CANDEIA - MÁRIO FAVA

Candeia:

O seu artigo sobre o Mário Fava, publicado no Jornal Candeia de 11/03/2006 despertou muita curiosidade entre os baririenses, principalmente  nos mais jovens. Como é que você tomou conhecimento dos feitos do nosso conterrâneo?

Osni:

A primeira informação que tive foram através dos registros históricos dos escritores baririenses João Batista de Melo, Adib Moysés Salomão e do Eugênio Gatto Neto. Sabia também que a Rua Bariri, onde fica o campo do Olaria F.C, no Rio de Janeiro, é uma homenagem que o governo brasileiro fez a ele, em 1.938, mas não sabia que Bariri estava na Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião. Recentemente encontrei o Beto Braga, que pesquisa os feitos da expedição de que fez parte o nosso Mário Fava, e estou impressionado com o nosso conterrâneo. Passei um dia todo em sua casa e verifiquei que Mário foi um dos grandes heróis da América.

Candeia:

E como é que você ficou sabendo da sinfonia?

Osni:

É coisa recentemente. Foi agora em 20 de janeiro, quando a Cidade Maravilhosa comemorava o dia do seu padroeiro. Eu estava assistindo a um dos telejornais do dia e aí disseram da festa que o Rio de Janeiro fez e, quando da apresentação da sinfonia, levei um tremendo susto ao ouvir a quarta estrofe da abertura: Toca, toca carioca / Maracanã, Bariri / Samba, muito samba / Marquês de Sapucaí. A estrofe não foi repetida e eu fiquei naquela de: Será que é isso mesmo que ouvi? Fui para o computador e tentei baixar a letra pela Internet e era verdade. Lá, na quarta estrofe da abertura, estava o nome de nossa cidade e foi colocada por causa da Rua Bariri. Entendi que nela o autor quer dizer que no Rio, o futebol acontece desde o Maracanã até o campo do Olaria e, esse toca, toca carioca é o toque que se dá na bola. Existe também uma outra música, gravada pela Leila Pinheiro, que fala da Rua Bariri.

Candeia:

Parece-nos que você foi mais além, não foi?

Osni:

Sim, é verdade. Sei que a grande maioria dos baririenses nunca ouviu falar do Mário Fava e, como a Internet nos traz coisas que nem imaginamos, passei a procurar pelo nosso herói e, da mesma forma que levei o susto ao ouvir a Sinfonia, assustei-me ao ver, na tela do computador, que o Ford modelo “T”, ano 1.923, utilizado pelos expedicionários encontra-se em São Paulo. Imediatamente liguei para o diretor do Museu, o Sr. Henrique di Santori e ele confirmou que aquele era o carro do Mário. No dia seguinte fui pra São Paulo e lá estava o carrinho. Fiquei muito emocionado. No museu havia algumas coisas escritas, que li atentamente.

Candeia:

Conte-nos o que o museu traz nos seus registros?

Osni:

A viagem dos três expedicionários é considerada como a maior façanha do automobilismo mundial. Uma reportagem publicada na Revista Quatro Rodas, de junho de 2.000, está exposta no museu. A reportagem conta que a América sonhava com o pan-americanismo e logo surgiu a idéia da construção de uma estrada ligando as Américas e para lá foram os três expedicionários brasileiros, o Leônidas Borges de Oliveira, o Francisco Lopes da Cruz e o Mário Fava, com a intenção de definir por onde essa estrada deveria passar. Veja bem, a estrada ainda não existia e a extensão para unir as Américas, de uma extremidade à outra, é de 26.000 Km, sendo que, na ocasião, era possível aproveitar 16.000, ligando o que existia, em forma de picadas, trilhas dos índios, estradas rurais e outros caminhos em melhores condições, como as poucas estradas que existiam na Argentina, México e Estados Unidos e Brasil.

Candeia:

E qual foi sua reação ao ficar sabendo de alguns detalhes dessa viagem?

Osni:

A primeira reação foi uma vontade incontrolável de contar pra todo mundo que a minha terra tem um herói mundial e, logo em seguida, fui tomado de uma tristeza imensa, porque, mais uma vez, ficou sacramentado que “santo de casa não faz milagre”. O que os três expedicionários fizeram é considerado como a maior façanha do automobilismo mundial e nós, que deveríamos seguir o exemplo dos nossos vizinhos jauenses, que fazem do João Ribeiro de Barros, um símbolo de heroísmo, colocando-o entre os  maiores do mundo, enquanto nós nos esquecemos do Mário, deixando os nossos jovens, carentes de ídolos e de heróis. Hoje os nossos vizinhos batalham para colocar o nome do João Ribeiro de Barros  no aeroporto regional que está sendo construído em Arealva e nós não dedicamos ao homem que colocou o nome de Bariri numa sinfonia e numa rua da capital federal, nadinha de nada. Sei que em 1.939, quando ele esteve em Bariri para visitar a família, recebeu uma medalha e sei também, que seis meses após sua morte, em 1.999, a Câmara de Bariri concedeu-lhe a Medalha 16 de Junho, mas isso não é suficiente, porque os registros ficam arquivados e ninguém tem acesso. As medalhas ficam nas gavetas e não servem para imortalizar o personagem. Para o caso do nosso herói, é preciso que seu nome esteja na ponta da língua de qualquer criança e para isso é preciso que aprendam nas escolas. E mais, para que a Medalha 16 de Junho fosse concedida ao nosso herói, precisou que o Beto Braga, que não é baririense e hoje é meu amigo, minha referência e fonte das informações de que disponho, viesse para Bariri, para pedir que a cidade reconhecesse o seu filho herói. O Beto enviou-me um e-mail, dizendo que veio a Bariri, falou com o vereador Ditinho e este fez o pedido à Câmara e a medalha foi concedida. Veja, precisou partir de alguém de fora mas que é apaixonado pelo feito do Mário Fava. Para quem não sabe, o Beto Braga pesquisa a façanha do herói baririense há aproximadamente uma década e foi a ele que o Mário, poucos dias antes de sua morte, confiou a guarda de todo acervo fotográfico e documental que possuía. Visitava o Mário em Paranavaí e o recebia em sua casa. O baririense o estimava muito, e costumava dizer: “Seu Roberto, é muito feio homem gostar de homem, mas eu gosto tanto do senhor”. Ainda e em tempo, apenas para completar o pensamento, vejam o que os bauruenses fizeram com o Casimiro Pinto Neto que, num belo dia de 1.934, entrou no Ponto Chic, no Largo do Paissandu, em São Paulo, e pediu um lanche um pouco diferente daqueles que o bar costumava fornecer. A novidade foi batizada com o apelido do Casemiro, e o Bauru ganhou o mundo. A bendita fome do Casimiro, naquele dia, levou o seu nome para uma grande avenida e toda criança bauruense sabe quem inventou o lanche famoso. Um dia vi a estatua dele, em São Paulo, com uma placa identificando-o: “Sua Excelência, o Senhor Bauru”. Quer outra dos bauruenses? Aguarde para ver o que farão com o seu astronauta.

Candeia:

Parece-me que as informações sobre a viagem, que você dispõe, é grande. Conte-nos como você pretende transferi-lo para os baririenses ?

Osni:

Tenho em mãos aproximadamente quarenta fotografias digitalizadas e o histórico da viagem, desde a saída do Brasil em 1.928, até a chegada nos Estados Unidos em 1.937 e da volta, por navio, em 1.938. Ainda não havia conseguido os detalhes da passagem pelo México e tudo o que aconteceu nos Estados Unidos. Encontrei-me com o Beto, em sua casa e fiquei sabendo dos detalhes e as tenho na memória. Sei também que retornaram ao Brasil em maio de 1.938. Vieram num navio até o Rio de Janeiro, trazendo os dois carros utilizados na aventura. Sei também que foram recebidos pelas autoridades, no Rio de Janeiro e em São Paulo e que, quando em São Paulo, o Leônidas, chefe da expedição, abandonou o baririense e o Francisco Cruz, num hotel, sem dinheiro e com a conta para pagar e nunca mais se encontraram. A história é fascinante e daria um bom filme.  Conversei com a Rosana Acçolini Della Colleta e ela sugeriu que eu reescrevesse a história, apresentando-a em capítulos, uma vez que não é possível transmiti-la através de uma entrevista. A história é longa porque, afinal, foram dez anos de aventura. Vou fazê-la baseando-me nas informações que colhi junto ao pesquisador Beto, um cidadão que merece ser respeitado por todos nós, baririenses, porque a ele devemos  a guarda de uma das páginas mais ricas da história de nossa gente.

Candeia:

Você tem mais alguma coisa que gostaria de dizer?

Osni:

Quero apenas dizer aos professores de nossa cidade, que incentivem os seus alunos a lerem as matérias sobre a expedição, que deverão sair nesse jornal e também quero aproveitar para manifestar os meus agradecimentos ao Sr. Henrique di Santori, Diretor do Museu dos Transportes Públicos de São Paulo e  ao Beto, guardião apaixonado da história do nosso Mário Fava. Digo também que, se não fosse ele, a maior façanha do automobilismo  mundial, de que um baririense foi o protagonista importante, teria caído no esquecimento, mesmo porque, a nossa memória é muito fraca ou simplesmente não existe. Quero aproveitar, também, para lembrar que infeliz é o povo que esquece os seus heróis e que jamais poderíamos ter condenado o Mário Fava ao desprezo e esquecimento, e, vejam só, tivemos tempo suficiente para reconhecer o seu feito, ainda em vida, uma vez que viveu até 1.999, lúcido e com uma memória de fazer inveja a qualquer jovem. É preciso que seja reconhecido e, humildemente, quero dar minha contribuição. O Beto também não se conforma e tem idéias maravilhosas para que o reconhecimento aconteça mas, lamentavelmente, o seu pensamento nobre e desinteressado não tem encontrado eco. Bariri tem a obrigação de ser a primeira a fazê-lo, antes que outra cidade, por onde ele passou e viveu o faça. Se isso acontecer, vou morrer de vergonha, e posso lhe garantir que morrer envergonhado não faz parte dos meus planos.

 

CANDEIA - A MURALHA VERDE

CANDEIA - MÁRIO FAVA