorrido e projetado 21773 quilômetros, desde o Rio de Janeiro até a fronteira com os Estados Unidos.  


XXII

Estados Unidos  - consagração definitiva

 

 

            Os expedicionários, saídos de Nueva Laredo, última cidade do território mexicano, entraram nos Estados Unidos da América pela cidade texana de Laredo, no dia 13 de outubro de 1936.

A intenção da presença dos brasileiros nos Estados Unidos era convencer os americanos da importância do empreendimento e levantar recursos para construção da futura rodovia da integração, uma vez que os americanos estavam munidos do projeto completo, concebido pelos expedicionários brasileiros, e do pano mirabolante para sua implantação.

A idéia que os viajantes traziam baseava-se  no loteamento de uma faixa, com um quilômetro de largura de cada lado da futura estrada, nos 5.774 quilômetros de travessia pela América Central, desde o sul do Panamá, até o Rio Colorado, no México. O milhão de lotes resultantes do fracionamento da área, seriam permutados por bônus, que seriam vendidos para as empresas norte-americanas por US$ 100,00 cada, totalizando a importância de US$ 100.000.000,00, uma fantástica importância para os valores da época e suficientes para execução da obra, em toda sua extensão.

Acreditavam que US$ 100.000.000,00 para uma empreitada de tal magnitude seria facilmente obtida nos Estados Unidos, onde os norte-americanos tinham que viabilizar a comercialização dos produtos de suas indústrias, principalmente as de automóveis, caminhões, pneus, máquinas agrícolas, etc e, assim motivados, partiram para a divulgação e criação de condições econômicas para implantação do projeto.

Os expedicionários eram recebidos pelas associações de comércio, revendedoras de automóveis, indústrias, universidades e principalmente pelos governantes, como os novos heróis das Américas, paladinos do desenvolvimento e defensores do sonho pan-americano. Eram homenageados e todos se prontificavam a colaborar, motivados pela repercussão que acontecia na imprensa americana.

 

 

No dia 20 de outubro de 1.936, o prefeito C. K. Quin, da importante cidade de San Antonio, Texas, recebeu os brasileiros em seu gabinete. No dia 15 de novembro, foram recebidos em Austin, pelo prefeito Tom Miller e, no dia 19, foi a vez do governador do Estado do Texas, James D. Alfred recebê-los. Em Houston, onde estiveram no dia primeiro de dezembro, foram recebidos pelo prefeito da cidade, Oscar Holcombe e, no dia 16 de dezembro, em Dallas, Texas, o prefeito George Sergent os recebeu. Ainda no Estado do Texas, passaram pelas cidades de Tyler e Longview, de onde seguiram para o Estado de Lousiana.

Os brasileiros comemoraram o Natal e a passagem do ano de 1.936 para 1.937, viajando entre os estados norte-americanos do Texas e Lousiania. No dia 6 de janeiro de 1937 estavam em Shreveport, Lousiana, onde, entre outras autoridades, foram recebidos pelo prefeito Sam S. Caldwell.

A presença dos brasileiros em território norte americano, chamava à atenção do povo e o espaço que conquistavam na imprensa e em todos os meios de comunicação, avançava todos os dias.

Pelo que liam nos jornais, os norte-americanos ficavam sabendo dos principais detalhes da epopéia e passavam a admirar os três heróis, porém, àqueles que entendiam da mecânica e do funcionamento dos motores dos automóveis, dirigiam sua atenções ao mecânico, admirando-o e considerando-o como o verdadeiro herói daquela viagem impossível.

― E os motores ainda são os mesmos, tais como saíram da fábrica da Ford, em Detroit ? – perguntavam entre si, ao saberem que os carros valentes traziam motores originais, fabricados, um em 1.919 e outro em 1.926.

― E tem mais – diziam outros – as manutenções foram feitas fora das oficinas, com os motores sendo abertos no interior das florestas ou sobre a areia dos desertos.

Mário ouvia os elogios e procurava responder com humildade e assim o fez, por mais de uma vez:

― Foram dez anos mexendo em apenas dois motores. Aprendi a conversar com eles e a qualquer alteração de ruído, sabia o que estava acontecendo. Não foram raras as vezes que tive que retirá-los dos carros e transportá-los sobre canoas e pranchas improvisadas, feitos com a madeira que cortávamos das matas, para superar pântanos e rios e depois montá-los para dar prosseguimento à viagem. Quando em meio à neve, nos altos picos da cordilheira andina, era preciso retirar a água dos motores para que não congelasse e, pela manhã, utilizávamos neve derretida no fogo, para repor a água que os motores necessitam – dizia o mecânico, fazendo-se entender, em espanhol, língua que assimilou ouvindo-a desde que deixou a fronteira do Brasil, ao passar de Ponta Porã para Pedro Juan Caballero, para entrar no Paraguai, no longínquo 2 de fevereiro de 1.929, dia em que os afro-brasileiros homenageiam Iemanjá.

“Dia 2 de fevereiro,

Dia de festa no mar

Eu quero ser o primeiro

A saudar Iemanjá”

Avançando em território americano, chegaram em Litle Rock no dia 15 de janeiro de 1937, onde foram recebidos pelo governador Carl E. Bailey que, a exemplo de todas as autoridades municipais e estaduais dos lugares percorridos, desde Laredo, manifestou sua alegria e de seu povo, dizendo aos visitantes:

 

 

― O governador e o povo de Arkansas sentem-se honrados com a presença dos bravos e heróis brasileiros que, movidos por um ideal nobre, superaram o impossível e hoje nos brindam com suas presenças,

Dias depois estavam no Tennessee, passando por Menphis e Jackson onde, no dia 25 de janeiro, foram recebidos pelo prefeito A. B. Foust e no dia 2 de fevereiro, em Nashville, pelo governador do Estado, Mr. Gordon Browning.

― O Estado do Tennessee vos saúda, pela bravura, heroísmo e pelo ideal que carregam dentro de si – disse o governador – Somos gratos pelas suas presenças e oferecemos todo apoio material que necessitam, desde hospedagem, alimentação, pneus, combustíveis, oficina mecânica e ajuda financeira. 

Nas cidades por onde passavam, Leônidas expunha o seu projeto às autoridades e visitava os empresários, procurando incentivar a venda dos bônus, cujo dinheiro seria empregado na construção da rodovia.

Do Tennessee seguiram para o Estado de Kentucky para, no dia 6 de fevereiro, serem recebidos, em Bardstown, pelo prefeito James F. Conway.

De Bardstown seguiram para Vincent para, no dia 8 de janeiro, serem recebidos pelo prefeito J. W. Krownwll.

No dia 13 de fevereiro, chegaram em Saint Louis, Missouri, onde foram recebidos e homenageados pelo prefeito Arnould F. Drismann, que os comparou aos heróis norte-americanos Laclede e Charles Lindemberg.

― O que fizeram os tornam dignos do nosso respeito e admiração. A coragem que trazem dentro de si permite que os comparemos aos nossos heróis mais recentes. O feito de Charles Lindemberg e o que vocês acabam de realizar, os colocam no mesmo plano, em se tratando de coragem e bravura. Vocês são importantes para a nossa juventude, carente de verdadeiros modelos para sua formação - disse o prefeito.

Ainda e Saint Louis, foram recebidos por outras personalidades da cidade, entre elas, o magnata da cerveja, Mr. August A. Bush, presidente e fundador da Budweiser.

De Saint Louis, onde foram comparados a Laclede e Charles Lindemberg, seguiram para o Estado de Illinois.

No dia 10 de março de 1937 estavam em Springfiels, ocasião em que visitaram e foram recebidos pelo governador do Estado, Mr. Henry Horner e outras autoridades importantes do governo.

― Illinois sente-se honrada com a presença dos idealizadores e desbravadores da futura rodovia da integração de todos os povos da América – disse o governador.

Seguindo viagem, passaram por Joliet, para serem recebidos pelo prefeito George T. Jones.

Tantas eram as visitas às maiores indústrias norte-americanas e aos departamentos de estado, onde o Comandante Oliveira, excelente comunicador que era, explicava o seu projeto e mostrava o traçado que defendia como factível e o fazia em espanhol, a língua que aprendeu e passou a dominar, depois dos quase nove anos de viagem, cruzando paises colonizados pela Espanha.

Apesar de se comunicarem muito bem, em espanhol, sabiam que na região Norte dos Estados Unidos, era necessário um interprete e foi assim que o advogado, Mr S. W. White, passou a fazer parte da expedição, acompanhando-os por todos os cantos. Mr. White sabia  espanhol e inglês.

E foi assim que, acompanhados pelo Mister White, chegaram em Chicago, a cidade mais importante de Illinois, no dia 23 de março de 1937, sob calorosa recepção das autoridades, entre elas, o legendário comissário de polícia, James P. Allman, consagrado, antes e depois das lutas que travou contra All Capone e os gangsters que incomodavam a cidade.

 

Ainda em Chicago, visitaram a Siemmens Sears. Foram atendidos pelo General Robert Wood e, em 10 de abril, o prefeito Edward J. Kelly os recebeu em seu gabinete.

No dia 3 de junho de 1937, o prefeito da cidade de Milwaukee, Estado de Wisconsin, levou-os para conhecer o grande Lago de Michigan, onde, do outro lado, grandes emoções os esperavam. Lá estava Detroit, onde haveriam de chegar no dia 10 de junho, para serem recebidos pelo prefeito da cidade, Mr. Frank Couzens que, depois de calorosa recepção, transmitiu aos viajantes, uma mensagem do magnata do automobilismo:

― Henry Ford os convida e faz questão de recebê-los em sua fábrica. Disse que deseja conhecê-los pessoalmente. Faz questão de ver os carros e abraçar os heróis da incrível façanha.   

Saídos do Palácio Municipal, os viajantes foram para a Ford Motor Company, atendendo ao convite do magnata que, ao saber da presença dos brasileiros na frente da empresa, deixou o seu gabinete de trabalho e foi ao encontro dos expedicionários, fazendo questão de abraçá-los e apertar suas mãos, além de conhecer, pessoalmente, os dois carros idealizados por ele que, graças ao feito heróico de um baririense, conseguiu voltar para a fabrica de onde haviam saído, um, dezoito anos antes e outro, depois de onze anos, uma vez que havia sido fabricado em fevereiro de 1.926.

 

O abraço que Mário Fava recebeu do magnata foi emocionante, mesmo porque, Ford sabia, mais do que ninguém, que aqueles carros estavam aí porque um homem incomum foi capaz de levá-los. Esse homem, para o magnata, era o maior herói da façanha.

Depois de observar o estado dos carros, abrir para ver o motor e admirar os dois automóveis de sua criação, o magnata, estampando um alegre sorriso nos lábios, olhou para os três brasileiros, enquanto um assessor conferia o número dos motores e...

― Mister Ford, os motores são originais. O do automóvel traz o número 3099101 que, pelo nosso controle, foi montado no mês de maio de 1.919. Saiu da fábrica no mesmo mês para ser embarcado, rumo ao Brasil, através do Porto de Nova York. A caminhonete seguiu o mesmo destino. O motor, também original, traz o número 13177717, indicando que foi montado em fevereiro de 1.926.

O magnata ficou impressionado com o que ouviu do assessor. Aproximou-se do baririense, olhou para dentro de seus olhos, sorriu discretamente e...

― Você fez o impossível se fazer possível.

As palavras de Ford, traduzidas pelo Mister White, fizeram Mário emudecer e sentir as pernas tremerem. Não chorou porque havia aprendido com o pai, que homem que é homem não chora, mas é certo que sentiu um nó na garganta e, com muito sacrifício, conseguiu conter as lágrimas. O baririense não pronunciou uma só palavra – fez apenas um gesto com a cabeça.

― Vou falar de vocês com o Presidente Roosevelt. Procurem a Embaixada do Brasil para que agende e formalize uma visita à Casa Branca. Osvaldo Aranha conhece todos os tramites e as formalidades.

As palavras do magnata fizeram os brasileiros sentirem que seus esforços e sofrimentos estavam compensados e que a consagração havia superado, em muito, suas expectativas. 

Antes da despedida, o magnata voltou a apertar as mãos e abraçar os brasileiros, momento em que foi possível perceber sua gratidão pelo que o mecânico fez, para consagrar, ainda mais, a marca mundial dos automóveis Ford, mais notadamente o fantástico e valente modelo “T”.

Antes de retomarem a viagem, o magnata resolveu comprar os dois carros que acabava de ver, propondo uma verdadeira fortuna pelos dois automóveis, com a intenção de incorporá-los e exibi-los no Museu da Fábrica.

Os expedicionários agradeceram pela oferta milionária e seguiram para o Estado de Ohio, passando pela cidade de Búfalo, a caminho de Cleveland, onde foram recebidos, em 30 de agosto de 1937, pelo prefeito Harold H. Burton.

Em setembro estavam em Akron, no Estado de Ohio para visitar os presidentes e diretores das grandes indústrias aí instaladas.

Na Sieberling Rubber Company foram recebidos pelo seu proprietário e presidente, Mr. F. A. Sieberling. Na General Tire & Rubber Company, foram recebidos pelo seu presidente Mr. O’Neil e, no dia 22 de setembro de 1937, visitaram a fábrica-matriz da Goodyear Tire Rubber Company, ocasião em que, a convite do presidente mundial da empresa, Mr. P. W. Litchfield, os intrépidos e consagrados viajantes, acompanharam a alta diretoria da multinacional para desfrutar de um belo passeio panorâmico, à bordo do famoso dirigível da companhia.

Mário encantou-se com a viagem. Lembrou-se da infância humilde no quintal grande da casa da estrada da Igrejinha e, agora, ao sentir o mundo aos seus pés, vendo-o de cima, emocionou-se:

― O Criador continua exagerando comigo. Eu não mereço tanto – disse para si, o mecânico.

No mês de outubro, os expedicionários estavam na Pensilvânia e, ao passarem por Pettsburgh, foram recebidos pelo Comissário da Polícia, Mr Franklin T. M. Duaide. De Pettsburgh seguiram para Cumberland, Estado de Maryland, onde o prefeito Thomas W. Koon os aguardava. Em seguida, rumaram para Hargerstown, passando por Baltimore onde, em 19 de outubro, foram recebidos pelo prefeito Howard W. Jackson e, em Annapolis, o governador do Estado de Maryland, Mr. Harry W. Nice os recebeu e cumprimentou-os pela façanha.

― Não é preciso dizer nada. Desejo apenas cumprimentá-los e manifestar, dessa maneira, a minha admiração – disse o governador.

 

 

Depois de um ano em território norte-americano, percorrendo-o de um lado para outro para apresentar o mirabolante projeto, os expedicionários chegaram à Washington, onde, pelas mãos e acompanhados por Oswaldo Aranha, o embaixador brasileiro de então, foram recebidos, no dia 29 de outubro de 1937, pelo Diretor Geral da Pan American Union, atual OEA, Organização dos Estados Americanos, Mr. L. S. Rowe.

 

No dia 2 de novembro de 1937, a mais famosa e conceituada agremiação de estudos e editora de um dos principais veículos de divulgação científica da época, a National Geográfic Society, paralisou os seus trabalhos para receber os expedicionários.

O presidente da sociedade, Dr. Gilbert Grovesnor e todo o seu staff, deixaram os seus gabinetes de produção e pesquisa para homenagear os expedicionários e tirar uma fotografia para fazer constar, em seus registros, a histórica passagem dos três heróis brasileiros, pela Sociedade.

 

 

 

 

 

 

 

As homenagens recebidas ao longo da viagem, desde a saída solene no agora distante 16 de abril de 1928, na cidade do Rio de Janeiro, até a festiva passagem pelos Estados Unidos, por si só, seriam suficientes para que os expedicionários considerassem que haviam cumprido a nobre missão, além da  satisfação pela fama e glória que estavam desfrutando, porém, um outro fato ainda haveria de acontecer, para a consagração definitiva: o homem mais importante da América e mais poderoso do Mundo, queria conhecê-los pessoalmente e o dia foi marcado para 3 de março de 1938.

 

            Chegado o dia que haviam agendado, os expedicionários, acompanhando o Ministro da Guerra dos Estados Unidos, General Henry Woodring, o Embaixador Osvaldo Aranha e o interprete Mr. S. W. White entraram no Gabinete Principal da Casa Branca, onde o Presidente Franklin Delano Roosevelt, os aguardava.

Franklin os recebeu cordialmente e apertou a mão de cada um.

Depois das formalidades o homem mais poderoso do mundo ouviu do Comandante Oliveira todas as explicações sobre o projeto e sobre a viagem heróica, além receber uma cópia do traçado preliminar da futura rodovia.

 

O Presidente ouviu, atentamente, a explanação do comandante e, na despedida, fez com que a sua assessoria anotasse e datilografasse um documento para cada um dos expedicionários, que ele mesmo ditou.

O documento recebido pelo baririense dizia o seguinte:

“Gentlemen

            It is a privilege to welcome you to the United States and congratulated you on the historic expediccion wich you have recenty completed from Rio de Janeiro to Washington. The energy and perseverance demonstred by you in successiully completing this difficult journey will be a stimule an encouragement for development of better highways between The American Republics in which we are all so deeply interested”.

 

                          Very sincery yours

                       Franklin Delano Roosevelt

                                   “President”

 

 

 

 

Depois da inesquecível recepção do Presidente, a expedição seguiu para Nova York, preparando-se para o retorno, via navio, que deveria partir do porto da cidade, com destino ao Rio de Janeiro.

Nos dias que antecederam a partida, foram recebidos pelo prefeito La Guardia e pelas mais expressivas autoridades da cidade e, na tarde do dia 5 de maio de 1938, depois aproveitarem a manhã para  visitar o “The Empire State”, o edifício mais alto do planeta, os três expedicionários e os dois valentes automóveis Ford, Modelo “T”, embarcaram  rumo à Pátria Amada certos e seguros de que haviam realizado um grande feito e que todo sofrimento haveria de ser compensado, também no Brasil, pelo simples reconhecimento, a exemplo do que aconteceu nos paises por onde passaram.

Na partida, a Dra. Buena, que acompanhou o comandante durante a peregrinação, desde a cidade do México até o Porto de Nova York, não embarcou – retornou, de ônibus, para cuidar  do seu “pueblito”, que havia deixado em Tapachula, atendendo ao pedido da Virgem de Guadalupe, a mãe de todos os mexicanos e de todos nós.

“― No estoy yo aquí, que soy tu madre?” 

 


XXIII

Retorno ao Brasil e recepção em Bariri

                                                                                                          

 

            Certos de que a saudade superava toda dor e as emoções vividas, os expedicionários e os dois carros desembarcaram no Rio de Janeiro no dia 25 de maio de 1938.

Traziam na bagagem dez anos de aventura e glória, além de um fantástico amadurecimento, forjado que foram pela experiência e pelos problemas que enfrentaram e superaram, como somente os bravos são capazes de fazê-lo – Foram heróis e como tal, consagrados na terra dos outros.

 

Alicerçados pela honra da realização da incrível façanha, depois de alguns dias desfrutando o prazer de pisar o chão sagrado da Pátria Amada, foram conduzidos por Osvaldo Euclides de Souza Aranha, que acabava de assumir a pasta de Ministro das Relações Exteriores do Brasil, depois de ocupar a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, ao Presidente da República, Sr. Getúlio Vargas, que enalteceu o feito da expedição e entre outras honrarias batizou ruas do Rio de Janeiro com o nome das cidades natais dos expedicionários e foi desse encontro que nasceu a Rua Bariri, uma homenagem que a cidade, honrosamente recebeu, pelo feito de Mário Fava, um dos heróis das três Américas.

― Mário, a legislação determina que apenas pessoas falecidas sejam homenageadas, cedendo os seus nomes a ruas, praças ou qualquer outra coisa pública. Hoje, não posso fazê-lo em seu nome, porém, quero imortalizá-lo de uma forma ou de outra – disse o presidente.

― Se esse é o desejo de Vossa Excelência, o faça em nome da cidade em que nasci – respondeu o mecânico.

― Vou pedir para que o prefeito Henrique de Toledo Dodsworth siga os trâmites para esse fim e coloque, provisoriamente, o nome da sua cidade em uma das ruas da Capital Federal. Caberá aos seus sucessores solicitarem a alteração para o seu nome, após a sua morte – disse o presidente.

― Espero viver muito, senhor presidente. Tenho apenas 31 anos – disse o mecânico.

― Mas afinal, qual é o nome da sua cidade? - perguntou o presidente.

― Eu nasci em Bariri, que fica no centro do Estado de São Paulo – disse o mecânico.

Getúlio pediu à sua assessoria que anotasse o nome da cidade do homenageado e encaminhasse, de maneira apenas informal, em forma de bilhete ou memorando, ao prefeito Dodsworth, para que tomasse providências junto à Câmara dos Vereadores.

― Os vereadores e os prefeitos sabem, muito bem, como dar nome aos logradouros públicos. Muitos deles apenas se ocupam em colocar o nome dos parentes nas ruas da cidade e não se interessam pelas coisas mais valorosas para o povo – disse o presidente.

― Supinos – disse o mecânico, jocosamente.

― E prefeitinhos – completou o presidente.

Além do encontro com Getúlio Vargas, no Palácio do Catete, estiveram no Ministério da Viação e Obras Públicas e aí entregaram os originais do projeto da futura rodovia, para serem encaminhados para a Chefia do Estado Maior do Exército, onde foram recebidos e cumprimentados pelo general Góes Monteiro.

― Parabéns pelo que realizaram. O que fizeram representa um avanço importante para a paz entre os povos e um orgulho para o Brasil. A nação lhes é grata – disse o general.

Depois das recepções em órgãos oficiais do governo brasileiro, os expedicionários deram início a uma série de conferências, destacando-se a que aconteceu no Automóvel Clube do Brasil, realizada no dia 26 de julho de 1938. Os expedicionários aí estiveram, atendendo ao convite do Sr. Francisco G. de Couto Netto.

Na chegada ao local e durante a palestra, os expedicionários foram aplaudidos e ovacionados pelos presentes, além de serem convidados a participar, como atração, do “Raid Rio de Janeiro – Vassouras” que seria realizado dias depois.

Tantas foram as honrarias na Capital Federal, que os paulistas passaram a solicitar e aguardavam ansiosos pelos expedicionários que, atendendo aos insistentes pedidos, seguiram com os carros da façanha para a cidade de São Paulo, onde haveriam de participar de congressos, conferências e palestras, para depois seguirem para o interior, onde Oliveira encontraria a sua família, amigos e amores dos tempos de infância e juventude, vividos em Descalvado, no interior do Estado de São Paulo. O mesmo estava programado para Mário Fava, que viajaria para Bariri, onde sua família o aguardava, tal como na Escritura Sagrada, quando o pai esperou pacientemente pelo retorno do filho.

Chegados à capital dos paulistas, os expedicionários visitaram as autoridades locais e proferiram palestras em clubes, escolas e anfiteatros, contando da viagem e recebendo aplausos calorosos da população. Depois das tantas homenagens e entendendo que a façanha representava muito para a humanidade, os viajantes entregaram os dois carros ao Museu do Ipiranga, que colocou o Brasil sob a asa direita do avião “Jahú”, outro símbolo imortal do destemor da brava gente da região central do Estado de São Paulo e a caminhonete, por não ter espaço no edifício, foi colocada num terreno baldio, no Bairro do Ipiranga..

Depois de cumprirem os compromissos programados para a capital dos paulistas, o Comandante Oliveira abandonou os companheiros Mário e Francisco, sem despedidas e sem pagar as despesas no hotel onde os três estavam hospedados.

― Foi triste a separação – confidenciaram, entre si, o engenheiro e o mecânico.

Depois de confirmado o abandono por parte do Comandante, cada um seguiu o seu caminho, pensando que nunca mais se encontrariam.

Era o final do mês de maio de 1939 e ao Mario coube sair de São Paulo, depois de 11 anos distante da família e de sua cidade natal, e seguir para Bariri, viajando por trem até Jaú, para depois seguir da estação ferroviária até o Mercado Municipal, onde havia um ponto de jardineira, no seu interior, com dois horários para Bariri.

Mário tomou a jardineira do primeiro horário, que deixou Jaú e pegou a estrada empoeirada, rumo a Bariri. A jardineira passou por Pouso Alegre, pela subida da Fazenda Palmeiras, pelo Bairro da Queixada, para duas horas depois da partida, entrar em Bariri, pelo Bairro da Igrejinha.

A viagem entre a Igrejinha e o núcleo principal da cidade parecia demorar um século. Mário observava, olhando pela janela da jardineira, as mudanças que aconteceram nos onze anos de ausência. Havia casas que antes não existiam e o movimento das charretes, carroças e dos animais chamou-lhe a atenção.

― Bariri progrediu muito nos últimos anos – pensou o mecânico.

Enquanto a jardineira avançava e parava a cada quadra, Mário procurava ver a casa de seus pais, que não demorou a surgir, pouco à frente.

― Ufa! Até que enfim – disse Mário - levantando-se e seguindo para a porta de saída da jardineira.

 O veículo parou na frente da casa onde nasceu e onde passou a infância e juventude.

A mãe, atenta, pareceu pressentir a chegada do filho herói – intuição de mãe – e, ao perceber que a jardineira parou na frente da casa, quase enlouquecida pela saudade que a ausência do filho lhe causara, gritou para o marido João e para os filhos, que eram tantos:

― João, Antonio, Aida, o Mário chegou. A jardineira veio e trouxe o meu filho.

E havia chegado mesmo.  Muitas foram as lágrimas e os abraços. A mãe chorou, o pai chorou e os irmãos também choraram e Mário, que procurava resistir à emoção, não conseguiu conter as lágrimas e também chorou, abraçando a mãe e a família que, no seu entorno, disputava por um abraço.

― Meu filho, por que você fez isso pra sua mãe? Foram onze anos esperando por esse dia e agora, me custa acreditar que você voltou. Será que estou sonhando, como aconteceu em tantas outras vezes?  - dizia a mãe, em pranto.

― Eu não sabia que era tão longe – respondeu o filho – mesmo assim e apesar do sofrimento, sinto que valeu a pena.

A notícia da chegada do Mário, agora consagrado e amadurecido pelos tantos quilômetros percorridos, correu a cidade e em pouco tempo todos sabiam da novidade e queriam ver o jovem que, um dia, deixou tudo e saiu à procura do seu destino.

Mário aproveitou os dias que permaneceu ao lado dos pais para rever os parentes e amigos de infância, além de matar a saudade dos empreendimentos que o pai ainda mantinha nos fundos da casa – a máquina de beneficiar arroz e o moinho de fazer fubá, agora acrescidos por mais uma novidade: uma pequena fábrica de fazer gelo.

― Essa máquina de fazer gelo é a primeira do interior do Estado de São Paulo – dizia o pai empreendedor

Mário esteve com o João Cava, que trabalhava como motorista de praça e servia, entre tantos, os médicos da Santa Casa nos seus deslocamentos para atender aos doentes. Cava lhe contou do triste fim que teve Claudionor Barbieri, um dos meninos de seu tempo, que colocou a vida em favor da causa dos paulistas e que havia encontrado o seu fim no interior de uma trincheira fria e sangrenta, na cidade de Silveiras, próximo à divisa com o Estado do Rio de Janeiro. Falou também do José Teixeira, que havia atuado com heroísmo e bravura quando, em 1919, a gripe espanhola castigara a cidade. O feito do Teixeira nunca foi reconhecido, talvez por preconceito ou inveja.

― Hoje ele está exagerando na bebida – disse o chofer de praça.

Mário aproveitou cada minuto daquele junho de 1939 para matar a saudade que os onze anos de ausência lhe causaram. Esteve com o João Dugnani, com o intelectual Vítor Azevedo Pinheiro, Orlando Beluzzo, Zé Piqüira e Abílio Ticianelli.

Mário, agora com 32 anos, trazia dentro de si uma invejável bagagem de experiência e amadurecimento e precisava dar destino aos dias que viriam pela frente:

― Bariri ficou muito pequeno pra mim. Sinto que, aqui, o meu futuro será muito limitado – pensava o baririense.

Enquanto procurava pensar no futuro, Mário conversava muito com os pais - falava do sofrimento, das emoções e da consagração e glória vividas nos últimos 11 anos. Atendia aos convites que lhe eram feitos pelos amigos e pelas famílias da cidade, que o chamavam para um bom papo.

Um dia, Juca Masson o convidou e Mário foi visitá-lo, oportunidade em que aproveitou para saborear o bom cafezinho preparado pela Dona Mariquinha. O mecânico passou algumas horas falando da viagem, sob o olhar do menino Ibrahim, então com seis anos de idade que, sentado no chão da sala e com os olhos atentos, procurava não perder uma só palavra.

Mário permaneceu um mês na cidade e há registros de que, no dia 14 de junho de 1939, as autoridades maiores do município dirigiram-se à casa da família Fava e lá foram recebidos pelo Sr. João e pela Dona Cezira, pais do herói que, pela bravura e determinação, havia adquirido fama mundial.

Nesse dia, Mário contou alguns dos fatos acontecidos ao longo da viagem histórica e recebeu das mãos do prefeito, o Dr. Benedito Gomes, uma medalha, como reconhecimento da cidade, pelo feito vitorioso que o cobriu de glória e fama em todos os países da América. A entrega da medalha foi seguida de uma saudação proferida pelo Dr. Antonio Galízia, chefe do Centro de Saúde local.

― Mário, a cidade está feliz com o seu retorno. Você é o orgulho da nossa gente e exemplo para as futuras gerações. Você voltou na condição de herói e assim será lembrado por todos os tempos. Bariri lhe é grato e saiba que nos seus momentos de sofrimento, nós sofríamos com você e quando entrava nos Palácios Presidenciais para as merecidas homenagens, Bariri entrava com você. Bariri lhe é grato e a medalha que acaba de receber é uma homenagem que, embora singela, lhe é dada por merecimento e reconhecimento pelo seu feito. Você é um herói.

Além do prefeito e do Dr. Antonio Galízia, estiveram, como parte da comitiva, o Dr. Edgard de Moura Bittencourt, MM. Juiz de Direito; o Dr. Euclides Ferreira Guarita, Delegado de Polícia; o Dr. João Plasa, Promotor Público; o Farmacêutico Sr. José de Moraes Pacheco; Domingos Oréfice, Segundo Tabelião; o Sr. Juvenal Ferreira Dias, Escrivão do Cartório de Registro Geral; o Sr. Pedro Galízia, Coletor Federal, e os Srs. Jorge Sabbag, Camilo Resegue, João de Araújo Negrão, Santo Barbieri, Cirto Bonini, Arthur Binotto, Carlos Sabbag, Cássio Tibiriçá, Farid Jorge Resegue e Domingos Galízia Regina.

            Aquele junho de 1939 passou sem que o mecânico percebesse e, ao chegar o mês de julho, arrumou as malas e foi para o Rio de Janeiro, sem saber que novos desafios o aguardavam.            

                                                                                              

 

 


XXIV

Marcha para o oeste e a nova capital

                                                                                                          

 

            Mário retornou à Capital Federal porque sentiu que o sofrimento e as emoções vividas durante a viagem fizeram-no crescer tanto e Bariri continuava pequeno, não tendo espaço para ele. Os últimos dez anos lhe deram muita experiência. Mário havia amadurecido mais do que qualquer homem comum de sua época. Precisava de espaço para experimentar novas aventuras e sensações que somente uma cidade grande, a maior do Brasil de então, poderia oferecer.

― O Rio de Janeiro homenageou-me colocando o meu nome numa rua. Embora provisório, a Rua Bariri chama-se, na verdade, Rua Mário Fava ou Rua Giuseppe Mário Fava. Segundo o presidente Getúlio Vargas, um dia o nome atual deixará de ser provisório, o que é uma honra para mim. Sou grato ao Rio de Janeiro e é através dessa cidade que retomarei o meu destino – pensava o baririense, enquanto viajava para a Capital Federal.

E foi mesmo. No Rio, depois de permanecer dois ou três meses realizando alguns serviços menores, encontrou-se, outra vez, com o companheiro Lopes da Cruz e juntos foram trabalhar na CSE – Companhia de Serviços de Engenharia, para lá realizarem algumas obras relevantes no ramo das grandes construções, abertura de estradas, terraplanagens e pavimentação.

Durante os três anos em que trabalhou nessa empresa como operador de máquinas, fez parte da equipe que, em Caçapava, recuperou e modernizou um dos segmentos da nova estrada, destinada a ligar a Capital Federal à cidade de São Paulo, que experimentava um impressionante desenvolvimento, forjado pela revolução industrial provocada pela força da mão laboriosa dos imigrantes que aí aportavam, desde o final do século XIX e início do XX.

― São Paulo não pode parar – diziam, à todo momento, os progressistas de então.

Depois de Caçapava, Mário foi para Curitiba, onde trabalhou na construção do Aeroporto Afonso Pena, inicialmente utilizado como base militar da nossa gloriosa Aeronáutica e depois, transformado em aeroporto civil.

Depois de tantas idas e vindas das frentes de trabalho para a sede da CSE – Companhia de Serviços de Engenharia, empresa que mantinha seu escritório instalado na Rua México, importante via do centro do Rio de Janeiro, Mário encontrou-se com o engenheiro agrônomo e veterinário Dr. Bernardo Sayão Carvalho de Araújo, que acabava de ser nomeado pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas para comandar a implantação da Colônia Agrícola Nacional de Goiás no vazio desconhecido da floresta do Planalto Central, antes e tão somente, conhecida por Bartolomeu Bueno da Silva, o bandeirante cognominado Anhanguera, que amedrontou os nativos, ameaçando colocar fogo nas águas, valendo-se para a mágica, de uma porção de aguardente, de alto teor alcoólico.

A noção de vazio territorial atualizava o conceito de sertão, entendido como um espaço abandonado que, desde as denúncias de Euclides da Cunha, vinha preocupando as elites brasileiras interessadas em construir uma nação. Por outro lado, as áreas ocupadas do Brasil eram vistas como um arquipélago, onde cidades ou regiões, pouco tinham a ver entre si. A criação, em 1937, do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) indicava, sem dúvida, a importância das estradas como instrumento de comunicação entre as regiões e as cidades. Foi assim também que, em 1940, Vargas lançou a chamada "Marcha para o Oeste", como uma diretriz de integração territorial para o país, e o fez durante os festejos de inauguração da cidade de Goiânia. Essa cidade, obra do interventor Pedro Ludovico Teixeira, foi projetada pelo arquiteto Attílio Corrêa Lima, que também estava envolvido com a construção da cidade industrial de Volta Redonda, outro projeto estratégico do governo Vargas. Volta Redonda condensava a promessa de progresso que o governo Vargas apresentava, de um novo Brasil, urbano, industrial, moderno e com alto padrão de vida.

A Marcha para o Oeste retomava as antigas tradições coloniais e valorizava a figura do bandeirante, considerado o grande herói nacional, já que fora ele o responsável pela efetiva conquista do território brasileiro.

Com tal iniciativa, segundo o discurso de Vargas, o Brasil estaria reatando a campanha dos construtores da nacionalidade, ou seja, dos antigos sertanistas.

A ação política concreta do Estado Novo se fez sentir com a criação dos territórios federais, em 1943: Amapá, Rio Branco (atual Roraima), Guaporé (atual Rondônia), Iguaçu e Ponta Porã. O governo federal atuou também na região de colonização do norte do Paraná, que deu origem a uma série de novas cidades, como Londrina, Maringá, Cianorte e Umuarama.

O Brasil, em 1941, estava no auge do Estado Novo, numa época em que a Europa passava pelo sofrimento da mais terrível das guerras que o mundo enfrentou e foi nesse clima que o presidente brasileiro decidiu adotar sua política de colonização do interior do país, a chamada “Marcha para o Oeste”, com o objetivo de ocupar espaços vazios, ainda desconhecidos, do território nacional.

A Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), que fazia parte da marcha heróica, foi a primeira de uma série de oito, idealizadas pelo Governo Federal. Além de Goiás, outros Estados, como Amazonas, Pará, Maranhão, Paraná, Território de Ponta Porã, Piauí e Minas Gerais estavam nos planos de ocupação territorial do presidente.

Com o pensamento voltado para o tão sonhado propósito, Getúlio Vargas convidou o agrônomo Bernardo Sayão para a implantação da Colônia Agrícola Nacional de Goiás.

A área para o assentamento do primeiro núcleo colonial, denominado CANG (Colônia Agrícola Nacional de Goiás), criado pelo Decreto nº 6882 de 19 de fevereiro de 1941, localizava-se num lugar que pertencia ao município de Goiás e dele foi desmembrado, numa extensão equivalente 96800 hectares, para culminar na fundação dos atuais municípios de Ceres e Rialma, cujas terras desmembradas foram doadas à União Federal pelo Governo do Estado de Goiás, através do Decreto-Lei n.º 3704, de 4 de novembro de 1940.

Após a nomeação para a missão do presidente, o engenheiro agrônomo e veterinário Bernardo Sayão Carvalho de Araújo começou a montar sua estratégia e para isso precisava de homens valentes e dispostos a abandonar o bem-bom que o conforto da cidade grande permitia, para encarar o desconhecido. Deixar as praias e a cidade maravilhosa não era coisa fácil.

Sayão, que acabava de conhecer o baririense e tendo se impressionado com as histórias que o novo amigo lhe contava, saiu à sua procura.

Sayão e Mário, ambos com o espírito voltado para os grandes desafios, eram muito parecidos e a semelhança os fez mais que irmãos. Depois do primeiro encontro, qualquer um poderia avaliar que não era mais possível que um vivesse sem o outro.

 ― Vamos desbravar o chão desconhecido do interior de Goiás? – disse o agrônomo para o baririense.

― Se o Doutor não me convidasse eu seria capaz de me oferecer – respondeu o baririense – sou brasileiro, do tipo que não se acovarda diante dos desafios. Gosto de encarar as dificuldades e o meu prazer é humilhá-las.

Nesse momento, Bernardo sentiu que tinha à sua frente um homem raro, do tipo “pau pra toda obra”.

― Quando fui, por terra e sem estradas, até o norte dos Estados Unidos, eu não sabia que era tão longe. Hoje, para mim, não existe distância e nem desafios. Sei muito bem onde fica o Estado de Goiás e estou certo de que venceremos – disse Mário para o Dr. Sayão.

― Então vamos que vamos. Prepare as coisas que pretende levar, que sairemos para essa missão. Será uma verdadeira marcha para ocupar esse vazio, conforme recomenda o presidente. Tenho consciência de que a nossa caminhada ficará registrada na história da nossa Pátria – disse o agrônomo.

Em 1941, a última cidade daquela região era Anápolis, com menos de 50 mil habitantes. Sayão e os que o acompanharam instalaram suas barracas e ferramentas às margens do Rio das Almas, afluente do Tocantins, distante 142 quilômetros de Anápolis, bem no interior do vazio. A primeira missão era construir uma estrada, ligando o futuro assentamento a Anápolis. Em 1944, depois de muita luta e trabalho, a estrada estava concluída.

Sayão fixou residência na Colônia e para lá levou sua família. Era casado, em segundo matrimônio, com a Dona Hilda Fontenelle Cabral, que lhe deu os filhos Fernando, Bernardo, Lia e Lílian. Sayão era viúvo do primeiro casamento, depois do falecimento da Dona Lygia Mendes Pimentel, em 1935, que lhe deixou duas filhas, a Lea e a Laís.

            Para efetivar a política de colonização e consolidar a marcha rumo ao oeste, duas medidas eram essenciais e determinantes. A primeira era a abertura da mata para o assentamento dos agricultores e a segunda, a abertura dos caminhos e a construção de estradas.

Quando chegaram a Goiás, já existia uma estrada que ligava Anápolis a Jaraguá, e a primeira ação foi estendê-la até a colônia e depois até Uruaçu, que foi transformada na principal via de escoamento. Esse foi o início da atual BR-153, a Rodovia Belém-Brasília que, naquela época, era chamada simplesmente de “A Federal”.

A estrada denominada “A Federal” ficava do outro lado do Rio das Almas, oposto à colônia. Era preciso encontrar um jeito de fazer a travessia.

O agrônomo era um homem extremamente prático. Preocupava-se com o homem e visava a agilizar o cumprimento de suas tarefas, adotando soluções não burocráticas, como a construção de uma ponte sobre o Rio das Almas.

Cansado de pedir dinheiro ao Governo Federal, Sayão decidiu colocar a mão na massa. Juntou um grupo de pessoas e saíram em busca de tambores de óleo, vazios. Os tambores foram amarrados com cabos de aço. Depois de fixá-los lado a lado, Sayão e sua turma colocaram duas fileiras de pranchas para cobri-los. Depois de amarradas às duas margens, a ponte desejada estava pronta e, devido ao balanço que o movimento da água provocava, foi apelidada, por Sayão, de “Carmem Miranda”. A ponte dos tambores foi um marco na estrada entre Ceres e Rialma.

Terminada a primeira fase da implantação da colônia, Sayão voltou ao Rio de Janeiro e retornou para a Colônia, conduzindo um comboio de 72 máquinas agrícolas, viaturas e uma multidão de homens valentes que estavam dispostos a encarar a floresta impenetrável. Mário o acompanhou nessa viagem histórica que durou 48 dias.

 A Colônia prosperou e, em pouco tempo, foi transformada num núcleo importante, dentro dos objetivos da histórica marcha.

Na Colônia, só ganhava lote quem era casado e os imigrantes que chegavam de todos os cantos do Brasil, se não eram casados, tinham que casar.

Os colonos recebiam lotes de 26 a 32 hectares e tinham assistência médica, ferramentas, sementes e uma casa de tijolos coberta de telhas, de graça, porém, esses benefícios não atingiam a todos, em decorrência das dificuldades da época.

A cultura do arroz era prioritária e obrigatória para os colonos que se assentavam, entretanto, no Córrego do Oriente, imigrantes japoneses iniciaram o plantio do café. Na cafeeira, como ficou sendo conhecida a região, milhões de sacas foram colhidas, mas a cultura não prosperou por causa do clima e a maioria das famílias acabou deixando a colônia.

Em 1946, a Colônia contava com 1600 famílias e, em 1950, a população era de quase 30000 pessoas, o que conferia à CANG uma densidade demográfica de 35 hab/Km². Desse total, a zona rural absorvia 93%.

A Colônia Agrícola crescia com rapidez. Os que chegavam recebiam, gratuitamente, um lote na zona urbana ou a pequena área na zona rural. Na realidade, foi essa uma experiência vitoriosa da tão comentada Reforma Agrária e foi aí que Goiás iniciou a fase de criação de povoados, distritos e municípios.

A CANG pertencia ao município da Cidade de Goiás e os vereadores da antiga capital goiana queriam que a Colônia Agrícola recebesse o nome de “Ouro Fino”, com o que o engenheiro Bernardo Sayão não concordou, uma vez que, desde a fundação da CANG, guardava no bolso do colete o nome que seria dado à cidade, assim que a colônia fosse extinta: Ceres, que em grego significa Deusa da Agricultura, Deusa da Fartura ou Deusa dos Cereais, nome curto, significativo e, acima de tudo, bonito.

Quando da elevação da CANG para distrito, o Dr. Divino Antônio de Oliveira era prefeito da Cidade de Goiás que, impossibilitado de ir à CANG, nomeou o seu amigo e correligionário Alaor Barbosa da Silva, que residia no Carmo do Rio Verde, para que o representasse.

 Em 1953 o nome foi cogitado, quando da solicitação efetuada por Bernardo Sayão para que a empresa de Saturnino de Brito criasse o Projeto da Cidade de Ceres e coube ao então secretário da agricultura de Goiás, Dr. Humberto Ludovico, a aprovação do nome idealizado por Sayão e foi, a partir de 1954, com a instalação do município no dia 1º de janeiro, que o nome passou a ser oficializado.

            Cumprida a missão outorgada por Getúlio, Sayão saiu para a política – não resistindo ao chamado da população e à insistência dos partidos que dominavam a política do Estado de Goiás e elegeu-se, em outubro de 1954, pelo Partido Social Democrático (PSD), vice-governador, na chapa encabeçada por José Ludovico de Almeida.  Eleito vice-governador do Estado de Goiás em 1955, ocupou o cargo de governador durante três meses, enquanto aguardava eleições suplementares que legitimariam a posse do governador José Ludovico de Almeida.

Durante o período em que Sayão se envolveu na política, Mário montou, em Ceres, antiga colônia e agora, a cidade progressista que ajudara a fundar, uma máquina para beneficiamento de arroz, revivendo, assim, uma das tradições que a família ainda mantinha em Bariri.. Montou, também, uma oficina para cuidar e reparar máquinas agrícolas, tratores e todo tipo de veículo.

Beneficiando arroz, Mário revivia a infância e a oficina o fazia lembrar as emoções vividas na viagem histórica que a futura Carretera Pan-americana lhe permitiu.

Sayão, depois de ocupar interinamente o cargo de governador do Estado, ou seja, de 31 de janeiro de 1955 até 12 de março do mesmo ano, acompanhou o Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira, então candidato à Presidência da República, pelo PSD, que percorria o in